Cover & Recover
Habituei-me a ouvir a canção “A Change Is Gonna Come” pela voz do Billy Preston (The Way I Am, 1981), embora o original fosse de Sam Cooke (Ain’t That Good News, 1964). Em contrapartida, foi pela voz do Joe Cocker que conheci “You Are So Beautiful” (I Can Stand a Little Rain, 1974), original do Billy Preston (The Kids & Me, 1974). Seguem ambas, por Billy Preston.
O tempo e a amizade que restam

Seis e seis… Mais jovem do que há seis anos. Pelo menos, parece que assim pareço. Que o diga Bérénice! Mas o que conta são as sobras e os restos. Sobretudo, o tempo que resta. Agradeço a todos a gentil lembrança. É “uma pequena ajuda amiga”!
Com uma pequena ajuda. Máquinas desejantes
“Intertextualidade: A intertextualidade é a relação que se estabelece entre dois ou mais textos por meio de citação, alusão, bricolagem, epígrafe, paráfrase, paródia, pastiche e tradução. A intertextualidade é, segundo Bakhtin, filósofo e estudioso da linguagem, a relação dialógica entre pelo menos dois textos. Assim, entende-se que um texto está sempre se comunicando e dialogando com outros. Essa característica pode ser encontrada em uma diversidade de gêneros textuais em nosso cotidiano, sejam eles literários, publicitários ou outros: https://mundoeducacao.uol.com.br/redacao/intertextualidade.htm
O robot do anúncio “Pleasure makes us human”, da Lavazza, tem a cabeça do Wall-E, o corpo da Eve (https://wordpress.com/view/tendimag.com) e a compulsão do Robot Love da Miller (https://tendimag.com/2024/09/04/um-amor-de-robot-reciclado/). São”máquinas desejantes” (Félix Guattari, Gilles Deleuze, Anti-Édipo, 1972). Sobra o slogan: “O prazer torna-nos humanos”. Este artigo também dialoga: inspira-se na canção de Joe Cocker “With a little help from my friends. Lembrei-me dele, sabe-se lá por quê!
Aspirar a solidão

O confinamento altera as rotinas. As pequenas e as grandes. Presta-se ao desempoeiramento dos objetos: filmes, discos, fotografias, entrevistas gravadas… Alguns aguardam uma infinidade por um gesto de atenção. Poderiam continuar esquecidos? A televisão é uma alternativa, mas irrita. O telemóvel? Nunca lhe apanhei o jeito. Despacho as pessoas, e elas ressentem-se. Entrego-me, portanto, às minhas coisas, como o Principezinho à rosa.
Sem o confinamento, os objetos são belas adormecidas à espera de animação. Passo os dias só. A solidão não me larga. Também ganho pó. O Tendências do Imaginário é uma face deste isolamento. A solidão não é boa nem má. É um estado com que se convive bem ou mal. A música é uma companheira. Aspira o pó da solidão.
Chover ou não chover no molhado
O anúncio Rain, da Volkswagen, retoma os tempos dos festivais hippies e dos míticos “carocha” e “pão de forma”. Não aparece nenhuma versão recente! É certo que o trio hippie, carocha e pão de forma desfruta de uma carga simbólica ímpar. Mas também é verdade que ainda não desapareceu da memória a falsificação dos resultados das emissões de poluentes em motores diesel. Fazer a ponte entre as versões “históricas” e as versões em lançamento é procurar não chover no molhado.
Tive um carocha 1 500 cor de laranja. Era quase um tractor, mas bebia gasolina como quem bebeu petróleo. Como quem bebeu petróleo? Era criança, no tempo do Woodstock, a família tinha uma mercearia. Numa esquina, um dispositivo imponente para medir petróleo. Naquele tempo, consumia-se muito petróleo. Volta e meia, era necessário encher a “máquina”. Os barris de petróleo estavam numa divisão afastada. Um dia, coube-me ir buscar um balde de petróleo. O processo era simples: colocar a extremidade de uma bicha dentro do barril, aspirar com a boca na outra extremidade e colocá-la no balde. Cheio o balde, a operação também era simples: tapar com um dedo a bicha e levantá-la para que o petróleo da bicha regressasse ao barril. Pois bem, eu aspirei com toda a vontade e não retirei a bicha a tempo. Resultado: bebi umas boas goladas de petróleo. Deu-me tamanha sede que quase sequei o fontanário. Não há palavras! Estou convencido que parte da sede que agora sinto ainda me vem desse episódio.
Marca: Volkswagen. Título: Rain. Agência: Deutsch Los Angeles. Direcção: Lance Acord. USA, Outubro 2017.
Com o mundo nas mãos
O contacto, a conexão, entre pessoas capacita, gera sinergia. Torna possível o improvável. Neste anúncio, brilhante, o mundo aproxima-se da figura de um mosaico ou de um puzzle em que as diferentes peças apenas se sobrepõem sem se confundir, mesmo assim o suficiente para completar a acção. As situações e as pessoas interagem de um modo inacabado e imperfeito, mas eficaz. Namoram-se sem se anular, como um beijo de Gustav Klimt. O anúncio multiplica os sinais desta reserva e incompletude. Somos com os outros, conseguimos com os outros, mas não somos os outros, para o bem todos. O ruído preserva a identidade. A unicidade ameaça-a.
Anunciante: Movistar. Título: Conectados. Agência: Young & Rubicam Perú; Directora de Produção: Julieta Kropivka. Perú, 2010.
Gosto deste anúncio da Movistar. Já o tinha colocado há sete anos no Facebook. Hoje, a conversa é diferente. Acrescento três canções associadas à congregação de vontades: With a little help from my friends, do Joe Cocker; Canta amigo canta, do António Macedo e, porque na Itália também se canta, Insiemi, de Toto Cutugno. Todas ilustram a nossa incomensurável capacidade de sonhar em conjunto.
António Macedo. Canta amigo canta. 1974.
Toto Cuttugno. Insiemi. 1990.
Joe Cocker. With a little help from my friends. 1968.

