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Numinoso

Estou a escrever sobre o Cristo Triunfante (na cruz) e a arte pré-românica, vejam bem para o que me foi dar, e estou a ouvir os norte-americanos Lumineers, o que não sei se condiz mas não deixa de ser compensador. Fico sem tempo para a rede. Este é um post do género mais ou menos rápido.

The Lumineers. Ho Hey. The Lumineers. 2012. Vídeo oficial.
The Lumineers. Stubborn Love. The Lumineers. 2012. Live in the MetroPCS Lounge at Radio947 October 10, 2012.

O arquiteto da ternura e as bolas de cristal

William-Adolphe Bouguereau. Compassion. 1897

Francisco de Assis, o “segundo Cristo”, abençoado com as cinco chagas, santo que abraçou a divindade na figura de um leproso e foi abraçado pela divindade despregada da cruz, reformador da devoção cristão, sobressai, não só pela ênfase na Paixão, mas também como o grande arquiteto da ternura: inventou o presépio. Vivemos tempos em que é particularmente oportuno evocar o franciscanismo. Faço votos que cada um possa abraçar, desta vez, o próximo na figura do menino Jesus.

Os anúncios Vive la magie des fêtes, da Air Canada, e The Biggest Gift, da Deutsche Telekom, convocam a figura da bola de cristal, uma variante do presépio. Encenam outros encantos que nos aguardam, do tamanho do nosso olhar e à escala das nossas mãos.

Distinguem-se, porém, num aspeto: no presépio, os nossos dedos podem percorrer os caminhos de serrim, molhar-se no lago e afagar as personagens de barro; nas bolas, o cristal materializa uma fronteira que impede a tangibilidade, os dedos embatem numa porta que não se abre. O presépio é marcado pelo toque e pela aproximação, a bola de cristal, pela visão e pelo confinamento. Trata-se de uma separação involuntária que cada anúncio, a seu modo, se propõe ultrapassar. Quer-me parecer que o motivo da bola de cristal se vai multiplicar nesta quadra natalícia como uma alegoria ou uma metáfora da nossa condição atual. Existe, todavia, um mundo em que as bolas de cristais, tantas e de tantos feitios, já não cabem. O mundo é o da comunicação social, e as bolas assumem, até à saturação, outra virtude: a previsão fantástica do futuro.

Marca: Air Canada. Título: Vive la magie des fêtes. Agência: FCB Toronto. Canadá, dezembro 2021.
Marca: Deutsche Telekom. Título: The Biggest Gift. Agência: DDB Budapest. Direção: Stina Lütz. Hungria, novembro 2021.

Superstar

Pietro Perugino. Madalena, ca 1500.

Recorremos à linguagem religiosa para dizer o mundo e a vida. Confessada ou inconfessadamente, latente ou patente. No anúncio do artigo precedente (Receitas Milagrosas), o religioso permanecia latente, subentendido. Na “série bíblica”, da campanha da Renault Argentina, o religioso é patente, explícito.

No primeiro anúncio, um homem (Jesus) aborda uma prostituta, chamada Madalena. Ela lava-lhe os pés (Evangelho de Lucas) e ele perdoa-lhe os pecados (Evangelho de Marcos). Separam-se, Madalena como prostituta perdoada e penitente. O homem (Jesus) desloca-se num Renault Clio dourado (ver Maria Madalena: O Corpo e a Alma).

Marca: Renault Clio. Título: Jésus et les pêcheurs. Agência: Agulla & Baccetti. Direcção: Marcelo Szechtman. Argentina, 2000.

O segundo anúncio inicia com uma ceia, a “última ceia”. “Jesus” conduz um automóvel com dois ladrões (o bom e o mau?). Capturados pelas autoridades, os automóveis formam uma cruz. O responsável, ao jeito de Pôncio Pilatos, lava as mãos. “Jesus” ressurge ao volante de um Renault Clio. Se o primeiro anúncio foca Madalena, este centra-se na crucificação.

Marca: Renault Clio. Título: La última Cena. Agência: Agulla & Baccetti. Direcção: Marcelo Szechtman. Argentina, 2000.

No terceiro anúncio, “Jesus” estaciona o Renault Clio e entra numa casa escura tumular. Encontra um idoso despedido da vida. “Jesus” ilumina e anima a casa e o idoso. O idoso chama-se Lázaro. Estamos, sem dúvida, perante uma ressurreição.

Marca: Renault Clio. Título: Lázaro. Agência: Agulla & Baccetti. Direcção: Marcelo Szechtman. Argentina, 2000.

Não sei se estes anúncios relevam de uma catequese secularizada ou de uma publicidade evangélica. Alguma coisa será.

Sofrimento

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“Mas as crianças Senhor / Porque lhes dais tanta dor?!” (Augusto Gil. Balada da Neve. 1909).

O anúncio Violence marks forever, da UNICEF, foi publicado no dia 5 de Dezembro. No mesmo dia, à noite, foi exibido integralmente no noticiário da SIC. É raro os noticiários passarem anúncios. Será por causa da instituição, a UNICEF? De David Beckham, embaixador de boa vontade da ONU? Do tema, a violência contra as crianças? Do modo, imagens animadas “tatuadas” na pele? Provavelmente, o conjunto. Nesta quadra de generosidade natalícia, a UNICEF cativa-nos com altíssima publicidade. Mas não é completamente original. Desconfio que a originalidade é veneno e a repetição néctar.

Os NoBrain criaram, em 2009, um vídeo, também para a ONU, intitulado Huit (os oito objectivos adoptados pelas Nações Unidas para o desenvolvimento mundial). As imagens são “projectadas” em corpos não identificados. Mas o efeito é semelhante. A pele é o suporte das imagens. A pele é sensibilidade e memória. O fascínio actual pelas tatuagens não desmente esta vocação da pele. “A violência fica marcada para sempre”.

Estes dois anúncios lembram um terceiro, com mais de trinta anos, também da UNICEF: imagens de crianças vítimas da fome acompanhadas pela música Twelve O’clock (1975), do Vangelis. Ainda não encontrei o anúncio. Um português, Luís Moreira, de Setúbal, produziu um vídeo que conjuga esta música do Vangelis com excertos do filme Jesus de Nazaré (Franco Zefirelli, 1977). O resultado é interessante (ultrapassou dois milhões de visualizações).

Anunciante: unicef. Título: Violence marks forever. Agência: Blind Pig. Direcção: Jonas McQuiggim. Reino Unido, Dezembro de 2016.

Título: 8. Director: NoBrain. Produção: LDM Production. Pós-produção: Mac Guff Ligne. França, 2009.

Vangelis. 12 o’clock. Heaven and Hell. 1975. Vídeo produzido por Luís Moreira, com excertos do filme Jesús de Nazaré (Franco Zefirelli, 1977).

Jesus, a Internet e as Crianças

unicef-dinner-partyOs tempos são de ascensão e bondade, mas vai ser difícil igualar a Unicef. Uma ceia com Jesus, Madre Teresa e Gandhi, que, para salvar as crianças, vão ter que aprender a fazer donativos na Internet. Grandes causas, grandes embaixadores!

Anunciante: Unicef. Título: The Dinner Party. Agência: Forsman & Bodenfors.  Suécia, Dezembro 2013.

Anunciante: Unicef. Título: Jesus goes online. Agência: Forsman & Bodenfors.  Suécia, Dezembro 2013.