Sem Meio Termo: Poesia da Vida e da Morte e Canções de Não Sobrevivência

“Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente!
Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.” (Apocalipse 3:15, 16)
Tenho uma costela de colecionador. Foram selos, minerais e outras preciosidades; agora, imagens, músicas e desenganos. Também medicamentos. Nove difeentes, alguns várias vezes ao dia. Comecei ontem mais um. Para a tensão. Anda alta (tanto que declinei o convite para participar hoje, 25 de Abril, num painel de 2 horas mum canal de televisão).

Nove medicamentos; outras tantas maleitas. Estou a aproximar-me de uma espécie de “transumano”. Como “parar é morrer”, não paro. E quem anda à chuva… Cismo, mesmo assim, que uma décima da tensão se deve à leitura de alguns poemas pouco ou nada apaziguadores.
Muitos sociólogos, à semelhança, por exemplo, dos médicos, namoram as artes e as letras. É o caso do Joaquim Costa que, inspirado, se dedica à poesia. Versos de uma lucidez crua e incisiva que desarmam e desconcertam. Tudo menos escrita morna. Qualidades raras! Percorri de fio a pavio o livro Poesia da Vida e da Morte (Companhia das Ilhas, 2024) e retive, para partilha, uma dúzia e meia de poemas, ciente de que numa segunda leitura, outra seria a escolha. E assim sucessivamente. Segue uma pequena compilação.
Os versos do Joaquim lembraram-me algumas canções, mais de morte do que de vida, de não sobrevivência, todas pouco ou nada relaxantes.

Atendendo ao momento [na rua entoa a Grândola Vila Morena], logo acudiram: Menina dos olhos tristes, de Adriano Correia de Oliveira (1969); Canta camarada (1969) e Cantar alentejano (1971), de José Afonso; e Manolo Mio, da Brigada Victor Jara (1977). De chorar por mais.
Instintos

Volvidos 50 anos, continuo convencido que nem a democracia é instintiva nem as ditaduras contranatura. Os cravos, frágeis, querem-se cuidados, como a rosa do Principezinho. Recoloco 4 canções, antigas, sem ilusões: Cantilena, de Francisco Fanhais (1969); Os Eunucos, de José Afonso (1970); Que Força É Essa?, de Sérgio Godinho (1972); e Pequenos Deuses Caseiros, de Manuel Freire (1973).
Celeste Martins Caeiro a distribuir cravos
Eunucos e vampiros

Se descrês da bondade humana, pouco te pode chocar. Talvez, ver quem tem o poder abusar dele e as vítimas a pedir mais. Ninguém como o José Afonso para o traduzir em poema e cantar.
Quem não se encosta não pesa

A ninguém
Após ano e meio de confinamento rigoroso, agora que começo a ter forças para sair de casa (já fui a Moledo, a Melgaço, ao museu D. Diogo de Sousa, a uma reunião do Fórum Cidadania: Pela Erradicação da Pobreza e ao Mercadona), considero chegado o momento oportuno para balanço, para reequacionar a minha própria inscrição no mundo e partilhar testemunho.
Durante este longo período de isolamento e incapacidade, quase não tive visitas! Foi um aperto de solidão. A esmagadora maioria dos familiares, amigos e colegas entendeu por bem não dar esse passo. Contam-se pelos dedos das mãos as exceções, a maior parte, ironicamente, amizades da minha mulher. Ressalvo o Miguel Bandeira que me visitou mais do que uma vez. Significará este facto que passei a ter familiares de não trazer por casa, falsos amigos e colegas de pacotilha?
Não creio que esta “distância social”, esta travessia do deserto, seja imputável a um qualquer menosprezo ou apagão. Não desapareci do mapa mental dos familiares, amigos e colegas. De qualquer modo, a minha obsessiva participação nas redes sociais não o terá permitido. Continuei a bater à porta das pessoas. Este alheamento justifica-se, sobretudo, devido a dois fatores.
Não desapareci do mapa mental das pessoas. Desapareci, isso sim, da sua agenda, um risco das ausências de longa duração. Uma crise mais ou menos aguda, mas breve, por exemplo uma cirurgia, demarca um momento de visita, um clímax ou punctum no tempo. Neste caso, a afluência até pode revelar-se incomodativa. Já o afastamento prolongado, mesmo com sofrimento, tende a arrastar-se num calendário pantanoso. Não existe urgência. Sem agenda, o adiamento propicia-se. Sobra quem confesse, sinceramente, ao telemóvel, andar para me visitar há mais de um ano. Acomoda-se, eventualmente, um pequeno “peso na consciência”, um grilo falante afónico, que, quanto mais se prolonga, paradoxalmente, mais se normaliza e menos estimula e apressa. Envolvido nesta dinâmica, o familiar mais próximo, o amigo mais íntimo e o colega de projetos nunca chega ao porto. Quero, convém-me, apostar com convicção nesta leitura.
Mas admito ser o principal responsável por este isolamento. Não sou um misantropo, mas detesto encostar-me às pessoas. Sou bastante alérgico a dependências. Tanto no trabalho como no lazer. Peco, confesso, por algum orgulho, orgulho que comporta vários custos, incluindo uma dose de desprendimento e solidão. Quem não se encosta, não pesa! Sem peso, diminuem e aligeiram-se as rotinas de interação e os rituais de lealdade.
Sinto-me abençoado: já posso sair de casa, ir ao encontro de familiares, amigos e colegas. No dia 6 de abril, regresso, por exemplo, à Universidade do Minho para a eleição dos órgãos do Centro de Estudos em Comunicação e Sociedade. Vou certamente re(a)ver amigos e colegas. Ressurgir, recomeçar um “novo normal”. Hoje é o dia 1 de abril. Este texto, reflexivo, cru e duro, parece uma mentira, um desvario insano que, não obstante, assino com um revigorado sentimento do mundo, da vida e da humanidade.
Abril a quatro mãos

Que dizer do 25 de Abril? Marcou, e marca, muitas vidas. Rui Serapicos lembra a Grândola Vila Morena interpretada por Bernardo Sassetti e Mário Laginha, do álbum Abril a Quatro Mãos, com músicas do José Afonso. Em boa hora.
25 de Abril: José Afonso versão piano

“Um vídeo com o pianista José Li Silveirinha a tocar algumas das músicas mais conhecidas de Zeca Afonso foi a forma que a “Comissão Ad Hoc 25 de Abril” em Macau encontrou para assinalar este ano o Dia da Liberdade face à actual conjuntura motivada pelo COVID-19” (https://jtm.com.mo/ultimas/recital-em-macau-mostra-25-de-abril-nao-tem-fronteiras/).
José Li Silveirinha é um jovem luso-macaense que interpreta José Afonso ao piano. Uma adaptação bem-vinda. Trinta minutos de piano em homenagem ao 25 de Abril. Devo ao Fernando Medeiros, um sociólogo amigo, o conhecimento desta iniciativa.
Músicas de Medo, Morte e Pranto 2

É a vez do José Afonso: Menina dos Olhos Tristes, Cantar Alentejano e Canta Camarada. A Morte Saiu à Rua fica para outra altura.
Música da desgraça desumana

Há músicas de desgraças desumanas. Muitas pautas de música compostas pelos presioneiros sobreviveram ao holocausto. No caso do compositor Olivier Messiaen, ele próprio sobreviveu. Compôs e estreou o Quatuor pour la fin des temps, no campo de concentração Stalag VIII-A, em Görlitz, na Alemanha. Segue o movimento III: Abisme des Oiseaux. Repare-se que a pauta é iniciada com o seguinte apontamento: “Lent, expressif et triste”. Esta música é precedida pela música do filme Schindler List, composta por John Williams.
Em jeito de conclusão, retomo duas canções de 1969: a Menina dos olhos tristes, de José Afonso, e Te recuerdo Amanda, de Victor Jara.
O exílio da responsabilidade. Frases batidas

Em vénias malabares à luz do dia
Lambuzam da saliva os maiorais
E quando os mais são feitos em fatias
Não matam os tiranos pedem mais
(José Afonso. Os Eunucos. Traz Outro Amigo Também. 1970).
Sentir o poder é um prazer. Apontam nesse sentido as noções de libido dominandi, de Santo Agostinho, e vontade de poder, de Nietzsche. O resto é acessório. Parafraseando Gil Vicente, mais vale uma decisão estúpida que nos carregue do que uma sábia que nos derrube. Assim caminhamos, de soberba em soberba e de disparate em disparate. O rei nunca vai nu. É agasalhado por oportunistas, néscios e bajuladores. Uma pirâmide de lambe-botas. Quanto mais em baixo, maior a língua. E assim por aí acima. Neste coro de línguas sem papilas, é mais execrável quem suporta o poder do que quem o detém. É o exílio da responsabilidade.
Estas palavras não passam de uma catarse. Não possuem, substantivamente, nenhum valor. São frases batidas (Sérgio Godinho). De vez em quando, apetece descarregar. Um desabafo! Ninguém gosta de desabafos. Prefere-se o abafo, prefere-se abafar numa orgia de poder.
Está um bom dia para ouvir o Sérgio Godinho: O Primeiro Dia (álbum Pano-cru, 1978) e Os Vampiros, uma versão ao vivo da canção homónima de José Afonso (álbum Os Vampiros, 1963).
A queima dos vampiros

O prazer da escrita é pecado? E a originalidade, um vício? As letras deitam-se cada vez mais em latas de conserva.
Para a crença popular, retomada numa multidão de livros, filmes e imagens, o vampiro é um morto que sai do túmulo para sugar o sangue dos vivos. Na Idade Média, para impedir a fuga da sepultura dos mortos suspeito de vampirismo, prendiam-se e profanavam-se os cadáveres trespassando-os com estacas, colocando pedras na boca e deformando os esqueletos.
“O mal não tem fim. Resiste e ressurge. Como o Drácula e os mortos vivos. Para o mal, a morte não é obstáculo incontornável, não é, como se diz, sono eterno. Receosas e vulneráveis, as comunidades humanas previnem-se. No pesadelo medieval, a morte não é irreversível. O morto pode regressar do além para molestar os vivos. Importa proteger-se.
Neste quadro mental, há cadáveres que, pela sua vida terrena, são ameaças mesmo após a morte. Na Polónia, na Bulgária, na Irlanda e na Itália, foram descobertos túmulos medievais e pós-medievais com esqueletos de corpos brutalizados: pedras e tijolos enfiados na boca e na garganta, cabeça deslocada entre as pernas, corpos cravados com estacas, imobilizados com forquilhas… São “esqueletos de vampiros”. Pertencem a cadáveres de presumíveis vampiros (undead, em inglês, ou revenants, em francês). Para maior imunidade, impunha-se evitar a saída do túmulo e o regresso aos vivos” (Albertino Gonçalves; ver continuação no artigo Exorcismos: https://tendimag.com/2017/08/15/exorcismos/).
O vampiro é um devorador. Devora o outro e a si mesmo, esvaziando ambos. O vampiro é um insaciável instável. Um tormento sem limites.
“A tradição quer que aqueles que foram vítimas dos vampiros se transformem, por sua vez, em vampiros: são, ao mesmo tempo, esvaziados do seu sangue e contaminados. O fantasma atormenta o ser vivo com o medo, o vampiro mata-o apoderando-se da sua substância: ele só sobrevive através da vítima. A interpretação funda-se, neste caso, na dialéctica do perseguidor-perseguido. O vampiro simboliza o apetite de viver, que renasce quando o julgávamos apaziguado” (Alain Gheerbrant & Jean Chevalier, Dictionnaire des Symboles, 1969).
Os vampiros integram o regime nocturno, sombrio e lunar mas fecundo (Gilbert Durand, As estruturas antropológicas do imaginário, 1969). O regime solar, a luz do dia, é-lhes fatal. São prisioneiros da noite. É este o mote da espectacular campanha brasileira The Vampire Poster, para a série The Passage, da Fox. Cartazes com imagens de vampiros, pintados no dorso com tinta inflamável, incendeiam-se ao nascer do sol em diversos locais da cidade de São Paulo. O fogo reduz a cinzas e purifica. Na publicidade ainda há criatividade, criatividade que me parece definhar em vários templos da cultura.
Queimas, há muitas! Do Judas, da velha, do velho, das bruxas, dos hereges, das fitas… Queima-se o frio no São Martinho e a noite no São João. Queima-se o galo em Barcelos. Tudo se queima, tudo se regenera, tudo se purifica. Queimamos tudo, queimamos tudo, e não deixamos nada. Mas as cinzas não são cinzas, não; são sementes, sementes da nossa condição.


