Jejum guloso
Não faltam fatores de desigualdade. Alguns beneficiam de uma enorme visibilidade: o género, a raça… Outros, não sendo menores, permanecem discretos: de idade, de língua… Não tenho, contudo, memória de hegemonia tão aceite, entranhada e global como, atualmente, a da língua inglesa.

Como as demais, a hegemonia do inglês é solar. Conforme o lado, ofusca ou ensombrece. Jejuar resume-se a um gesto simbólico. Óculos escuros não apagam o sol, ainda menos uma peneira. Mas propicia-se mais do que dar luz à luz.
Christoph Weidiz. Dança mourisca.1530
O simbólico não é inócuo. Interfere na nossa visão do mundo, logo no nosso modo de (re)agir. Jejuar pode contribuir para rasgar horizontes e “dar novos mundos ao mundo”, torná-lo mais rico, complexo e diversificado. Dispensar o que nos enfarta pode revelar-se salutar e, até, estimular a gula. As sombras ganham vida e entregam-se a ritmos, sonoridades e coreografias admiráveis. Acomete-nos a vertigem da descoberta e vacila ligeiramente a dominação que nos submete.

A música é outra. O ar assobia pelas frinchas das janelas e o sobrado range novos ritmos. E noite dentro, em regime lunar, espelham-se nos vidros os nossos próprios fantasmas. Ressoam outras línguas, de uma estranheza que ressoa familiar. Por exemplo, o sefardita, mas também o mourisco e o luso-árabe.

Acontece-nos visitar poesias e canções cuja origem nem sonhamos: o “Belo Manto”, de José Peixoto e Sofia Vitória; a “Hortelã Mourisca”, de Amália Rodrigues; “O Pastor”, dos Madredeus…
E surpreendemo-nos a cismar: como nos empobrece a riqueza que nos dão!
Whiskey & blues

Aleluia! O Tendências do Imaginário interrompe hoje, dia de Páscoa, um jejum “quaresmal” de quarenta dias. Não contemplou, desde o 21 de fevereiro, uma única canção em língua inglesa. Entreteve-se com o(s) resto(s) do mundo. Não existe, todavia, “greve” que dure eternamente, nem “birra” que, ao exceder-se, não resulte contraproducente.
Imagem: Rafael Pordalo Pinheiro. John Bull e Zé Pereira. 19 de junho de 1890
Retoma-se, portanto, a música em inglês, mas, de preferência, com canções, não do mainstream global, mas de géneros caraterísticos da própria tradição anglo-saxónica, tais com o country e o blues. Seguem interpretações de três blues: “Tennessee Whiskey” e “I’d Rather Go Blind”, pelos Milk’n Blues; “Blues Forever”, por Larry Miller; e, de novo, “Tennessee Whiskey”, mas por Teddy Swims.
Salvem um americano
Save an American é um anúncio oportunista e desinibido. Uma dupla paródia: das reportagens e das campanhas de sensibilização. “Aprendam inglês para salvar um americano”! A Speakwell agradece.
Rir com os americanos, designadamente com a Trumplândia, é uma coisa, arriscar a face é outra. Nesta vertente, o trago pende para o amargo. E se, em vez dos americanos, fossem os refugiados do Médio Oriente ou do Norte de África? Instaura-se um certo desconforto. Tanto mais que o primeiro mote do anúncio é: “Gloryparis decidiu ajudar aqueles que precisam”. A caricatura da hospitalidade suscita reservas.
De qualquer modo, nem a escola Speakwell nem a agência Gloryparis são responsáveis pelos acontecimentos no Médio Oriente e no Norte de África. Tão pouco pelas políticas ocidentais, incluindo as europeias. Com ou sem peneira, importa não desviar o olhar do sol, por muito que magoe a vista. A criticar e criticar, o mais avisado é criticar os responsáveis. De ecos e ressonâncias de compressas mediáticas está o mundo cheio.
Diz-se que “o humor mata”; convém acrescentar que mata pouco; muito, muito, mas mesmo muito pouco. Se alguém tem pressa em arregimentar a criatividade, que deixe o humor para último lugar, porque quando o humor se calar, o homem já está mudo. Se o humor mata pouco, a “censura”, sensata ou não, intoxica muito.
Marca: Speakwell. Título: Save an American. Agência: Gloryparis. Direcção: Laurent Stinus. França, Janeiro 2017.
Desenganos
O esquema adoptado por estes anúncios é corrente. Fabricam-se expectativas até à caricatura e remata-se com uma inversão de sentido bem humorada: os pais alheam-se da performance dos filhos; o avô, afinal, podia dispensar o inglês.
Estima-se em 95% os residentes do Reino Unido que falam inglês como primeira língua. Os restantes falam quase todos inglês como segunda língua. Existem, porém, minorias linguísticas. Por exemplo, as línguas da Ásia do Sul (2,7%) e outras línguas europeias tais como o italiano, o polaco, o grego e o turco (Fonte: http://www.bbc.co.uk/languages/european_languages/countries/uk.shtml). Se não me engano, para azar, ou sorte, do avô, os netos falam polaco como primeira língua. Ao aprender inglês, o avô não perdeu tempo (o anúncio é de uma escola de línguas). O inglês é a língua franca do planeta! No mundo, 942 milhões de pessoas falam inglês como primeira língua (339 milhões) ou como segunda língua (603 milhões). Menos, no entanto, que o mandarim, falado por 1 090 milhões de pessoas. O seguinte gráfico foi construído a partir da informação facultada pela Wikipedia, com base na edição 2015 do Ethnologue – SIL International (https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_languages_by_total_number_of_speakers).
Dois ou três apontamentos: cerca de 13% da população mundial fala inglês como primeira ou segunda língua; o português ainda é a sexta língua mais falada no mundo; cerca de 11% da população mundial fala uma língua ibérica (português ou espanhol). Em suma, fica a impressão de que o inglês não é a língua do mundo; é, outrossim, a língua do poder no mundo.
Marca: Canal +. Título: Dads. Agência: BETC. Direcção: Martin Werner. França, Abril 2016.
Marca: Allegro. Título: English. Agência: Bardzo Sp. z o.o. Warsaw. Direcção: Jesper Ericstam. Polónia, Novembro 2016.
Sem legendas
O anúncio War, da Berlitz, destina-se ao público canadiano. Visa converter os franco-canadianos às vantagens do inglês. Desconheço a situação das nacionalidades no Canadá, mas ainda há algumas décadas, o Québec reclamava a independência. Em 1967, em Montréal, num discurso célebre, Charles Degaulle proclama “Vive le Québec libre”. O anúncio War subentende uma relação de poder. Dedicado aos franco-canadianos, percorre o mundo. As insignificâncias do poder costumam tornar-se virais. A língua é o âmago da cultura e da identidade. Ferdinand de Saussure já sublinhava que uma língua é uma visão do mundo. A língua constrói-nos e com a língua construímos o mundo. A língua é o que temos de mais precioso. O essencial da indústria cinematográfica é norte-americano. Importa aprender inglês para ver os filmes sem ler as legendas. O predomínio de Hollywood não é recente. Vem, pelo menos, desde a Segunda Guerra Mundial. No entanto, nos anos sessenta, os filmes norte-americanos não assoberbavam as salas de cinema nem os canais de televisão europeus. Entretanto, o que sucedeu? O mesmo que noutros sectores como, por exemplo, a música ou a ciência: o predomínio anglo-saxónico. Mas também é de admitir a perda de capacidade de resposta por parte dos países europeus. Assisti à crise, ou declínio, do cinema francês nos anos setenta. Um dos principais motivos radicava na alteração da distribuição, decisiva no sector. De qualquer modo, continua a cavar-se o fosso entre os países que fazem o que lhes interessa e os países que fazem o que podem. Se quiser ver filmes de Hollywood sem legendas, fale inglês. Se pretender ler Fernando Pessoa sem dicionário, fale português. A desvalorização das línguas do continente europeu é uma desvalorização da sua cultura e da sua identidade, uma perda de poder. Caminhamos para um mundo monolingue, uma aberração na história cultural da humanidade. Em suma, um anúncio bem concebido, criativo e eficaz, que toma o garantido como certo.
Marca: Berlitz. Título: Sous-titres War. Agência: Rethink. Direcção: Jean-Marc Piché – Quatre Zéro Un. Canadá, Dezembro 2016.
Com o peixe na boca
É possível que, no enfiamento da política da língua portuguesa, o fado venha a ser cantado em inglês nos pubs de Lisboa. Esta decisão promoverá a internacionalização, senão a globalização, do fado.
A nível mundial, o português é a quinta língua mais falada e a sexta língua mais utilizada nos negócios. É a língua mais falada no hemisfério sul e a terceira língua da Europa mais falada no mundo. Se não for alterada a política da língua portuguesa, mais tarde ou mais cedo, a língua portuguesa será a segunda língua mais falada em Portugal.
A política da língua é complexa. Não é para asininos como nós. É para predestinados que sabem mandar desde o berço. Um exemplo. Os licenciados por cursos ministrados em língua portuguesa estão a sair do País. Podemos chamar a este movimento uma expiração de cérebros. Fossem os cursos ministrados em língua inglesa e talvez tivessem permanecido em Portugal. Por que motivo importa apostar na criação de cursos ministrados em língua inglesa? É plausível que os alunos estrangeiros inscritos nos cursos ministrados em língua inglesa acabem por se fixar em Portugal. Podemos chamar a este movimento uma aspiração de cérebros. Este é um caso exemplar de uma política de génio: aspirar, em vez de expirar, cérebros.





