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O ovo e a excrição

Quando o sábio aponta para a Lua, o idiota olha para o dedo (Provérbio chinês).

As pessoas não sabem ser fortuitas. Por generosidade ou por interesse, atendem apenas ao dar e ao receber, ao comum, à reciprocidade em circuito fechado. Sem excentricidade. Quem não se excede não sai do mesmo, por falta de comparência.

Sair ou não sair do ovo, eis a questão.

Excreve-te!

Fátima Mendonça. Sem Título. Acrílico.

Lou Reed. Strawman. New York. 1989. Live in Montreal, august 1989.
Georges Brassens. La mauvaise réputation. La mauvaise réputation. 1952.

Georges Brassens. La mauvaise réputation (Letra)

J’ai mauvaise réputation
Qu’je m’démène ou qu’je reste coi
Je pass’ pour un je-ne-sais-quoi
Je ne fait pourtant de tort à personne
En suivant mon chemin de petit bonhomme
Mais les brav’s gens n’aiment pas que
L’on suive une autre route qu’eux
Non les brav’s gens n’aiment pas que
L’on suive une autre route qu’eux
Tout le monde médit de moi
Sauf les muets, ça va de soi
Le jour du Quatorze Juillet
Je reste dans mon lit douillet
La musique qui marche au pas
Cela ne me regarde pas
Je ne fais pourtant de tort à personne
En n’écoutant pas le clairon qui sonne
Mais les brav’s gens n’aiment pas que
L’on suive une autre route qu’eux
Non les brav’s gens n’aiment pas que
L’on suive une autre route qu’eux
Tout le monde me montre au doigt
Sauf les manchots, ça va de soi
Quand j’croise un voleur malchanceux
Poursuivi par un cul-terreux
J’lance la patte et pourquoi le taire
Le cul-terreux se r’trouve par terre
Je ne fait pourtant de tort à personne
En laissant courir les voleurs de pommes
Mais les brav’s gens n’aiment pas que
L’on suive une autre route qu’eux
Non les brav’s gens n’aiment pas que
L’on suive une autre route qu’eux
Tout le monde se rue sur moi
Sauf les culs-de-jatte, ça va de soi
Pas besoin d’être Jérémie
Pour d’viner l’sort qui m’est promis
S’ils trouv’nt une corde à leur goût
Ils me la passeront au cou
Je ne fait pourtant de tort à personne
En suivant les ch’mins qui n’mènent pas à Rome
Mais les brav’s gens n’aiment pas que
L’on suive une autre route qu’eux
Non les brav’s gens n’aiment pas que
L’on suive une autre route qu’eux
Tout l’mond’ viendra me voir pendu
Sauf les aveugles, bien entendu!

Pelo lado de fora

Pintura japonesa

Guardo as músicas de que gosto numa pasta chamada “À espera”. Algumas esperam décadas. É o caso da canção Walk on the Wild Side, de Lou Reed, que dedico ao meu rapaz mais novo.

Lou Reed. Walk on the Wild Side. Transformer. 1972.

Músicas de medo, morte e pranto

Turner. Death on a Pale Horse, 1825-1830.

A vida é uma cereja
A morte um caroço
O amor uma cerejeira.
Jacques Prévert. Histoires. Folio, 1972

Para entrar na distopia, duas músicas menos conhecidas do Lou Reed, Waves of Fear, e dos Pink Floyd, Dramatic Theme.

Lou Reed. Waves of Fear. The Blue Mask. 1982.
Pink Floyd. Dramatic Theme. More. 1969.

Um dia perfeito

Lou ReedHoje, revi teses de mestrado. Em fim de prazo, caem como dióspiros. Actualizei, fora de tempo, o currículo na página da FCT. Retoquei uma conferência integrada na reinauguração da Casa das Artes. Refiz, pela quinta vez, a distribuição por grupos dos alunos de uma unidade curricular sui generis. Ainda não visitei o correio electrónico. É um prazer que gosto de adiar; mensagens marinadas têm outro encanto. Não passeei na areia, nem nos rochedos, nem na floresta. Vi autocarros na ponte 25 de Abril e peões na ponte do Infante. Se calhar, uma miragem. Ou um golpe de asa de um povo espremido. Acode-me, por vezes, a suspeita de que, para os novos “salvadores da Pátria”, o povo só vale pelo pouco que ganha.

Vou regressar às teses… Está uma luz perfeita para a leitura. Os pensadores da pós-modernidade proclamam a “conquista do presente”. Albergará essa conquista um homem abissal? No extremo do promontório, o homem, conquistador do presente, já não consegue olhar para trás, convocar o lastro do passado, nem para o horizonte, sondar a promessa do futuro, olha apenas para baixo, para a vertigem do abismo.

Canções como Perfect Day, do Lou Reed, são vacinas contra esta estreiteza de perspectivas.

É sábado, um dia perfeito. Just a Perfect Day

Lou Reed. Perfect Day.