As mercadorias do amor
L’amour consiste à être bête ensemble (o amor consiste em ser estúpido em conjunto; Paul Valéry, Monsieur Teste, 1896).
Um anúncio centrado numa relação heterossexual! Um romance num mundo recheado de mercadorias. L’amour, l’amour, l’amour… A música é meio anúncio. Uma pequena amostra de romantismo francês.
Marca: Intermarché. Título: L’amour, l’amour, l’amour. Agência: Romance. Direcção: Katia Lewkowicz. França, Março 2017.
Francis Lai. Un homme et une femme. Claude Lelouch. Un Homme et une femme. 1966.
Horror pedagógico
De temps en temps, les Français me dépassent ! Hoje, vesti-me de crítico, como o actor de Stanislavski (A Construção da Personagem, ca. 1930). Revejo o anúncio Déja-vu 2, da Agence de la Biomédecine, e percebo cada vez menos. Trata-se de uma paródia dos filmes de terror de série B. Uma paródia obtusa de um género obtuso. De noite, na floresta, uma jovem expansiva e ingénua afasta-se do grupo e é vítima de uma série de facadas e machadadas desferidas por um serial killer. O público-alvo do anúncio são os jovens entre os 15 e os 25 anos, grupo suposto aterrorizar-se ou gozar com o anúncio. O assunto é, contudo, sério: a doação de órgãos e tecidos:
Dans le contexte de l’évolution de la réglementation sur le don d’organes et de tissus, l’Agence de la biomédecine renouvelle une prise de parole à destination des jeunes. Une prise de parole qui a pour objectif de continuer à les sensibiliser sur le sujet du don d’organes et de tissus, mais aussi à les informer sur la loi en vigueur, notamment concernant le principe méconnu du consentement présumé et les modalités d’expression du refus » (Agence de la Biomédecine).
Afigura-se-me que estamos perante um anúncio de consciencialização que aposta na circulação, porventura, numa “epidemia” viral. A extensidade sobrepõe-se à intensidade, l’effet au sujet. Esta opção é vulgar na publicidade de consciencialização. Propagar é o objectivo! E o disgusto é um bom mensageiro.
Para terminar, um pergunta tão mesquinha quanto perversa: naquele corpo feminino, coberto de golpes, sobra algum órgão apto para doação? Et voilà!
Anunciante: Agence de la Biomédecine. Título : Déjà-vu 2. Agência : DDB Paris. Direcção: Steve Rogers. França, Novembro 2016.
A juventude não tem idade

“Sem limites”! “Todos jovens”! “Com o potencial ao máximo”! Modernidade ou pós-modernidade? Pouco interessa. Certo é que Sister Madonna Buder é o máximo, o potencial ao máximo! E nós somos, quase como ela, o máximo em potência. Aliás, todos somos o máximo. Somos, por vocação, o que somos.
E a juventude, senhor? A juventude é cada vez mais sagrada. Já não é uma idade, mas um estado. Um estado de graça. Do máximo em potência para o potencial ao máximo, só falta atender ao chamamento e umas sapatilhas Nike. Coloquemos os olhos em Sister Madonna Buder. Uma referência, com uma carreira religiosa e desportiva notável. Jovem, muito jovem, aos 86 anos de idade.
Abençoado anúncio. Bem feito. É raro ver uma marca e uma agência tão afinadas.
Marca: Nike. Título: Unlimited Youth. Agência: Wieden + Kennedy Portland. Direcção: Max Malkin. USA, Agosto 2016.
O sabor dos sentimentos
A Coca-cola tem um novo slogan. Após sete anos a borbulhar felicidade, é a vez de Taste the Feeling (na campanha brasileira, “sinta o sabor”). Acabam de sair seis anúncios. Um acontecimento no mundo da publicidade. Ainda é cedo para tomar o pulso. A tendência aponta para os laços, os sentimentos e as sensações. O que atrai e o que separa as pessoas. O amor sucede à felicidade. Subsistem aspectos que pouco ou nada mudaram: no planeta Coca-cola só vivem jovens. São tão queridos! Tão gostosos! “So very tasty”. Os adultos ou não existem ou são dispensáveis.
Carregar nas imagens para aceder aos vídeos.
Marca: Coca-cola. Título: Supermarket. USA, Janeiro 2016.
Marca: Coca-cola. Título: Under pressure. Agência: Ogilvy & Mather. USA, Janeiro 2016.
A chave da juventude. O efeito George Clooney
Mencionei, há dias, o mito da eterna juventude (http://tendimag.com/2015/12/13/dar-vida-a-morte/). Não demorou a cair na rede um anúncio a preceito: Forever Young, da Volskwagen. Uma mostra de jovens quarentões. Qual é o segredo? Um novo elixir da juventude? O Volskswagen Polo?
Dando asas à curiosidade, quais são, no anúncio, os sinais exteriores de juventude? A aparência: corpo à Leni Riefenstahl e roupa à Hugo Boss. Os próximos: mulher e filhos adoráveis. Raça desportiva, homem muito homem e um Volkswagen Polo.
Num site argentino, o vídeo aparece com a seguinte mensagem: “Publicidad discriminatoria”: “Una publicidad discriminatoria que propaga estereotipos estandarizados y promueve la valoración personal positiva sólo por la belleza exterior” (https://www.youtube.com/watch?v=WMhBFlEXehE). Mas a discriminação não fica por aí, vai muito além da beleza exterior.
“Forever is our today”. Vale a pena recordar os Queen.
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Marca: Volkswagen. Título: Forever Young. Agência: DDB (Argentina). Direcção: Lucian Podcaminsky. Argentina, Dezembro 2015.
Queen. Who wants to live forever. A kind of Magic. 1986.
Dar vida à morte

Giotto. Ressurreição de Lázaro. 1320s
Pois é impreterível que este corpo que perece se revista de incorruptibilidade, e o que é mortal, se revista de imortalidade. No momento em que este corpo perecível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal, for revestido de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: “Devorada, pois, foi a morte pela vitória!” “Onde está, ó Morte, a tua vitória? Onde está, ó Morte, o teu aguilhão?” (Coríntios 15).
O Ocidente teve sempre dificuldade em lidar com a morte. A crença na ressurreição e na fonte da juventude é um sintoma. O regresso e o adiamento. Os anúncios de Marcel Burgos, da Acciona e da PlayStation 3, convocam esta fé angustiada.
O anúncio Re alude ao renascimento e à ressurreição. Um Big Bang à escala humana. Menos Frankenstein, costurado com pedaços alheios, e mais Osíris, assassinado por Seth. Ísis, a esposa, recolhe o corpo despedaçado e devolve a vida a Osíris.
O anúncio Victor lembra o Oskar, o menino que recusa crescer, do filme O Tambor (1979), uma adaptação do livro homónimo de Gunter Grass (1959). Lembra, também, as pinturas da fonte da juventude, como a de Lucas Cranach O Velho (ver http://tendimag.com/2013/10/10/a-fonte-da-juventude/). Forçando um pouco, no Retrato de Dorian Gray (1891), de Oscar Wilde, o envelhecimento é suspenso ou, melhor, deslocado.
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Marca: Acciona. Título: Re. Agência: McCann Milan. Direcção: Marcel Burgos. Itália, 2009.
Marca: PlayStation 3. Título: Viktor. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi (Buenos Aires). Direcção: Marcel Burgos. Argentina, 2011.
Amanhecer

Este anúncio da Nescafé (1988) faz, provavelmente, parte do património emotivo da humanidade. Ao amanhecer, numa praia deserta, dentro de um carocha, uma jovem reanima-se com uma chávena de Nescafé. A música é a segunda pele do anúncio: “I Can See Clearly Now” (original: Johnny Nash, 1972).
Marca: Nescafé. Título: Sunrise. Direcção: Derek Coutts. UK, 1988.
Johnny Nash. I Can See Clearly Now. 1973.
Morte jovem
“Em 2012, 56.000 pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30.000 são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticado por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados.
Apesar dos altíssimos índices de homicídio de jovens negros, o tema é em geral tratado com indiferença na agenda pública nacional. As consequências do preconceito e dos estereótipos negativos associados a estes jovens e aos territórios das favelas e das periferias devem ser amplamente debatidas e repudiadas.
Com o objetivo de mobilizar a sociedade e romper com a indiferença, a Anistia Internacional Brasil lança a campanha Jovem Negro Vivo” (Anistia Internacional Brasil).
Anunciante: Anistia Internacional Brasil. Título: Jovem negro vivo. Agência: DM9Rio, Rio de Janeiro. Direcção: Rômulo Veiga. Brasil, Dezembro 2014.
Anunciante: Anistia Internacional Brasil. Título: Queremos ver os jovens vivos / Infografia. Agência: DM9Rio, Rio de Janeiro. Direcção: Rômulo Veiga. Brasil, Dezembro 2014.
Gerontofobia
Neste anúncio da prevenção rodoviária belga, o paraíso parece saído de um filme do Fellini. Nada a ver com a placidez dos eleitos celestes enfileirados nos paraísos das pinturas medievais do Juízo Final. No novo “paraíso”, há luxúria, gula e depravação. E velhos, só velhos! “Le paradis est super. Quand on est vieux”.
A minha sensibilidade é mesquinha. Uma vez que o Paraíso está pejado de velhos, o melhor é esperar. Esperar o quê? A velhice? Eis uma forma bem humorada de discriminar e segregar. Não há lugar para jovens no “paraíso dos velhos”? É repulsivo? Este anúncio tem laivos de gerontofobia. Se, em vez da idade, estivesse em causa o género, e em vez de velhos, tivéssemos homossexuais, já se teriam ouvido os sinos em Marte. Apetece-me ouvir Neil Young.
Anunciante: IBSR (Institut Belge pour la Sécurité Routière). Título: Le paradis c’est super. Quand on est vieux. Agência: Saatchi & Saatchi. Direcção: Pavel Dundas. Bélgica, 2010.
Neil Young. Old Man.
A juventude não tem idade
A Dodge faz 100 anos. Celebra-os com um anúncio onde figuram apenas pessoas centenárias, que partilham a sua sabedoria. Mais uma ideia simples com belo efeito. Em 24 horas, o anúncio ultrapassou quatro milhões de visualizações na internet. A Dodge é centenária, mas os carros são novos. Os idosos também são centenários, mas têm um espírito jovem. Os idosos sobressaem porque nos surpreendem com o seu espírito jovem? Estou a interpretar mal, não estou? Em tempos, uma mulher que parecia um homem até não parecia uma mulher! Estou a desconversar, não estou? Estou. Mais do que costume. Quando uma pessoa passa o dia a espremer pensamentos, o que apetece é desligar ou desconversar. Pensar, apenas, na idade que rejuvenesce. Tudo é esplendoroso quando é o que é mais o seu contrário.
Marca: Dodge. Título: Wisdom. Agência: The Richards Group. Direcção: Samuel Bayer. USA, Abril 2014.








