Transi 1: As artes da morte
Este texto é uma monstruosidade. Pelo tema e pelo tamanho. Mas urgia escrevê-o: estava a dispersar e a perder informação. Segundo o meu colega Moisés de Lemos Martins, o meu estilo é fragmentário e os artigos são álbuns. Concordo! O homem tipográfico analítico (McLuhan, Marshall, The Gutenberg Galaxy, Toronto, University of Toronto Press, 1962), ainda predomina, por histerese, no mundo académico. É, de algum modo, o antepassado do homem digital omnívoro. Não obstante, é mais difícil encontrar as imagens certas do que as palavras certas. Embora dedicado a um assunto menor, o texto acabou tão extenso que, bem aconselhado, decidi publicá-lo por partes, algumas, ainda assim, demasiado volumosas. O título geral é O Transi e a decomposição do corpo. O texto será publicado em seis artigos:
- As artes da morte
- O corpo em decomposição
- Viver com os mortos
- A didáctica da morte
- A vida a prazo
- Os mortos vivos.
Os séculos da morte
“Não há nenhuma outra época além da Idade Média em declínio que tenha atribuído tanta ênfase e tanto pathos à ideia da morte. Ressoa sem descanso pela vida o apelo do memento mori” (Huizinga, Johan, Le Déclin du Moyen-Age, Paris, Payot, [1919] 1938, p. 124).
Os séculos XIV e XV foram severos. A prosperidade do Renascimento do século XII pertence ao passado e os novos tempos são de crise:
- Económica: diminui o crescimento e grassa a fome (este diagnóstico não é consensual entre os historiadores);
- Demográfica: entre 1347 e 1353, a peste negra dizima cerca de metade da população europeia, com maior incidência nos países do Mediterrâneo (Itália, França, Espanha e Portugal) onde faleceram entre 75 a 80% da população, contra cerca de 20% nos países do norte, tais como a Alemanha e a Inglaterra (http://www.saylor.org/site/wp-content/uploads/2011/06/Black-Death.pdf);
- Política: multiplicam-se e agudizam-se as crises dinásticas e as guerras, incluindo a Guerra dos Cem Anos;
- Cultural: a ciência, a cultura e a arte entorpecem ou entram em recessão;
- Moral: cava-se uma crise de valores acompanhada por uma “depressão moral” (Huizinga, Johan, Le Déclin du Moyen-Age, Paris, Payot, [1919] 1938, p. 35). Este diagnóstico também não é consensual entre os historiadores.
As artes da morte
“O espírito do homem medieval, permanente inimigo do mundo, encontrava-se à vontade entre o pó e os vermes. Nos tratados religiosos sobre o menosprezo do mundo já estavam conjurados todos os horrores da decomposição. Mas a pintura dos detalhes deste espectáculo espera por mais tarde. Só por finais do séc. XIV, as artes plásticas se apropriam deste motivo. Era necessário um certo grau de força expressiva realista para o tratar apropriadamente; esta força foi alcançada por volta de 1400” (Huizinga, Outono, El otoño de la Idad Media, Madrid, Alianza Editorial, [1919] 1982, pp. 197-198).

Fig 04. Dito dos três mortos e dos três vivos. Igreja de Saint Germain. La Ferté-Loupière. França. Final do séc. XV, início do séc. XVI.
No “outono da idade média” (Johan Huizinga) emergem novas formas de criação artística, centradas nas figuras da morte e do morto.
A lenda dos três mortos e dos três vivos
Três jovens cavaleiros da alta nobreza são interpelados por três mortos que funcionam como espelho do destino do homem: nós já fomos o que vós sois; vós sereis o que nós somos. No Dito dos Três Mortos e dos Três Vivos, da Igreja de Saint Germain, em La Ferté-Loupière, em França, o primeiro Morto garante que os três vivos serão em breve tão horrorosos como eles. O segundo queixa-se da maldade da morte e do inferno. O terceiro realça a precariedade da vida e a necessidade de estar pronto para a morte (ver figura 04). Os três mortos do Livro de Salmos de Bonne de Luxembourg (ver figura 05) apresentam a particularidade de evidenciar idades distintas: o primeiro tem o sudário quase completo, o segundo só tem restos do sudário e o terceiro nem sudário tem. O corpo do primeiro morto está pouco degradado e o último está quase reduzido ao esqueleto. Se a vida tem idades (As Idades da Vida), a morte não lhe fica atrás.
As danças da morte
Nas danças da morte, ou macabras, dezenas de mortos dão a mão a outros tantos vivos. Estas danças aparecem nas paredes dos cemitérios e das igrejas, mas também em manuscritos como, por exemplo, os livros de horas (ver os seguintes artigos: A morte à flor da pele; A passo de caranguejo – A canção da morte; O louco e a morte).
“A dança macabra é uma ronda sem fim, onde alternam um morto e um vivo. Os mortos comandam o jogo e são os únicos a dançar. Cada par é formado por uma múmia nua, apodrecida, assexuada e muito animada, e por um homem ou por uma mulher, vestido segundo a sua condição(…) A arte reside no contraste entre o ritmo dos mortos e a paralisia dos vivos. O objectivo moral é lembrar ao mesmo tempo a incerteza da hora da morte e a igualdade dos homens perante ela. Todas as idades e todos os estados desfilam numa ordem que é a da hierarquia social tal como se tinha consciência dela” (Ariès, Philippe, O Homem perante a morte, Lisboa, Publicações Europa-América, [1977], 2000, p. 140).
A difusão das danças macabras por toda a Europa é um facto digno de registo. Existem danças macabras para vários gostos e vários destinatários. Embora Philippe Ariès fale em “múmia nua, apodrecida, assexuada e muito animada”, o certo é que existem danças macabras masculinas e, poucos anos volvidos, femininas, com as “múmias” a evidenciar sinais de género: no segundo caso, o cabelo das “múmias” é mais visível e mais comprido (ver Figura 07).

Fig 07. Illustrations de Cy est la danse macabre des femmes, toute hystoriée et augmentée. 1491. Gallica.

Fig 08. Niclaus Manuel Deutsch. Dança da morte. Início em 1516-17.
O toque da morte

Fig 09. Niklaus Manuel Deutsch. A donzela e a morte. 1516.
Muitas pessoas admitem ter sentido a proximidade da morte: um estremecimento, o cheiro a enxofre, um som estranho… Poucas poderão, porém, afirmar ter-lhe sentido o toque. O toque da morte é o fim, ou o princípio, de uma viagem. Consta entre as representações da morte mais populares e mais estetizadas. Na Idade Média como na actualidade.
A morte aborda o ser humano: segura-o, abraça-o, beija-o, dá-lhe a mão, puxa-o pelos cabelos, levanta-lhe as saias, acerta-lhe com um dardo, vindima-o com a foice…
A morte anda à solta, ela está no meio de nós, gravada no imaginário. Por exemplo, nos quadros de artistas recentes como James Ensor, Edvard Munch, Otto Dix ou George Grosz.
As Ars Moriendi
“Em tudo o que fizeres, lembra-te do teu fim, e jamais pecarás” (Eclo 7, 40). Esta passagem bíblica assumiu um carácter de máxima nos séculos XIV e XV: a Igreja e, sobretudo, as ordens mendicantes (franciscanos e dominicanos), exortavam os fiéis para a necessidade constante de reflexão e preparação para o momento da morte, através da pregação dos sermões em língua vernácula e na contemplação de imagens religiosas. Com efeito, a partir do século XIV, acreditava-se que o fiel iria rever sua vida inteira antes da separação do seu corpo e de sua alma e, que as atitudes realizadas neste momento final, seriam fundamentais para dar conclusão à sua vida. Neste período, portanto, lembrar-se da morte é, sobretudo, refletir e preparar-se para este momento” (Patrícia Marques de Souza, Ars Moriendi circa 1450: a preparação para o post-mortem”, XXVIII Simpósio Nacional de História, 27 a 31 de Julho de 2015.
As Ars Moriendi materializam-se, principalmente, em textos ilustrados que visam preparar as pessoas para a morte (pode descarregar o livro Ars Moriendi, de 1490-1491, de autor anónimo). Estes livros alcançaram uma ampla divulgação pela Europa, até mesmo antes da invenção da imprensa (ver O galo e a morte, Tendências do Imaginário). A sua popularidade reside no facto de nos séculos XIV e XV o momento da morte ser concebido como uma prova decisiva para a salvação ou a condenação do moribundo. A preocupação com a preparação para a morte permanece actual.
Próximo artigo: Transi 2: o corpo em decomposição.
Aqui há gato!
“I wish I could write as mysterious as a cat” (Edgar Allan Poe).
Enquanto espera a barca sagrada, a alma alimenta-se com memórias.
Enquanto estudante, tive vários colegas reformados. Um deles optou por dedicar a dissertação à simbologia do gato. Falava do antigo Egipto, onde matar gatos era crime, das famílias de gatos nos templos gregos e do gato preto diabolizado pelo papa Inocêncio VIII. Brincava com ele! Cada vez o admiro mais.
O gato das botas, o gato de Cheshire, o gato de Edgar Allan Poe, os gatos de Baudelaire, o Gato Malhado da Andorinha Sinhá, os gatos dos desenhos animados, os aristogatos, a Catwoman, os gatos de Andrew Lloyd Webber ou o gato reciclado do Shrek, todos ronronam no nosso imaginário.
O anúncio Netto-katzen, da marca alemã Netto Marken-Discount, é um compêndio de gatos em movimento. O que me chamou a atenção foi a banda sonora. Apesar de distorcida, recupera a música Music Fly (1977), dos Space. Os Space, banda francesa, granjearam alguma reputação no final dos anos setenta. Apesar de contemporâneos dos Kraftwerk e de Jean-Michel Jarre, a orquestração e a melodia recordam-me, sobretudo, a música de Francis Lai (ver, por exemplo, https://tendimag.com/2014/06/07/bilitis/).
Marca: Netti Marken-Discount. Título: Netto-katzen. Direcção: Brian Lee Hughes. Alemanha, Junho 2016.
Space. Just Blue. Just Blue. 1978..
O Ditador Caprichoso
A paródia arremeda a realidade para a subverter, pela farsa, pela caricatura, pela ironia, pelo sarcasmo. Desarma, por exemplo, o poder cobrindo-o de ridículo. Rir do mal faz bem? A quem? Ao ditador caprichoso ou à vítima indefesa? A resposta não é óbvia (Georges Balandier, O Poder Em Cena, 1ª ed. 1980). O imaginário é complexo. Entre ingredientes, receitas e cozedura, a pastelaria simbólica é imprevisível.
Marca: Cha Time. Título: You’ve Never Had Iced Tea Like This Before. Agência: The Sphere Agency. Direcção: Tyler Clayton. Austrália, Abril 2016.
Francisco de Goya. Leveza e Turbulência
“A estupidez é um peso no espírito que carregamos connosco nas acções e nos discursos” (Blaise Pascal).
Leveza e turbulência, eis uma associação que sempre acompanhou a humanidade. Neste capítulo, a reivindicação de originalidade aproxima-se da sublimação da ignorância. Somos biliões de seres humanos e temos centenas de milhares de anos. Tanta gente criativa! Aspirar a uma ideia original é como procurar uma agulha num palheiro e enfiar-lhe, em seguida, um camelo pelo fundo. Como diria Pascal, demasiada inteligência estupidifica.

Goya. Bruxas no ar. 1797-8.
A leveza e a turbulência estão patentes nos frescos de Pompeia e da Domus Aurea, nas esculturas e nas iluminuras medievais, nos tormentos dos juízos finais, nas artes da bruxaria, nas pinturas de Hieronymus Bosch, Pieter Bruegel, Jacques Callot, Francisco Goya, Marc Chagall ou Max Ernst.

Goya. Folly of the Bulls, circa 1815.
A originalidade plagiada exalta pequenos e grandes “mestres pensadores”. Convém, no entanto, não invocar o nome da originalidade em vão! Nem sequer a tirada de Isaac Newton convence: “se vi mais longe foi por estar de pé sobre ombros de gigantes”. Gigantes, só nos contos de fadas, nos filmes e nos videojogos. Só não somos anões porque nos fizeram aos saltos. Importa pagar tributo aos credores. Começo por Francisco de Goya.

Goya. Atropos o Las Parcas. 1820-1823.
É difícil encontrar autor que tão bem conjugue leveza e turbulência. Principalmente nos Caprichos e durante a “fase negra”. Leveza e turbulência no tema e no traço, testemunhos de uma vida e de uma obra conturbadas, senão trágicas. Figuras e pessoas erguem-se nos ares desassossegadas e ameaçadoras: bruxas, monstros, parcas, bestas e seres humanos, ou seja, “os fantasmas de Goya”, título de um filme de Milos Forman, de 2007, menos sobre o pintor e mais sobre a relação entre uma jovem vítima e o seu agressor, um inquisidor, um caso de síndrome de Estocolmo.
Francisco de Goya. Leveza e Turbulência. Uma selecção.
Um par de cornos

Moisés. Sillería de coro de la catedral de San Salvador de Oviedo. Obra realizada entre 1491 y 1497.
Muitas pessoas contemplaram, presencialmente ou não, o Moisés de Michelangelo. Poucas repararam nos cornos. As duas protuberâncias não são artifício de penteado, são, ineludivelmente, dois cornos. Este tipo de “cegueira” remete para a teoria da dissonância cognitiva de Leon Festinger. Quando visitamos a basílica de San Pietro in Vincoli, em Roma, aspiramos à perfeição da arte e da religião, não a um par de cornos ao jeito de Pan ou de Lucífer. E, no entanto, eles lá estão.
O Moisés de Michelangelo não é um caso isolado (ver galeria de imagens). Na Idade Média, mas também nos séculos seguintes, muitas obras representam o profeta com cornos. Dizem os entendidos que esta anomalia decorre de um erro de São Jerónimo (347-420) na tradução da Bíblia do hebreu para o latim:
“Ao traduzir uma passagem do Êxodo que descreve o semblante do profeta Moisés, São Jerônimo escreveu em latim: cornuta esse facies sua, ou seja, “sua face tinha chifres”. Esse detalhe esquisito foi levado a sério por artistas como Michelangelo – sua famosa escultura representando Moisés, hoje exposta no Vaticano, está ornada com dois belos corninhos. Tudo porque Jerônimo tropeçou na palavra hebraica karan, que pode significar tanto “chifre” quanto “raio de luz”. A tradução correta está na Septuaginta: o profeta tinha o rosto iluminado, e não chifrudo. Apesar de erros como esse, a Vulgata reinou absoluta ao longo da Idade Média – durante séculos, não houve outras traduções.
30.E, tendo-o visto Aarão e todos os israelitas, notaram que a pele de seu rosto se tornara brilhante e não ousaram aproximar-se dele. Ex 34:30.” (“Chifres de Moisés”. Blogue Parafraseando a Verdade: http://parafraseandoaverdade.wordpress.com/2011/06/30/moises-do-antigo-testamento-com-chifres/.”
Custa-me a acreditar que um erro de tradução de uma palavra fosse suficiente para coroar, durante séculos, o profeta dos profetas com um brilhante par de cornos. A imagem vingou porque se enxertou no imaginário da época, nas crenças e nos sentimentos das pessoas. Fazia sentido.
Os cornos significam, em várias culturas, potência. No caso de Moisés, a força de Deus. Não é por acaso que os guerreiros celtas e vikings colocavam cornos nos capacetes. Dei, há semanas, uma aula sobre a relação entre o poder e a arte, incluindo as moedas. Começámos pelo início: Dario I, o imperador da Pérsia, cunhou moedas com o logotipo do arqueiro, o seu símbolo; Alexandre o Grande faz circular moedas com o seu perfil. Acontece que Alexandre o Grande é retratado nas moedas com cornos na cabeça! (Figura).
Não há símbolos unívocos. Os cornos remetem para a potência, para a virilidade, mas também para o oposto:
“C. G. Jung encara uma outra ambivalência no simbolismo dos cornos: representam um princípio ativo e masculino, pela sua forma e pela sua força de penetração; um princípio passivo e feminino, pela sua abertura em forma de lira e de recetáculo. Reunindo estes dois princípios na formação da personalidade, o ser humano, assumindo-se integralmente, atinge a maturidade, o equilíbrio, a harmonia interior” (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire de Symboles, Paris, Robert Laffont, 1982, p. 290).
Palavras que lembram Gilbert Durand.
- Fig 01. Statue of Moses c.1150-1200, St. Mary’s Abbey, now in the Yorkshire Museum.
- Fig 02. Statue of Moses c.1150-1200, St. Mary’s Abbey, now in the Yorkshire Museum. Detail.
- Fig 03. Arbusto flamejante. Huntingfield Psalter. 1210-1220.
- Fig 04. Lyon, Bibliothèque Municipale. Ms a418. séc XIII.
- Fig 05. Fresco medieval. Deus dá a tábua dos dez mandamentos a Moisési. St. Andrews Church in Westhall.
- Fig 06. William de Brailes. The Israelites Worship the Golden Calf and Moses Breaks the Tablets. circa 1250
- Fig 07. Bury Bible (about 1355). Cambridge
- Fig 08. Andrea de Bonaiuto (1333-1392), Moisés. Afresco (detalhe)
- Fig 09. Moses with Horns in the Chapel at New College, Oxford. 1350.
- Fig 10. Moses with Horns in the Chapel at New College, Oxford. 1350. Detail.
- Fig 11 Moses with Horns in the Chapel at New College, Oxford. 1350. Detail.
- Fig 12. Moisés recebe as tábuas da lei. Ms. Rouen, BM 0.4. Séc. XIV.
- Fig 13. Moses, the ten plagues and the ten commandments. 1465-1480. The British Museum.
- Fig 14. Claus Sluter, Well of Moses. 1395-1403. Musée Archéologique, Dijon
- Fig 15. Janela da Capela de Rosslyn (construída ente 1446 e 1484). Moisés.
- Fig 16. Moisés. Sillería de coro de la catedral de San Salvador de Oviedo. Obra realizada entre 1491 y 1497.
- Fig 17. Michelangelo. Moisés. 1513-1515
- Fig 18. Michelangelo. Moisés. 1513-1515. Pormenor.
- Fig 19. Moses on the 1518 baptismal font in St. Amandus, Bad Urach, Germany, by the sculptor Christoph von Urach.
A cerveja dos vampiros
Eis um anúncio capaz de fazer esperar a gata. O tópico principal não se dilui numa procissão de ideias. Mais do que associar a Skol Beats à noite, aspira associar a noite à Skol Beats. O que não é o mesmo, nem é fácil. A estranheza é amiga da noite e da publicidade. O anúncio dá-lhe, no entanto, tempo para se entranhar. A figura do morcego impõe-se: nocturna, esotérica e transgressiva. O homem-morcego é um dos inquilinos do nosso imaginário. Convive com a sede dos vampiros e a inquietação dos demónios.
Marca Skol. Título: Bats. Agência: F/Nazca Saatchi & Saatchi. Direção: 300 ml. Brasil, Agosto 2014.
Crianças graúdas
Apetece-me pensar leve! Como um floco de neve que se recusa a aterrar. Não conheço sociedades que não tenham heróis, ou que, pelo menos, não os sonhem. Quanto à publicidade. ela é um imenso jardim onde passeia o nosso imaginário. Dá para o sentir à distância.
Quem são os nossos heróis? Aqueles que nos empolgam? O anúncio da Toyota, My Dad My Hero, é claro: um super-herói com superpoderes, à maneira da Marvel; um cowboy; um guerreiro; e… um astronauta (vídeo 1).
Marca: Toyota. Título: My Dad My Hero. Agência: Saatchi & Saatchi. Direção: Simon Willows. França, Agosto 2013.
A campanha Apollo, da AXE, resgata mais dois heróis: o bombeiro (https://www.youtube.com/watch?v=14aJSQ9FHQM) e o salva-vidas (https://www.youtube.com/watch?v=-mfCmUaZbfo). Não chegam, porém, aos calcanhares do… astronauta!
No anúncio da TalkTalkTV (vídeo 2), o protagonista é, de novo, um astronauta, acompanhado pela sua amada, num ternurento desenho animado itinerante, ao jeito do anúncio Graffiti, da Aides (2010).
Em suma, quem são os nossos heróis? O astronauta, o astronauta, o astronauta, o Superman, o cowboy, o guerreiro, o bombeiro e o salva-vidas.
Estou a pensar leve demais. Os anúncios têm um toque tão infantil! Mormente, os anúncios da Toyota e da TalkTalkTv. Estes heróis são os heróis das crianças… Duvido! São os heróis das crianças que fomos. Destinam-se aos papás que compram popós e contratam operadores de televisão. São as crianças graúdas que se desodorizam para cheirar a macho. Mas estes heróis não são intemporais? Não pertencem a todas as gerações? É possível… Os cowboys caíram em desuso; os super-heróis e os guerreiros tendem a falar japonês; quanto ao Buck Rodgers, não sei por que nome o tratar na pós-modernidade.
Concluindo, quem pensa leve, escreve pesado.
Imaginário Salgado
O mar e a floresta são viveiros de sonhos. São espaços vizinhos, lugares de inquietação e travessia. Este anúncio, Mad about the sea, da Swatch, submerge-nos em águas invisíveis, a transbordar de desejo.
.Marca: Swatch. Título: Mad about the sea. Agência: com.unico.Italy. Direção: Leberato Maraia. Itália, Junho 2013.
Beyond the Sea é uma canção famosa interpretada por Bobby Darin, Frank Sinatra e, recentemente, Robbie Williams. Acontece, e não é caso único, que o original é francês. Salomonicamente, seguem Beyond the Sea, com um excerto de The Little Nemo e voz de Robbie Williams, e La Mer, com interpretação de Charles Trénet. Com esta e outras adaptações, pergunto-me quanta fama norte-americana não é colhida na Europa.
Porque existe um “mar português”, existem canções como a Garça Perdida, de Dulce Pontes. Dando o braço ao disparate, pergunto: se esta canção em português fosse um projecto de investigação, passava nos concursos nacionais da Fundação para a Ciência e a Tecnologia? Há quem dobre a língua. Há quem dobre tudo para dobrar os outros. Dava jeito um acordo ortográfico com os anglo-saxões. O actual é um bom estorvo à concentração na escrita.
“Só sei voar dentro de mim
neste sonho de abraçar
o céu sem fim, o mar, a terra inteira!
E trago o mar dentro de mim,
com o céu vivo a sonhar e vou sonhar até ao fim,
até não mais acordar…”
Insatisfação profética
Neste anúncio brasileiro serenamente fantástico, a travessia lembra os anos sessenta: a demanda da quimera pelo e para o prazer, patente, por exemplo, no filme La Vallée (1972), de Barbet Schroeder, com música dos Pink Floyd (Obscured by Clouds), em que um grupo de jovens parte para o desconhecido em busca de um vale encantado (ver trailer). É certo que a quimera não esperou pela “insatisfação dos filhos da abundância” (Fernando Namora, Estamos no Vento – Narrativa literário-sociológica, 1974). A quimera é uma recorrência do imaginário. Citei Fernando Namora, escritor falecido em 1989 que a memória oficial parece não parar de enterrar.
Marca: Skol. Título: Mountain. Agência: F/Nazca Saatchi&Saatchi. Direção: Jones and Tino. Brasil, Junho 2013.
La Vallée, de Barbet Schroeder, com música dos Pink Floyd. França, 1972.
Tão rápido quanto impossível
A paródia tem lugar cativo na publicidade. Faz vibrar os cristais do nosso imaginário. Será que “o homem mais rápido do que ele próprio” consegue ser mais rápido do que a sombra? Estará Lucky Luke ultrapassado? Com a 4G, nunca se sabe… A velocidade é uma das sete obsessões da modernidade. Lembra-se do anúncio em que um Nissan Murano consegue chegar antes do próprio lugar para onde se dirige? Mas nenhuma dessas proezas se compara à descolagem de um caracol turbo…
Marca: Omnitel. Título: Duel. Agência: Milk. Direção: Ricardo Maldonado. Lituânia, Abril 2013.
Marca: Nissan. Título: Catch Up. Agência: TBWA\Chiat\Day, Los Angeles . Direção: Bram Van Riet . EUA, 2009.
Spontaneous. Spontaneous Snail. http://www.spon.com/montage.




































