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Loucura e insensatez numa nau sem destino

Satire des noceurs débauchés. Ca. 1505-15. Musée du Louvre

Eu já tenho um pé na cova,
Mas permaneço louco até o fim.
(Sebastian Brant, La nef des fous, 1494)

O artigo Michel Foucault e a Nave dos Loucos, colocado em 29 de julho de 2014, propõe uma mera junção de excertos, extensos, do livro História da Loucura na Idade Clássica (1ª edição, Folie et Déraison, 1961), de Michel Foucault. O seu primeiro livro publicado e, porventura, o meu preferido. O meu contributo resume-se à seleção dos excertos e à ilustração com as gravuras.

Michel Foucault e a Nave dos Loucos

01 Stultifera Navis (A Nave dos Loucos), de Sebastian Brant. 1594.

01 Stultifera Navis (A Nave dos Loucos), de Sebastian Brant. 1494.

Acontece-me querer mostrar mas não (d)escrever. Um subterfúgio é recorrer a um texto alheio. Sobre o tema da Nave dos Loucos, o primeiro capítulo (Stultifera navis) da  História da Loucura na Idade Clássica, de Michel Foucault, vem a talhe de foice. Seleccionei três longos excertos ilustrados com  imagens provenientes de quatro fontes de finais do séc. XV: Stultifera Navis (1494), de Sebastian Brant; Navicula stulterum mulierum (1498), de Josse Bade; La Nef des Folles (c. 1500), de Jehan Drouyn; e a pintura de Hieronymus Bosch (c. 1500).

02 Sebastian Brant. A Nave dos Loucos, 1494.

02 Sebastian Brant. A Nave dos Loucos, 1494.

“Ao final da Idade Média, a lepra desaparece do mundo ocidental. Às margens da comunidade, às portas das cidades, abrem-se como que grandes praias que esse mal deixou de assombrar, mas que também deixou estéreis e inabitáveis durante longo tempo. Durante séculos, essas extensões pertencerão ao desumano. Do século XIV ao XVII, vão esperar e solicitar, através de estranhas encantações, uma nova encarnação do mal, um outro esgar do medo, mágicas renovadas de purificação e exclusão” (Foucault, História da Loucura, pág. 7).

“Esse fenômeno é a loucura. Mas será necessário um longo momento de latência, quase dois séculos, para que esse novo espantalho, que sucede à lepra nos medos seculares, suscite como ela reações de divisão, de exclusão, de purificação que no entanto lhe são aparentadas de uma maneira bem evidente. Antes de a loucura ser dominada, por volta da metade do século XVII, antes que se ressuscitem, em seu favor, velhos ritos, ela tinha estado ligada, obstinadamente, a todas as experiências maiores da Renascença.

03 A Nave dos Loucos, de Sebastian Brant CXB. Gravura em madeira atribuida a Albrecht Durer. 1494.

03 A Nave dos Loucos, de Sebastian Brant CXB. Gravura em madeira atribuida a Albrecht Durer. 1494.

É esta presença, e algumas de suas figuras essenciais, que é preciso agora recordar de um modo bem rápido.
Comecemos pela mais simples dessas figuras, e também a mais simbólica.
Um objeto novo acaba de fazer seu aparecimento na paisagem imaginária da Renascença; e nela, logo ocupará lugar privilegiado: é a Nau dos Loucos, estranho barco que desliza ao longo dos calmos rios da Renânia e dos canais flamengos” (Foucault, História da Loucura, pp. 12-13).

“Compreende-se melhor agora a curiosa sobrecarga que afeta a navegação dos loucos e que lhe dá sem dúvida seu prestígio. Por um lado, não se deve reduzir a parte de uma eficácia prática incontestável: confiar o louco aos marinheiros é com certeza evitar que ele ficasse vagando indefinidamente entre os muros da cidade, é ter a certeza de que ele irá para longe, é torná-lo prisioneiro de sua própria partida.

04 Josse Bade. Navicula stulterum mulierum. 1498.

04 Josse Bade. Navicula stulterum mulierum. 1498.

Mas a isso a água acrescenta a massa obscura de seus próprios valores: ela leva embora, mas faz mais que isso, ela purifica. Além do mais, a navegação entrega o homem à incerteza da sorte: nela, cada um é confiado a seu próprio destino, todo embarque é, potencialmente, o último. É para o outro mundo que parte o louco em sua barca louca; é do outro mundo que ele chega quando desembarca.

05 A Nave da Visão, Jehan Drouyn. La Nef des Folles. Paris, c. 1500.

05 A Nave da Visão, Jehan Drouyn. La Nef des Folles. Paris, c. 1500.

06 A Nave de Eva, Jehan Drouyn. La nef des folles, Paris, c.1500.

06 A Nave de Eva, Jehan Drouyn. La nef des folles, Paris, c.1500.

Esta navegação do louco é simultaneamente a divisão rigorosa e a Passagem absoluta. Num certo sentido, ela não faz mais que desenvolver, ao longo de uma geografia semi-real, semi­imaginária, a situação liminar do louco no horizonte das preocupações do homem medieval — situação simbólica e realizada ao mesmo tempo pelo privilégio que se dá ao louco de ser fechado às portas da cidade: sua exclusão deve encerrá-lo; se ele não pode e não deve ter outra prisão que o próprio limiar, seguram-no no lugar de passagem. Ele é colocado no interior do exterior, e inversamente. Postura altamente simbólica e que permanecerá sem dúvida a sua até nossos dias, se admitirmos que aquilo que outrora foi fortaleza visível da ordem tornou-se agora castelo de nossa consciência.

07 A Nave em Chamas. Atribuído a Hieronymus Bosch (1450-1516,

07 A Nave em Chamas. Atribuído a Hieronymus Bosch (1450-1516,

A água e a navegação têm realmente esse papel. Fechado no navio, de onde não se escapa, o louco é entregue ao rio de mil braços, ao mar de mil caminhos, a essa grande incerteza exterior a tudo. É um prisioneiro no meio da mais livre, da mais aberta das estradas: solidamente acorrentado à infinita encruzilhada. É o Passageiro por excelência, isto é, o prisioneiro da passagem.

08 Hieronymus Bosch. A Nave dos Loucos. 1490-1500.

08 Hieronymus Bosch. A Nave dos Loucos. 1490-1500.

E a terra à qual aportará não é conhecida, assim como não se sabe, quando desembarca, de que terra vem. Sua única verdade e sua única pátria são essa extensão estéril entre duas terras que não lhe podem pertencer. É esse ritual que, por esses valores, está na origem do longo parentesco imaginário que se pode traçar ao longo de toda a cultura ocidental? Ou, inversamente, é esse parentesco que, da noite dos tempos, exigiu e em seguida fixou o rito do embarque? Uma coisa pelo menos é certa: a água e a loucura estarão ligadas por muito tempo nos sonhos do homem europeu” (Foucault, História da Loucura, pp. 15-17).

09. A Nave dos Loucos a caminho do País dos Tolos. Gravura em madeira, de 1549.

09. A Nave dos Loucos a caminho do País dos Tolos. Gravura em madeira, de 1549.

Referência bibliográfica:
Foucault, Michel (1978), História da Loucura na Idade Clássica, São Paulo, Editora Perspectiva, 1ª ed. 1961.