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O milagre da queda

Simone Martini. The Miracle of the child falling from the balcony. Church of St. Augustine Novello, Siena, Italy. ca 1328.

Simone Martini. The Miracle of the child falling from the balcony. Church of St. Augustine Novello, Siena, Italy. ca 1328.

Hoje, deu-me, por razão insuspeita, para me fixar no tema da queda. Num quadro do séc. XIV, Simone Martini celebra o milagre em que Santo Agostinho salva uma criança da queda de uma varanda. À esquerda, o santo em levitação, ao centro, a criança em queda e, à direita, a criança salva, de pé, rodeada por testemunhas estupefactas. Este milagre tem mais de mil anos. Mudam-se os tempos, mudam-se os milagres. Há comunidades em queda prolongada e não há quem que lhes deite a mão! Só sermões. O miraculoso assume novas artes. A quem cai, tira-se-lhe o chão. Cai sem acabar de cair. A levitação é substituída pela palavra, de preferência, bendita pelos media. No tempo de Simone Martini, a queda era aos infernos; agora, é ao infinito, com coro fininho.

Flutuar naturalmente

Kenzo. Nature.

Uma levitação ecológica, musical, com bons planos e um modelo mais ou menos masculino…

Marca: Kenzo. Título: Nature. Direcção: Clement Gino. Música: Youthless – Flowers. Modelo: Selouane-Hayden. 2011.

A incomensurável leveza do beijo

lacoste_big_leapUm amigo enviou-me este anúncio da Lacoste. A agência BETC tem destas coisas: um beijo à Matrix, capaz de rivalizar com o Shrek e a Fiona. Um beijo que vence o abismo, mais rápido e mais potente do que um teleférico ou um helicóptero. Ao mínimo toque, levitamos.

Marca: Lacoste. Título: The Big Leap. Agência: BETC, France. Direcção: Seb Edwards. França, Fevereiro 2014.

Da banalidade da levitação

Royksopp. What else is thereAnda uma pessoa a aperceber-se da importância da levitação nas imagens medievais para logo descobrir que a suspensão da gravidade se tornou uma banalidade contemporânea. Até apetece estudar outro tema. Por que não o inverso? O enterro, assunto obsessivo na Idade Média e discreto na actualidade.

Royksopp. What else is there. Direção: Martin de Thurah. 2007.

Voar ou levitar?

Este anúncio da Dell aposta na continuidade (quase sobreposição) da realidade, do sonho e do ecrã. Ajudem! No fim do anúncio, a menina no ecrã voa ou levita?

Marca: Dell. Título: Annie, The girl who could fly. Agência: Y & R New York. Direção:  Peter Thwaites. EUA, Agosto 2012.

Levitação 2

Por falar em suspensão da gravidade, a Madonna levita a pequena altura no vídeo musical da canção Frozen. Até lembra a Marilyn Monroe fotografada pelo Philippe Halsman.

Philippe Halsman. Marilyn Monroe

We Robots

Personagens fabulosas, carnavalescas. Extensões do corpo, hologramas, levitação, bocas, controlo remoto e corrida de galgos mecânicos num deserto de sal. Música dos Swedish House Mafia. Este anúncio da vodka Absolut é um saboroso cocktail grotesco servido numa taça barroca.

Marca: Absolut. Título: Greyhound. Agência: TBWA\Chiat\Day. Direção: Carl Erik Rinsch. EUA, Março 2012.

Perdido em movimento

A dança também é uma forma de desafiar a gravidade, pelo menos, de vez em quando. É um voo sem asas, um perder-se para se sentir. Faz parte do gesto que se solta.

Anunciante: National Ballet of Canada. Título: Lost in Motion. Agência: Krystal Lew Pictures. Direcção: Ben Shirinian. Coreógrafo/baillarino: Guillaume Côté. Canadá, Fevereiro 2012.

A insustentável leveza da compra

Este anúncio encaixa-se que nem uma luva no que tenho andado a estudar: a suspensão da gravidade como levitação e libertação, ou seja, como desprendimento  das amarras da vida e do mundo. A realização aposta nesta leveza eufórica, por sinal partilhada, confinando-a, porém, a uma espécie de não lugares, ao interior de bolas de neve. Que bolas de neve? Aquelas onde cabem a Nossa Senhora de Lourdes, os nossos sonhos, mas não os nossos pecados. Por exemplo, as lojas Matalan, nem mais, nem menos! O que me recorda um velho texto dedicado ao imaginário e à suspensão da experiência nos hipermercados e nos centros comerciais.

Anunciante: Matalan. Título: Christmas Advert 2011. Reino Unido, Novembro 2011.

Libertação

O desejo de libertação não nasceu ontem. Tão pouco o ser humano. Mas tem vindo a multiplicar-se na publicidade, despoletando sensações e movimentos de sobressalto, sonho e prazer. O anúncio Do What You Want (2011) ergue-se como um manifesto do género, pontuado, metonimicamente, pela explosão dos sinais de sentido proibido.

Anunciante: Loterías y Apuestas del Estado. Título: Do What You Want. Agência: Shackleton Group. Espanha, Outubro 2011.

Mas não é o único. Existem sérios rivais, tais como o anúncio Viento (2007). Enxertados na aspiração ou na impotência dos públicos, estes “manifestos da libertação” costumam fazer apelo ao tópico do voo e da levitação. Assim acontece, ostensivamente, durante todo o anúncio Viento; e assim termina o anúncio Do What You Want.

Anunciante : Ford. Título : Viento. Agência : JWT Argentina. Direcção: Pucho Mentasti. Argentina, Julho 2007.

A gravidade e a levitação constituem assunto que me tem interessado; apresentei, em Junho, uma comunicação sobre “La suspension de la gravité dans l’enluminure médiévale et dans la publicité actuelle” (Socialité Postmoderne, Journées du CEAQ, Sorbonne, 20 e 21 de Junho de 2011).