Ciência portuguesa e guitarra espanhola

Johannes Vermeer, Young woman playing guitar. 1672.
“Toda a nossa dignidade consiste, pois, no pensamento (…) O homem é feito visivelmente para pensar; é toda a sua dignidade e todo o seu mérito; e todo o seu dever é pensar como é preciso” (Blaise Pascal, Pensamentos, 1670. Artigo XVIII. Grandeza do homem: XI e XII).
Estou a introduzir dados pessoais numa plataforma nacional de governo da ciência. Já não o fazia há muitos anos. Quando uma instituição me desilude aspiro à ignorância mútua. Nenhum contato, nenhuma solicitação, nenhuma necessidade. Prefiro o prejuízo à vénia. Espera-me canseira para alguns dias. “Pelo coletivo”, de proximidade, que respeito. Ressonâncias do poder. Acompanho a penitência com guitarra espanhola.
Solidão e indiferença

O modo como as galinhas colocam a cabeça quando prestam atenção não engana. Revelam uma capacidade de concentração superior à de muitos humanos. Dedico-lhes este artigo.

Multiplicam-se os anúncios relativos à vacinação. Alguns são esdrúxulos, outros singelos. O anúncio Parce qu’on rêve tous de se retrouver, do Ministère des Solidarités et de la Santé, de França, é bem concebido. Dispõe-se em três tempos: visita – reencontro – sonho. Cumpre à vacina tornar o sonho realidade. A canção Je reviens te chercher (1967), de Gilbert Bécaud, acompanha o anúncio. Uma bela canção. Mas prefiro, do mesmo cantor, L’Indifférence (1977). As vacinas podem combater a solidão, mas de pouco servem face à indiferença.
Elogio da lentidão

Caracóis brincam às escondidas.
Sou apóstolo da lentidão. Nada como pescar memórias num lago pasmado. Mas há quem sulque as águas a remar sem barco rumo ao futuro. Com tanta velocidade que as memórias ficam para trás.
Indiferença, preguiça e entorpecimento, eis a trilogia da lentidão. Tem discípulos na música. Por exemplo, os Deep Purple (Lazy, 1972) ou Georges Moustaki (Le Droit à La Paresse, 1974). Escolho, porém, o irlandês Bob Geldof, promotor dos Band Aid, do Live Aid e do Live 8. Assumiu o papel de Pink, na canção Confortably Numb, no filme The Wall, dos Pink Floyd. Seguem três vídeos musicais: dois a solo (The Great Song of Indifference e I don’t like Mondays) e um terceiro com David Gilmour (Confortably Numb, ao vivo em 2002).
Bob Geldof.The Great Song of Indifference. The Vegetarians of Love. 1990.
Bob Geldof, com os Bootown Rats. I don’t like Mondays. The Fine Art of Surfing. 1979
David Gilmour feat Bob Geldof. Confortably Numb.The Meltdown Concert. 2002.
