Tag Archive | José Afonso

E a bengala se fez espada. Não há longe nem distância

No passado fim-de-semana fui a Melgaço. Há cinco meses que não o fazia. Para os Serões dos Medos, sexta, na Casa da Cultura, e para uma conversa, no sábado, na sede do Agrupamento de Freguesias de Prado e Remoães. A edição dos Serões dos Medos não desmereceu e a conversa, das 21.00 às 23:00, soube prosseguir com uma confraternização até à uma da madrugada.

Ando bastante ocupado, mas com atividades que me dão gosto e prazer.
Enquanto for possível, não me demito de viver, fatalidade que se me afigura envolver demasiadas pessoas e comunidades.
Regressar é uma forma de viver, sobretudo quando se dá azo à revitalização. Regressar, não num caixão de pinho como o soldadinho, mas com a chama do desejo preservada o tempo que for preciso, como Penélope.

Teledesejo, 30.10.2014
Zeca Afonso – Os Bravos. Edição original, 1964

Em Prado e Remoães, 24.10.2026. Fotografia e montagem por Marco Gonçalves

Despertar

Dois anúncios da Nescafé. Um mexicano. outro vietnamita.  No anúncio mexicano Wake up to life: sunrise, o sol anda um tanto a quanto esquecido e atrasado. O povo procura a luz e o Nescafé substitui o galo, mudo e sombrio, como catalisador da madrugada. No anúncio vietnamita I love Vietnam, o Nescafé é um ícone ou um hino de um povo adorável que adora um país adorável. Belas imagens.

À procura da manhã clara, 23.10.2016

Canções de perda e mágoa

Pablo Picasso – O Enterro de Casagemas (detalhe), 1901, 1881-1973. Paris, Musée National d’Art Moderne
Mais do mesmo: canções de perda e mágoa, 17.10.2018

Ramalhete de músicas portuguesas

“Em período de férias, aumentam as festas (…) A minha praia anda demasiado ruidosa. Anteontem, os metal, ontem, os indie, hoje os tecno. Apetecem-me outras músicas. Dedico este ramalhete de músicas ‘tradicionais’ portuguesas aos visitantes dos demais países. A selecção é arbitrária, incompleta e a meu gosto.”

Música “tradicional” portuguesa. Tendências do Imaginário, 18.08.2015

A Mãe, o Sol e a Lua

A Virgem Maria costuma ser associada ao sol, à lua e às estrelas, nomeadamente nas imagens como Virgem do Apocalipse e Virgem da Lua Crescente. Na imagem da Virgem da Humildade de Fra Paolo Serafini da Modena, o redondo no canto inferior esquerdo parece representar um eclipse.

Há dias, no 9 de agosto, foi o dia dos pais no Brasil. “Só não são todos dias da mãe porque alguém se lembrou de decretar um dia especial. A relação com a mãe desdobra-se numa tensão entre união e separação, em que vibram as cordas tangíveis do coração: sensação, sentimento e emoção. Com a emigração e com a guerra colonial, exacerbou-se esta tensão. Multiplicaram-se os poemas e as canções. Poemas e canções que faziam chorar, perto e longe. Há pessoas que ainda agora se comovem ao ouvir estas músicas.”

A Mãe e a Guerra. Tendências do Imaginário, 12.08.2018

Pró criativo. Futebol e natalidade

Ao basculhar o passado do blogue, constato, pela presença do tema do futebol, que julho costuma ser o mês do mundial. Não tenho relevado os artigos correspondentes, mas Futebol e natalidade merece distinção. Pela ponta de humor prazenteiro com que aflora um dos principais problemas do mundo ocidental: a baixa natalidade.

Surrealismo grotesco

Durante a sunset party da Academia Sénior do Município de Braga. Fraião, 27.06.2026. Fotografia de Maria Afonso

Ontem, selecionei quatro “artigos do dia” (27 de junho). Recoloquei apenas dois: “A roseira dos cravos”, de 2014, e “Pintar o campesinato: o Luttrel Psalter”, de 2016, ambos com imagens medievais. Divertido numa sunset party com os alunos de Cidadania, da Academia Sénior do Município de Braga, adiei “Matar o vício”, de 2018, e “A ceia dos pobres (eventualmente chocante)”, de 2013, para o dia seguinte. Ainda considerei colocá-los fora de horas, enquanto Portugal empatava com a Colômbia, mas sabia que arriscava provocar pesadelos…

“Matar o vício” e “A ceia dos pobres” relevam de uma espécie de surrealismo grotesco, mais próximo da conceção de Wolfgang Kayser (Das Groteske. Seine Gestaltung in Malerei und Dichtung, 1957) do que da de Mikhail Bakhtin (A cultura popular na Idade Média e no Renascimento, 1941).

Na versão de Wolfgang Kayser, o grotesco gera um sentimento corrosivo de estranheza, em que o mundo familiar se revela, insolitamente, ameaçador e inquietante. Sério e visceral, provoca confusão, desorientação, mal-estar e angústia. Os quadros da chamada fase negra de Francisco de Goya representam um bom exemplo.

Em Mikail Bakhtin o grotesco é, pelo contrário, carnavalesco, animado por um movimento de rebaixamento coletivo, cómico e regenerador. Embora fantástico, desconcertante e excessivo, tende a resultar afirmativo e esperançoso.

Os vários livros de François Rabelais com os gigantes Gargantua e Pantagruel como protagonistas oferecem-se, agora, como um exemplo eloquente.

Em “Matar o vício”, o ambiente dos anúncios da revista Men’s Health é fantasmático, claustrofóbico e sinistro, com a figura do duplo, o outro eu, a insinuar-se como um intruso ambíguo, perturbador e ameaçador, senão fatal.

Com “A ceia dos pobres”, transitamos da publicidade para o cinema. O filme Viridiana (1960), de Luis Buñuel, encena uma paródia da Última Ceia, de Leonardo da Vinci, que frisa a blasfémia.

O filme Um Cão Andaluz (1928), de Luis Buñuel e Salvador Dali, destaca-se como um marco incontornável da história do cinema. Não se pode afirmar que propicie boa disposição. Deveras criativo, desconcerta e impressiona, cravando-se, indelével, na memória. Um cúmulo emblemático do surrealismo grotesco ao jeito de Kayser. Não aconselhável a pessoas sensíveis.

Surrealismo grotesco, eis uma noção que pode manifestar-se interessante!

Nem Shakespeare, nem Molière

Não há Shakespeare, nem Molière, que resista! Ultrapassou-se, ao mesmo tempo, a tragédia e a comédia.

José Afonso – Os Eunucos. Traz Outro Amigo Também, 1970
Georges Brassens – Le temps n’a rien à faire. Le temps ne fait rien à l’affaire, 1961
Jacques Brel – Au suivant. Les Bombons, 1964

Os Serões dos Medos. Noite dos Medos Melgaço 2024

Avec son air très naturel, le surnaturel nous entoure / Com o seu ar muito natural, o sobrenatural rodeia-nos (Jules Supervielle. Le Jeune Homme du Dimanche. 1952)

Os serões dos medos dos últimos anos foram fantásticos, inesquecíveis. Graças à afluência e participação do público que os animou e enriqueceu com os seus conhecimentos e testemunhos pessoais. Depois de “Coisas do outro mundo”, em 2022, e “Prenúncios de Morte”, em 2023, o tema deste ano, “Possessões & bruxarias”, também promete. A conversa terá início às 21 horas do dia 18 de outubro na Casa da Cultura. Acresce o valor e o prazer da companhia do colega e amigo Luís Cunha.

Em Coisas do Outro Mundo. 2022

Segue, em pdf, o programa da Noite dos Medos 2024, acompanhado por duas interpretações da canção Ronda das Mafarricas: a original do José Afonso e a versão dos Moura, da Corunha.

Moura – Ronda das Mafarricas. Moura. 2020
José Afonso – Ronda das Mafarricas. Cantigas do Maio. 1971

A roda da vida

“As três grandes épocas da humanidade são a idade da pedra, a idade do bronze e a idade da reforma” (Jean-Charles, La foire aux cancres, 1962).

O tempo passa. De fio a pavio. Coloquei recentemente canções sobre o entardecer da vida, em francês e em espanhol. Abundam, também, em língua portuguesa. Segue uma meia dúzia, direta ou indiretamente, de um ou de outro modo, dedicadas ao avanço da vida.

Jorge Palma, Sérgio Godinho – O Primeiro Dia. Juntos, 2015. (Sérgio Godinho, Pano-Cru, 1978). Ao vivo no Theatro Circo Braga, 2015.
Manuel Freire – Pedro Só. Canção do filme “Pedro Só”, de Alfredo Tropa, 1972
Carlos do Carmo – Canção da Vida.  E ainda… – Obrigado! (Ao vivo), 2021
Caetano Veloso – O Homem Velho. Velô. 1984. Music video 2012
José Afonso – Minha Mãe. Baladas e Canções, 1964
Jorge Palma – A gente vai continuar. Só, 1991. Ao vivo na Quinta de Valbom, EA LIVE Évora, 2018