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Ser IA ou não ser IA, eis a questão

Mostram-se imagens de paisagens da Islândia a londrinos; são unânimes a considerá-las falsas, geradas pela IA. Apresentam-se a islandeses como falsas; indignam-se, reconhecendo-as. Reside nesta propensão a maior ameaça da IA: menos a tomar o falso como verdadeiro e mais o verdadeiro como falso.

Icelandair – Iceland: Real beauty or AI? Let’s ask the London locals. Janeiro 2026
Icelandair – Iceland: Real beauty or AI? We asked the Reykjavík locals. Janeiro 2006

Múm. A música que vem do frio

Tive uma colega islandesa “bela de morrer”, com cabelos brancos impressionantes. Da Islândia, não vêm só alvuras, frentes frias e massas polares. Também distinta música, com vagas melódicas, arranjos boreais, ritmos quebra-gelo, músicos versáteis e vozes lde “sereia”. É o caso da banda Múm, fundada em Reykjavík em 1997; sonoridades etéreas, efeitos eletrónicos e instrumentos invulgares.

Múm – Land Between Solar Systems. Finally We Are No One, 2002. Live at ATP Iceland, June 2013
Múm – A Little Bit, Sometimes. Go Go Smear the Poison Ivy, 2007. Live on KEXP.  Recorded November 2, 2013
Múm – Miss You Dance. History of Silence, 2025. Ao vivo no estúdio da KEXP. Gravado em 6 de outubro de 2025
Múm – Mild At Heart. History of Silence, 2025. Gravado em 6 de outubro de 2025

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Lindíssimo! É incrível como a geografia extrema, como no caso da Islândia, se traduz nos sons, nas vozes, e sobretudo no silêncio.

Quando comecei a ouvir a primeira música, senti vibrações do interior da terra gelada, onde depois a voz suave como que desliza suavemente sobre a superfície.

As vozes sempre contidas, alongadas, com essa lonjura por vezes, ou simultaneamente, cortada por batimentos rítmicos quase cíclicos. A excepção “A Little Bit, Sometimes”, onde a música cria um espaço de liberdade maior. Mas, como diz a letra,

“Você está diante dos meus olhos,

um pouquinho, um pouquinho às vezes. Às vezes. Às vezes.” Pergunto-me se esta frase não será dirigida à terra.

Adorei! Uma História do Silêncio, onde o longe e o tempo se interligam intimamente. (Almerinda Van Der Giezen, 11.01.2026)

Monstros envolventes e pegadas sujas

Depois de tanto jogar às cartas com o Diabo, apetece descontrair com música jovial. A banda islandesa Of Monsters and Men presta-se para o efeito. Desde a edição do primeiro álbum, My Head Is an Animal, em 2011, tem conquistado um sucesso crescente. Ontem, foi-me dado escutá-los no atendedor de chamadas do Leroy Merlin e na rádio do barbeiro.

Seguem quatro canções, todas gravadas ao vivo: Dirty Paws; King and Lionheart; Little Talks; e I of the Storm.

Of Monsters and Men – Dirty Paws. My Head Is an Animal, 2011. Live on Radio Nova’s Nova Stage, 2013
Of Monsters and Men – King and Lionheart. My Head Is an Animal, 2011.  Live on the Honda Stage at the iHeartRadio Theater LA, 2015
Of Monsters and Men – Little Talks. My Head Is an Animal, 2011. Live at the KEX Hostel in Reykjavik during Iceland Airwaves ’11, 2011
Of Monsters and Men – I of the Storm. Beneath the Skin, 2015. Live in the studios of 89.3 The Current, 2015

A música que vem do frio

Sigur Rós. Takk. 2005.

E se nos afastássemos um pouco dos calores da Califórnia para nos aproximar dos rigores da Islândia. O país possui anfitriões notáveis: não apenas a Björk, mas também outros como os Sigur Rós. Também se toca, canta e dança no gelo.

Sigur Rós. Dauðalagið. Valtari. 2012. Ao vivo em Seyðisfjörður..
Sigur Rós. Hoppípolla + Með Blóðnasir. Takk. 2005. Ao vivo em Best Kept Secret 2013.
Sigur Rós. Varúð. Valtari. 2012.

Orelhas grandes

Ice Goðafoss Waterfall. Iceland.

Ando a pensar demasiado com as orelhas, que não crescem com a idade segundo os cientistas (a cartilagem permanece) mas crescem segundo a realidade (pelos vistos, tornam-se mais moles cedendo à gravidade). Não obstante a Ciência, as minhas orelhas têm crescido. Deve ser algum cruzamento hereditário animal. Mas as orelhas grandes têm algum préstimo: ouvir para além do habitat cultural. O meu habitat cultural quer que conheça a Ariana Grande, que não conheço, e desconheça quem desejo conhecer. Ironia à parte, para ouvir longe basta ouvir os próximos. O mundo está aqui. Seguem duas músicas do finlandês Ólafur Arnalds: Particles, do álbum Island Songs (2016) e Only the Winds, do álbum For Now I Am Winter (2013).

Ólafur Arnalds. Particles. Island Songs. 2016.
Ólafur Arnalds. Only the Winds. For Now I Am Winter. 2013.

Três dedos abaixo de cão

Tavern scene. Meb drinking, with a cellarer below. Late 14th century

Tavern scene. Meb drinking, with a cellarer below. Late 14th century

Tive um blogue chamado Marginália. Retomo parte do artigo Bestialidade (http://dobras.blogspot.pt/2010/08/bestial.html).

O grotesco não está de volta. Ele nunca nos deixou. Mas está no vento! Tal como “o feio, o porco e o mau”. Afirmar que ultrapassa os limites não passa de um pleonasmo. O grotesco está sempre a ultrapassar limites. Essa é a sua sina. Mas, por vezes, surpreende. Pela pujança e pelo insólito. É o caso do anúncio “slow motion” da Carlton Draught.

https://vimeo.com/25375453

Marca: Carlton Draught. Título: Slow Motion. Agência: Clemenger BBDO. Direcção: Paul Middleditch. Austrália, Agosto 2010.

Não deixa de ser tentador, mas infundado, entrever neste anúncio alguma intertextualidade perversa, uma espécie de paródia do grotesco “hiper-realista” e degradante de algumas campanhas anti álcool, anti tabaco, anti obesidade e anti coiso.  Atente-se, por exemplo, nos seguintes anúncios provenientes de campanhas anti álcool.

Anunciante: Binge Drinking Awareness. Titulo: Anti Binge Drinking NHS. Agência: Atticus Finch. Direcção: Chris Richmond. Reino Unido, Julho 2010.

Anunciante: Vinbúdin. Título: Don’t be a pig. Agência: Ennemm. Direcção: Sammuel & Gunner. Islândia. Maio 2008.

É provável que os promotores destes anúncios tenham razão. Mas ter razão não é o mesmo que ter a razão, e muito menos ser capaz de fazer bom uso dela. Afigura-se-me que uma campanha de sensibilização comunitária não pode dispensar o respeito pelo outro, seja este vítima ou infractor. Certos (ab)usos da razão despertam, de algum modo, velhos fantasmas, tais como as purgas dos totalitarismos do séc. XX ou os desmandos das Guerras da Religião dos séculos XVI e XVII, ambos propensos a conceber o outro como um animal ou um mostrengo. Mas há quem tendo (a) razão também a sabe utilizar, a preceito, com criatividade e bom gosto. É o caso do seguinte anúncio português premiado em Cannes.

Anunciante: Fundação Portuguesa de Cardiologia. Título: Balão. Agência: Ammirati Puris Limpas. Portugal, Julho1999

A cerveja e o monstro

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“Desejamos a verdade e apenas encontramos incerteza” (Blaise Pascal, Pensées, 401-437). “Todos erram tanto mais perigosamente que cada um segue uma verdade; a sua falta não consiste em seguir uma falsidade, mas em não seguir uma outra verdade” (Blaise Pascal, Pensées, 443-863).

Há quem abuse do verbo lembrar. Lembrar é convocar e, porventura, comparar, sem pagar portagem à verdade. O pensamento respira; não possui a verdade, nem a verdade o possui.

Que lembra o anúncio Face the darkness, da Einstök? Ao meu rapaz acodem-lhe os videojogos. E ilustra com uma cena do Final Fantasy XV (ver vídeo 2). Anúncio e videojogo, ambos lembram um exorcismo. No anúncio, o título, a postura, o monstro, a convulsão cósmica, a garrafa/crucifixo e, por último, a domesticação/humilhação da besta. No videojogo, embora menos evidente, a ameaça e a derrota do monstro mediante uma espada/crucifixo.

Que tem o exorcismo a ver com o nosso tempo? A sua existência não é menosprezável. Pratica-se na substância e exporta-se na forma.

Entretanto, aguarda-se uma nova linha de cerveja: com ou sem baba de monstro.

Marca: Einstök. Título : Face the darkness. Agência : Filakademie Baden-Wurttember. Direcção: Andreas Bruns. Islândia, Setembro 2016.

Final Fantasy XV. Stand together. Novembro 2016.