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Duelo de dança

Com a primavera, o bailado digital floresce. Almerinda Van Der Giezen enviou-me um vídeo extraído do filme “Carmen” (1983), de Carlos Saura, acompanhando-o com uma mensagem breve: “Algo diferente mas poderoso”. De Carlos Saura, recordo também os filmes Cria cuervos (1975), Mamá cumple cien años (1979) e Fados (2007). Todos com músicas notáveis.  

Acrescento ao excerto de Carmen outro de Cria Cuervos, com a canção “Por que te vas”, interpretada por Jeanette, bem como o “Fado da Saudade”, interpretado por Carlos do Carmo, original do filme Fados.

Fragmento de la tabacalera, con el duelo interpretativo entre Laura del Sol y Cristina Hoyos. Carmen. 1983
Jeanette – Porque Te Vas. Cria Cuervos OST. 1976
Carlos do Carmo – Fado da Saudade. Fados OST. 2007

Este mundo não tem porta

René Magritte. Condição Humana. 1933

“Este mundo não tem porta / nem uma chave escondida” (Filipa Pais, À Porta do Mundo, 2003).

Quando se caminha inexoravelmente para diante, apetece olhar para o retrovisor. E religar a rádio de outros tempos. Filipa Pais, Jeanette, Marie Laforêt, três vozes femininas, suaves e latinas. Disse latinas? Pois disse. Não há por que ter complexos, nem a sul, nem a norte. A cada um a sua posição. Quem tem complexos em relação aos outros é um complexado.

Marie Laforêt. Je voudrais tant que tu comprennes. L’ Intégrale Festival 1960/1970. 1966.
Jeanette. Soy Rebelde. Palabras, Promesas. 1971.
Filipa Pais. À Porta do Mundo. À Porta do Mundo. 2003.

A jangada

Cria cuevos

Carlos Saura. Cría Cuervos. 1976.

Temos uma percepção selectiva do mundo. O nosso “mapa mental” está distorcido: temos regiões hipertrofiadas e outras hipotrofiadas. Não somos míopes. Vemos bem ao longe e mal ao perto. Caricaturando, tudo o que é latino grita em bicos de pé e tudo que é anglo-saxónico entra pelos sentidos sem bater à porta. É o círculo da nossa quadratura cultural. Quem descura a humana diversidade empobrece. A Itália tem especificidades, a França e a Espanha, também. Não as considerar é não as ter. Não é uma honra, mas uma falha. “Vira costas a Castela” quem se habituou a viver dobrado, com a devida vénia. Face aos outros e face a si próprio. A Espanha tem um modo de musicar os sentimentos (e.g., Júlio Iglesias, Nino Bravo ou Luz Casal). Possuímos, ao nível da dança e da música, raízes comuns. Por exemplo, as influências celta e mourisca. Estas duas canções são espanholas, de meados dos anos setenta: Camilo Sesto, Quieres ser mi amante? (Camilo, 1974), e Jeanette, Porque te vas (da banda sonora do filme Cría Cuervos, de Carlos Saura, 1976). Bafejou-as a sina da popularidade? Sem dúvida. Não é estigma. Estiveram semanas a fio no primeiro lugar das tabelas. Tiveram sucesso em vários países, incluindo Portugal. Agora, soam um pouco a ferro velho.

Camilo Sesto. Quieres ser mi amante. Camilo. 1974.

Jeanette. Porque te vas. Cría Cuervos, de Carlos Saura. 1976.