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A dádiva da Memória. De filho para pai

Gratidão: não ver a prenda, mas quem a oferece (anónimo).

Todos os anos, próximo do Natal, a rede britânica de lojas John lewis faz questão de lançar um anúncio marcado pelo espírito de partilha e generosidade. Convoca quase sempre a família e recorre frequentemente à fantasia. “Where Love Lives” prescinde da fantasia e concentra-se na relação entre gerações, designadamente entre filho e pai.

Memória puxa memória. O tempo, suposto linear, contorce-se. E o início, o passado, e o fim, o presente, abraçam-se.

Anunciante: John Lewis. Título: Where Love Lives. Agência: Saatchi & Saatchi (London). Direção: Jonathan Alric. Reino Unido, novembro 2025

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Prenda cortesã precursora

Mestre do Livro da Cidade das Damas. Christine de Pisan apresentando o seu livro à rainha de França, Isabel de Baviera. Detalhe de miniatura iluminada de The Book of the Quen, ca. 1410-1414. British Library

Concluído em 1405, o Livro da Cidade das Damas (Le Livre de la Cité des Dames) foi escrito, em prosa, por uma mulher, Christine de Pisan, em defesa das mulheres, Uma obra pioneira “antimisógin”. Foi ainda autora do Livro das Três Virtudes (Le Livre des Trois Vertus), de 1405, e do livro de poesia Le Ditié de Jehanne d’Arc, de 1429.

“Cristhine de Pisan (1365.1431) é considerada como uma das primeiras mulheres escritoras em França. Viúva e mãe de família aos 25 anos, escolheu a escrita para ganhar a sua vida. Tornou-se poetisa de corte, oferecendo-lhe alguns senhores a sua proteção, a exemplo do duque de Borgonha ou do duque de Orléans. Mas foi também autora de livros de pendor político e moral, e dirigiu uma oficina de copistas.

No Le Livre de la Cité des dames, de 1405, promove uma análise crítica da sociedade a par de soluções para sair da crise do século XV. Christine de Pisan inclui-se a si mesma na narrativa: consternada pelas divisões que dilaceram a França, decide construir uma “Cidade das damas” onde as mulheres ilustres dariam o exemplo. Personagens alegóricas exclusivamente femininas, tais como a Dama Razão, a Dama Retidão e, ainda, a Dama Justiça [Dame Justice] ajudam-na a educar as mulheres de todas as idades e condições sociais” (Le Livre de la Cité des dames de Christine de Pisan, Passerelle[s ] – Bibliothèque Nationale de France).

Mestre de Margarida de York. Christine de Pisan e as três Damas (Razão, Retidão e Justiça). Christine de Pisan, Livre de la Cité des Dames. 1405. Bibliothèque Nationale de France

Citação de Christine de Pisan:

Se fosse o costume mandar jovens meninas para a escola e ali ensiná-las toda sorte de diferentes matérias, assim como se faz com jovens meninos, elas entenderiam e aprenderiam as dificuldades de todas as artes e ciências com tanta facilidade quanto os meninos. […] Sabes por que mulheres conhecem menos que homens? […] é porque elas são menos expostas a uma larga variedade de experiências já que precisam ficar em casa o dia inteiro em nome do lar. Não há nada como uma gama completa de diferentes experiências e atividades para expandir a mente de qualquer criatura racional (Christine de Pizan, Livro da Cidade das Damas. Manuscrito original: 1405).

Imitar ou igualar?

“Gostamos muito mais daqueles que tendem a imitar-nos do que daqueles que se empenham em igualar-nos. Porque a imitação é um sinal de estima e o desejo de ser igual aos outros um sinal de inveja” [Madeleine de Souvré, marquise de Sablé (amiga de Blaise Pascal). Maximes, 1678].

Imagem: Daniel Dumonstier – Portrait of Magdeleine de Souvre (1599-1678) Marquise de Sablé, 1621

O sucesso dos anúncios da John Lewis justificou “efeitos colaterais”. Tem inspirado versões alheias, autodenominadas Alternative John Lewis Adverts, que parodiam o seu estilo tradicional, independentemente do conteúdo da mensagem. Embora não pertençam à marca, criativas e esmeradas, evidenciam um sentido apurado de oportunidade. A invocação e eventual confusão com a marca oferecem uma embalagem deveras compensadora.

Seguem três exemplos: Send Me a Sign (2024); The GoKart (2022) e, mais antigo, Give Yourself (2019), que possui a virtude de enaltecer a reciprocidade.

Sam Clegg – Send Me a Sign. Send Me a Sign. 2024. Videoclip. 01.11.2024
Seam Tale Productions – The GoKart. UK, dezembro 2022
Give Yourself. Producede by Marky Scott. Directed by Tony Ogunyinka. 2019

O delírio da dádiva

“Accepter quelque chose de quelqu’un, c’est accepter quelque chose de son essence spirituelle, de son âme / Aceitar alguma coisa de alguém é aceitar qualquer coisa da sua essência espiritual, da sua alma” (Marcel Mauss, Essai sur le don, l’Année Sociologique, seconde série, 1923-1924).

Imagem: Marcel Mauss

Os anúncios de Natal da John Lewis, maravilhosos, mágicos, sentimentais e, eventualmente, nostálgicos, marcam a abertura da publicidade da época. Este ano, a estreia aconteceu anteontem, 14 de novembro.

Desta vez, sinto que exagerei a expectativa. The Gifting Hour resulta perfeito, belo e mágico, mas quanto ao resto… Falta, sobretudo, a lentidão propícia ao desenrolar vagaroso do encantamento. Assevera-se, porventura, mais realista, mais ajustado ao afogadilho atual. Os sentimentos aparecem como flashes de uma pulsação taquicardíaca. Como se já não houvesse tempo para, como diria Marcel Mauss, a alma se sedimentar na prenda!

Dominado pelo hábito, prefiro o anúncio do ano passado, The Perfect Tree, que, na linha do estilo tradicional da marca, logra aproveitar, in crescendo, compassadamente, os quatro minutos da praxe. Mas em casa há quem, com um olhar mais fresco, seja de outra opinião.

Marca: John Lewis & Partners. Título: The Gift Hour. Agência: Saatchi & Saatchi. UK, 14.11.2024
Marca: John Lewis & Partners. Título: Snapper -The Perfect Tree. Agência: Saatchi & Saatchi. UK, novembro 2023

Quando o negócio se oferece generoso

A vida e a morte aproximam-se, dão, aliás, frequentemente as mãos. Uma pressupõe a outra. No ciclo anual, esta proximidade é particularmente pronunciada no outono. “Salta-se” de uma comemoração da morte, dos que partiram, para uma celebração da vida, dos que nascem. A publicidade acusa esta viragem. Passa a aludir mais à vida e à esperança e menos à morte e à memória. A campanha natalícia começa na primeira metade de novembro, quase a seguir ao Dia dos Mortos. Os “anúncios de Natal” circulam, portanto, há já alguns dias.

A cadeia de lojas britânica John Lewis & Partners faz questão de publicar todos os anos anúncios de rara qualidade e criatividade. Extensos, convocam um universo mágico em que crianças desenvolvem uma relação inesperada e generosa com figuras fantásticas mais ou menos associadas ao espírito do Natal.

Segue o anúncio Snapper: The Perfect Tree, estreado no dia 9 de novembro. Aproveita-se o ensejo para recordar os anúncios de Natal da John Lewis dos anos 2019 e 2021.

Marca: John Lewis. Título: Snapper: The Perfect Tree. Agência: Saatchi & Saatchi, London. Direção: Megaforce. UK, 09/11/2023
Marca: John Lewis & Waitrose. Título: Edgar the dragon. Agência: Adam & Eve DDB (London). Direção: Dougal Wilson. UK, Novembro de 2019
Marca: John Lewis & Partners. Título: Unexpected Guest. Agência: Adam & Eve DDB London. Direção: Mark Molloy. UK, Novembro de 2021

Um colar de corações. A cadeia da generosidade

Chegou o trenó com os primeiros anúncios de Natal. Carregado de generosidade. Ano após ano, a John Lewis faz questão de publicar um anúncio de Natal memorável. Este ano, optou por uma corrente do bem. Pequena boa ação a pequena boa ação, o mundo respira. O anúncio reparte-se por nove episódios, conectados por corações, cada um com um estilo específico de animação. Vou enviar este anúncio aos reis magos.

La agencia y la marca han apostado por distintos estilos de animación con la intención de ilustrar actos de bondad cotidianos de diferentes maneras. Las viñetas abarcan formas de arte que van desde la animación con plastilina y stop motion hasta el CGI (Computer Generated Imagery) y fueron creadas por diferentes artistas, como Chris Hopewell, responsable de videos musicales para Radiohead y Franz Ferdinand, y el animador francés Sylvain Chomet, entre otros.
Del mismo modo, y por primera vez en la historia de la publicidad navideña de John Lewis, la banda sonora es una canción original en lugar de una versión. La cantante de soul británica y ganadora del premio Brit, Celeste, ha escrito y compuesto el tema, llamado A Little Love (https://www.adlatina.com/publicidad/nuevo:-adam-eve-ddb-y-john-lewis-muestran-que-con-peque%C3%B1os-actos-de-amor-se-puede-hacer-del-mundo-un-lugar-mejor).

Marca: John Lewis + Waitrose. Título: Give a little love. Agência: Adam & Eve DDB (London). Direcção: Oscar Hudson. Reino Unido, Novembro 2020.

Amor à distância

John Lewis. The man on the moon. 2015.

“A solidão desola-me; a companhia oprime-me” (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego).

Inserido no artigo O Homem na Lua (https://tendimag.com/2015/11/07/o-homem-na-lua/), o anúncio Man on the Moon, da John Lewis, foi varrido por ventos adversos. Nada como recolocar o anúncio.

Marca: John Lewis. Título: Man on the Moon. Agência: Adam & Eve DDB (London). Reino Unido, Novembro 2015.

The Economist/KFF findings add to a wave of recent research showing high levels of loneliness. A recent Cigna survey revealed that nearly half of Americans always or sometimes feel alone (46%) or left out (47%). Fully 54% said they always or sometimes feel that no one knows them well. Loneliness isn’t just a U.S. phenomenon. In a nationwide survey released in October from the BBC, a third of Britons said that they often or very often feel lonely. Nearly half of Britons over 65 consider the television or a pet their main source of company. In Japan, there are more than half a million people under 40 who haven’t left their house or interacted with anyone for at least six months. In Canada, the share of solo households is now 28%. Across the European Union, it’s 34% (Millenials And The Loneliness Epidemic, Forbes: https://www.forbes.com/sites/neilhowe/2019/05/03/millennials-and-the-loneliness-epidemic/#77e649ac7676

A solidão remete para a ausência de laços sociais. Émile Durkheim assume-o no ensaio sobre o suicídio (1897). Dizer ausência é pouco. Para haver solidão, não é necessário que os laços se quebrem, basta que afrouxem. Como sublinha Zygmunt Bauman (Liquid Love, 2003), a modernidade é caracterizada pelo afrouxamento dos laços sociais. Para além de laços sociais frouxos, existem laços sociais incómodos ou deteriorados, que convém controlar. A arte social é fértil neste tipo de comportamento: por exemplo, convidar sem nunca concretizar. Vivemos rodeados por dispositivos contra a intrusão, que lembram escudos sociais.

A profusão de laços sociais não obsta à solidão. Num lar de idosos, a exposição ao outro é máxima, mas a solidão predomina. Que os laços sociais se quebrem é natural. Que os laços sociais se afrouxem faz parte da nossa modernidade líquida. Que os laços sociais sejam indesejados é um novo problema, um problema que envolve a confiança.

A nossa veia estruturalista induz-nos a focar as redes e os laços. Mas as redes e os laços não são a única realidade que comove o homem. Subsistem minudências, porventura, fortuitas, que fazem dançar a vida. Aquém e além, ocorrem pequenos milagres e pequenas epifanias que nos despertam e nos abraçam. O anúncio opera uma dupla magia: a relação à distância entre a menina e o homem na lua e a relação empática com o público. Uma centelha de amor que passa pelo ecrã. Uma palpitação electrónica.

Trampolim

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Os anúncios de Natal da John Lewis fazem parte da tradição. Caracterizam-se pela qualidade, pela generosidade e pela ternura. O anúncio deste ano, Buster The Boxer, para além de proclamar o Natal, foi publicado próximo das eleições presidenciais dos Estados Unidos. Presta-se, deste modo, a ser alvo de paródia.

Marca: John  Lewis. Título: Buster The Box. Agência: adam&eve DDB (London). Direcção: Dougal Wilson. Reino Unido, Novembro 2016.

John Lewis Christmas Advert. Donald Trump and Hillary (JOE.ie.Remix). Novembro 2016.