Nuvens de lã

Todos viajam nesta casa. A São já está na Holanda e os rapazes, o João e o Fernando, ainda no avião rumo à Coreia do Sul e ao Japão. No que me respeita, nem sequer demando as terras por onde andou o rei pasmado (Gonzalo Torrente Ballester). Fico de guarda, mas não conto carneiros. Vejo, antes, a sua lã transformar-se em nuvens que choram, na extraordinária curta-metragem de animação AFTER DE RAIN, produzida por um grupo de alunos da MoPA (Motion Picture in Arts – Arles, França).
Para a Sara
Um pastor vive sozinho num vale isolado, acompanhado apenas pelo seu rebanho de ovelhas e pelo seu cão fiel. O pastor tem uma aptidão notável: tosquia as ovelhas e cria nuvens com a lã, que por seu turno se desfazem em chuva, mantendo o vale verdejante e fértil. Mas quando o pastor morre, o vale torna-se árido e as ovelhas necessitam ser tosquiadas. Cumpre ao cão encontrar uma solução…
Com imagens extravagantes, uma narrativa escorreita e um fundo musical impecável, esta curta-metragem oferece uma bela parábola sobre natureza, equilíbrio, lealdade e herança. Encanta os olhos e ouvidos com formas suaves e arredondadas e cores lindamente claras, representando personagens e cenários com sensibilidade, graça e atenção aos detalhes e gestos para comunicar emoções. Por exemplo, na maneira como o pastor acaricia o cachorro, na forma como este abana o rabo ou na sua tristeza e perplexidade quando o pastor morre. Mas também há humor fino e bem-disposto, como quando as ovelhas incham por causa da lã demasiado crescida…
AFTER THE RAIN excela ao nível do modo como conta a história. Embora a sua duração seja inferior a nove minutos, possui a profundidade, a inteligência e a sabedoria caraterísticas de narrativas muito maiores. Como a maior parte das grandes histórias da literatura infantil, explora o arquetípico e o simbólico, colocando emoções e dilemas universais ao serviço do esclarecimento moral e emocional (Omeleto, 2020; tradução muito livre).
Roupa fantasma
“Every synthetic garment ever made still exists in any form haunting our planet”. Nem mais, nem menos. Trata-se de uma coisa do outro mundo que está a acabar com o nosso! No anúncio “Wear Wool, Not Waste”, da Woolmark Company, a roupa sintética não sei se me lembra os pássaros do Alfred Hitchcock, se os zombies do George A. Romero. Sem poupar nos pixéis, com tanta roupa a cair, além de Os Pássaros (1963) e A Noite dos Mortos-Vivos (1968), acudir-me-ia também o Nove Semanas e Meia (1986), do Adrian Lyne.
Este anúncio é bem ao gosto da Beatriz, em particular da sua devoção pela reciclagem de roupa. Já o comentário, menos sério, duvido.
Ternura virtual
Pele de lã, corpo de ternura. A nós de os (in)vestir com prazer e arte. A Woolite e a Euro RSCG Worldwide encontraram a fórmula. Nada que não tivesse passado pelo génio de E.C. Escher.





