Um par de cornos

Moisés. Sillería de coro de la catedral de San Salvador de Oviedo. Obra realizada entre 1491 y 1497.
Muitas pessoas contemplaram, presencialmente ou não, o Moisés de Michelangelo. Poucas repararam nos cornos. As duas protuberâncias não são artifício de penteado, são, ineludivelmente, dois cornos. Este tipo de “cegueira” remete para a teoria da dissonância cognitiva de Leon Festinger. Quando visitamos a basílica de San Pietro in Vincoli, em Roma, aspiramos à perfeição da arte e da religião, não a um par de cornos ao jeito de Pan ou de Lucífer. E, no entanto, eles lá estão.
O Moisés de Michelangelo não é um caso isolado (ver galeria de imagens). Na Idade Média, mas também nos séculos seguintes, muitas obras representam o profeta com cornos. Dizem os entendidos que esta anomalia decorre de um erro de São Jerónimo (347-420) na tradução da Bíblia do hebreu para o latim:
“Ao traduzir uma passagem do Êxodo que descreve o semblante do profeta Moisés, São Jerônimo escreveu em latim: cornuta esse facies sua, ou seja, “sua face tinha chifres”. Esse detalhe esquisito foi levado a sério por artistas como Michelangelo – sua famosa escultura representando Moisés, hoje exposta no Vaticano, está ornada com dois belos corninhos. Tudo porque Jerônimo tropeçou na palavra hebraica karan, que pode significar tanto “chifre” quanto “raio de luz”. A tradução correta está na Septuaginta: o profeta tinha o rosto iluminado, e não chifrudo. Apesar de erros como esse, a Vulgata reinou absoluta ao longo da Idade Média – durante séculos, não houve outras traduções.
30.E, tendo-o visto Aarão e todos os israelitas, notaram que a pele de seu rosto se tornara brilhante e não ousaram aproximar-se dele. Ex 34:30.” (“Chifres de Moisés”. Blogue Parafraseando a Verdade: http://parafraseandoaverdade.wordpress.com/2011/06/30/moises-do-antigo-testamento-com-chifres/.”
Custa-me a acreditar que um erro de tradução de uma palavra fosse suficiente para coroar, durante séculos, o profeta dos profetas com um brilhante par de cornos. A imagem vingou porque se enxertou no imaginário da época, nas crenças e nos sentimentos das pessoas. Fazia sentido.
Os cornos significam, em várias culturas, potência. No caso de Moisés, a força de Deus. Não é por acaso que os guerreiros celtas e vikings colocavam cornos nos capacetes. Dei, há semanas, uma aula sobre a relação entre o poder e a arte, incluindo as moedas. Começámos pelo início: Dario I, o imperador da Pérsia, cunhou moedas com o logotipo do arqueiro, o seu símbolo; Alexandre o Grande faz circular moedas com o seu perfil. Acontece que Alexandre o Grande é retratado nas moedas com cornos na cabeça! (Figura).
Não há símbolos unívocos. Os cornos remetem para a potência, para a virilidade, mas também para o oposto:
“C. G. Jung encara uma outra ambivalência no simbolismo dos cornos: representam um princípio ativo e masculino, pela sua forma e pela sua força de penetração; um princípio passivo e feminino, pela sua abertura em forma de lira e de recetáculo. Reunindo estes dois princípios na formação da personalidade, o ser humano, assumindo-se integralmente, atinge a maturidade, o equilíbrio, a harmonia interior” (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire de Symboles, Paris, Robert Laffont, 1982, p. 290).
Palavras que lembram Gilbert Durand.
- Fig 01. Statue of Moses c.1150-1200, St. Mary’s Abbey, now in the Yorkshire Museum.
- Fig 02. Statue of Moses c.1150-1200, St. Mary’s Abbey, now in the Yorkshire Museum. Detail.
- Fig 03. Arbusto flamejante. Huntingfield Psalter. 1210-1220.
- Fig 04. Lyon, Bibliothèque Municipale. Ms a418. séc XIII.
- Fig 05. Fresco medieval. Deus dá a tábua dos dez mandamentos a Moisési. St. Andrews Church in Westhall.
- Fig 06. William de Brailes. The Israelites Worship the Golden Calf and Moses Breaks the Tablets. circa 1250
- Fig 07. Bury Bible (about 1355). Cambridge
- Fig 08. Andrea de Bonaiuto (1333-1392), Moisés. Afresco (detalhe)
- Fig 09. Moses with Horns in the Chapel at New College, Oxford. 1350.
- Fig 10. Moses with Horns in the Chapel at New College, Oxford. 1350. Detail.
- Fig 11 Moses with Horns in the Chapel at New College, Oxford. 1350. Detail.
- Fig 12. Moisés recebe as tábuas da lei. Ms. Rouen, BM 0.4. Séc. XIV.
- Fig 13. Moses, the ten plagues and the ten commandments. 1465-1480. The British Museum.
- Fig 14. Claus Sluter, Well of Moses. 1395-1403. Musée Archéologique, Dijon
- Fig 15. Janela da Capela de Rosslyn (construída ente 1446 e 1484). Moisés.
- Fig 16. Moisés. Sillería de coro de la catedral de San Salvador de Oviedo. Obra realizada entre 1491 y 1497.
- Fig 17. Michelangelo. Moisés. 1513-1515
- Fig 18. Michelangelo. Moisés. 1513-1515. Pormenor.
- Fig 19. Moses on the 1518 baptismal font in St. Amandus, Bad Urach, Germany, by the sculptor Christoph von Urach.
A cerveja dos vampiros
Eis um anúncio capaz de fazer esperar a gata. O tópico principal não se dilui numa procissão de ideias. Mais do que associar a Skol Beats à noite, aspira associar a noite à Skol Beats. O que não é o mesmo, nem é fácil. A estranheza é amiga da noite e da publicidade. O anúncio dá-lhe, no entanto, tempo para se entranhar. A figura do morcego impõe-se: nocturna, esotérica e transgressiva. O homem-morcego é um dos inquilinos do nosso imaginário. Convive com a sede dos vampiros e a inquietação dos demónios.
Marca Skol. Título: Bats. Agência: F/Nazca Saatchi & Saatchi. Direção: 300 ml. Brasil, Agosto 2014.
Crianças graúdas
Apetece-me pensar leve! Como um floco de neve que se recusa a aterrar. Não conheço sociedades que não tenham heróis, ou que, pelo menos, não os sonhem. Quanto à publicidade. ela é um imenso jardim onde passeia o nosso imaginário. Dá para o sentir à distância.
Quem são os nossos heróis? Aqueles que nos empolgam? O anúncio da Toyota, My Dad My Hero, é claro: um super-herói com superpoderes, à maneira da Marvel; um cowboy; um guerreiro; e… um astronauta (vídeo 1).
Marca: Toyota. Título: My Dad My Hero. Agência: Saatchi & Saatchi. Direção: Simon Willows. França, Agosto 2013.
A campanha Apollo, da AXE, resgata mais dois heróis: o bombeiro (http://www.youtube.com/watch?v=WWpNTNjyzr8) e o salva-vidas (http://www.youtube.com/watch?v=WWpNTNjyzr8). Não chegam, porém, aos calcanhares do… astronauta!
No anúncio da TalkTalkTV (vídeo 2), o protagonista é, de novo, um astronauta, acompanhado pela sua amada, num ternurento desenho animado itinerante, ao jeito do anúncio Graffiti, da Aides (2010).
Marca: TalTalkTV. Título: Date Night. Agência: Chi and Partners London. Reino Unido, Setembro 2013.
Em suma, quem são os nossos heróis? O astronauta, o astronauta, o astronauta, o Superman, o cowboy, o guerreiro, o bombeiro e o salva-vidas.
Estou a pensar leve demais. Os anúncios têm um toque tão infantil! Mormente, os anúncios da Toyota e da TalkTalkTv. Estes heróis são os heróis das crianças… Duvido! São os heróis das crianças que fomos. Destinam-se aos papás que compram popós e contratam operadores de televisão. São as crianças graúdas que se desodorizam para cheirar a macho. Mas estes heróis não são intemporais? Não pertencem a todas as gerações? É possível… Os cowboys caíram em desuso; os super-heróis e os guerreiros tendem a falar japonês; quanto ao Buck Rodgers, não sei por que nome o tratar na pós-modernidade.
Concluindo, quem pensa leve, escreve pesado.
Imaginário Salgado
O mar e a floresta são viveiros de sonhos. São espaços vizinhos, lugares de inquietação e travessia. Este anúncio, Mad about the sea, da Swatch, submerge-nos em águas invisíveis, a transbordar de desejo.
.Marca: Swatch. Título: Mad about the sea. Agência: com.unico.Italy. Direção: Leberato Maraia. Itália, Junho 2013.
Beyond the Sea é uma canção famosa interpretada por Bobby Darin, Frank Sinatra e, recentemente, Robbie Williams. Acontece, e não é caso único, que o original é francês. Salomonicamente, seguem Beyond the Sea, com um excerto de The Little Nemo e voz de Robbie Williams, e La Mer, com interpretação de Charles Trénet. Com esta e outras adaptações, pergunto-me quanta fama norte-americana não é colhida na Europa.
Porque existe um “mar português”, existem canções como a Garça Perdida, de Dulce Pontes. Dando o braço ao disparate, pergunto: se esta canção em português fosse um projecto de investigação, passava nos concursos nacionais da Fundação para a Ciência e a Tecnologia? Há quem dobre a língua. Há quem dobre tudo para dobrar os outros. Dava jeito um acordo ortográfico com os anglo-saxões. O actual é um bom estorvo à concentração na escrita.
“Só vei voar dentro de mim
neste sonho de abraçar
o céu sem fim, o mar, a terra inteira!
E trago o mar dentro de mim,
com o céu vivo a sonhar e vou sonhar até ao fim,
até não mais acordar…”
Insatisfação profética
Neste anúncio brasileiro serenamente fantástico, a travessia lembra os anos sessenta: a demanda da quimera pelo e para o prazer, patente, por exemplo, no filme La Vallée (1972), de Barbet Schroeder, com música dos Pink Floyd (Obscured by Clouds), em que um grupo de jovens parte para o desconhecido em busca de um vale encantado (ver trailer). É certo que a quimera não esperou pela “insatisfação dos filhos da abundância” (Fernando Namora, Estamos no Vento – Narrativa literário-sociológica, 1974). A quimera é uma recorrência do imaginário. Citei Fernando Namora, escritor falecido em 1989 que a memória oficial parece não parar de enterrar.
Marca: Skol. Título: Mountain. Agência: F/Nazca Saatchi&Saatchi. Direção: Jones and Tino. Brasil, Junho 2013.
La Vallée, de Barbet Schroeder, com música dos Pink Floyd. França, 1972.
Tão rápido quanto impossível
A paródia tem lugar cativo na publicidade. Faz vibrar os cristais do nosso imaginário. Será que “o homem mais rápido do que ele próprio” consegue ser mais rápido do que a sombra? Estará Lucky Luke ultrapassado? Com a 4G, nunca se sabe… A velocidade é uma das sete obsessões da modernidade. Lembra-se do anúncio em que um Nissan Murano consegue chegar antes do próprio lugar para onde se dirige? Mas nenhuma dessas proezas se compara à descolagem de um caracol turbo…
Marca: Omnitel. Título: Duel. Agência: Milk. Direção: Ricardo Maldonado. Lituânia, Abril 2013.
Marca: Nissan. Título: Catch Up. Agência: TBWA\Chiat\Day, Los Angeles . Direção: Bram Van Riet . EUA, 2009.
Spontaneous. Spontaneous Snail. http://www.spon.com/montage.
Retocar o imaginário
A My Brother Bob, uma agência de pós-produção, decidiu publicitar-se. Para evidenciar o virtuosismo, “retoca” um ser humano transformando-o num híbrido. What my Brother Bob did to me? An Hybrid. Nem mais, nem menos, uma zebra ou um polvo com a parte superior humana como é de bom uso e melhor efeito (na gama: espanto, humor e terror). A agência assume-se como realizadora do imaginário: “If it can be imagine, it can be done”. A fábula, a quimera e o sonho adquirem espessura, tornam-se palpáveis, (pet)iscos da imaginação cobiçados pelos sentidos (a devorar com os olhos e beber com os ouvidos). Em suma, um imaginário embalado, com mercadoria dentro… Dito isto, os dois anúncios, com final alternativo, são excelentes, a todos os níveis, incluindo a referência à psicanálise.
Anunciante: My Brother Bob. Título: What My Brother Bob did to me / Alternative. Agência: My Brother Bob. Direção: Alexis Burke. Reino Unido, Fevereiro 2013.
Guarda-chuva
O guarda-chuva não é um objecto qualquer. Consagrado por René Magritte, o guarda-chuva é bom para a imagem e para o imaginário: protege-nos dos céus.
Muitos anúncios recorrem à figura do guarda-chuva, nomeadamente no âmbito de coreografias. É o caso deste novo anúncio da Yoplait.
Tanto guarda-chuva e nenhum preto! Black is the color of my true love’s hair.
Marca: Yoplait. Título: Umbrellas. Agência: Saatchi & Saatchi New York. Direção: Eli Sverdlov. EUA, Setembro 2012.
O Jogo dos contrários
Este anúncio britânico joga com os contrários: uma história de mau gosto promove o bom gosto dos cereais Crunchy Nut. O que lembra os tempos áureos da publicidade da Benetton. O jogo dos contrários é uma das figuras mais importantes do nosso imaginário.
Marca: Crunchy Nut. Título: Snake. Agência: Leo Burnett, London. Reino Unido, Agosto 2012.
À volta da lareira
Ao fim de semana, chovem menos anúncios. Boa maré para a pesca nos baús de antiguidades. À primeira sondagem, três relíquias: uma, ternurenta; outra, ousada; e a última, “nojenta”. Estes anúncios davam para uma aula de sociologia: o primeiro, a constituição de blocos de classes e fracções de classe, segundo Karl Marx; o segundo, a persistência das estruturas antropológicas do imaginário, segundo Gilbert Durand; e o terceiro, a força coerciva do grupo, segundo Emile Durkheim. Tudo sob o signo do fogo.
Anunciante: Real Fire. Título: Dog, Cat, Mouse. Agência: Saatchi & Saatchi. Direcção: Tony Kaye. Reino Unido, 1989.
Anunciante: Real Fire. Título: Python. Direcção: Tony Kaye. Reino Unido, 1990.
Marca: Coca-Cola. Título: Round the fire. Agência: Ogilvy & Mather. Direcção: Josh Taft. Argentina, 2006.



























