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A Cruz, a Paixão, o Transi e a Boca do Inferno

Geertgen tot Sint Jans. Crucifixion (c. 1490).

Fig 1. Geertgen tot Sint Jans. Crucifixion (c. 1490). Fotografia.

A família não trouxe, da viagem à Escócia, apenas a fotografia do quadro Art Cabinet with Anthony van Dyck’s ‘Mystic Marriage of St Catherine, de Willem van Haecht (https://tendimag.com/2018/05/01/a-nobreza-da-arte/). Trouxe, entre outras, uma fotografia do quadro Crucifixion (c. 1490) do pintor holandês Geertgen tot Sint Jans. Não conhecia o quadro, mas já tinha reparado em duas obras do autor (ver figuras 3 e 4). O quadro intriga-me, e cativa-me, pelas suas peculiaridades.

A cena da crucificação inclui os episódios da Paixão (o Calvário), desde a apresentação a Herodes até ao sepultamento e à ressurreição. Não é vulgar.

Junto à cruz, não nos deparamos com o crânio habitual, a “morte seca”, mas com um transi, um cadáver em decomposição. Não recordo ter visto um transi numa pintura da crucificação.

Geertgen tot Sint Jans. The Crucifixion with St Jerome and St Dominic and Scenes from the Passion. 1490

Fig 2. Geertgen tot Sint Jans. The Crucifixion with St Jerome and St Dominic and Scenes from the Passion. 1490.

Ainda menos me lembro, desculpem o non sense, de um quadro com a crucificação em que a cruz está assente no abismo, na boca do inferno. Será uma alusão ao Limbo (https://tendimag.com/2017/10/05/o-triunfo-sobre-a-morte-san-martin-de-artaiz/)? Será um atalho para o Juízo Final (https://tendimag.com/2017/09/19/a-ressurreicao-da-imagem-marten-de-vos/)? Honestamente, desconheço.

 

Isto não é acessibilidade

FGS

Não me tem sobrado tempo. O tempo nem se toma nem se empresta. Tenho sugerido que as grandes marcas se têm destacado ao nível dos anúncios de consciencialização.  Existem, não obstante, anúncios institucionais excelentes, como este Accessibility is Everything da FGS (Fondsgehandicaptensport): a prova de um nadador não está na piscina mas no percurso até ao balneário. Este anúncio de consciencialização é uma aula, melhor que muitas aulas.

Anunciante: FGS. Título : Acessibilidade. Produção : Bonkers Amsterdam. Direcção: Bram Schouw. Holanda, 2017.

Imaginação e sensibilidade

Het NetHoje, descobri a Bonkers Amsterdam, uma agência de produção. Cada anúncio é um poema, e cada poema, uma dádiva.

O primeiro anúncio é fruta da época. Envolve uma agência funerária, negócio em crescimento. Alguns anúncios são particularmente criativos. Recordo o anúncio português  A um morto nada se recusa . O anúncio Friends, da Monuta, centra-se num grupo de amigos, que perde o membro estrela. Nenhuma novidade. O que mais cativa não é o tema, mas o modo.

O segundo anúncio, Tennis, da Het Net, propõe um humor absurdo. É necessário intuição para escolher o banal e arte para o subverter.

Marca: Monuta. Título: Friends. Agência: N=5, Amsterdam. Produção: Bonkers. Direcção: Bram Schouw. Holanda, Outubro 2017.

Marca: Het Net. Título: Tennis. Agência : Lowe Lintas & Partners. Produção: Bonkers. Direcção: Van Heyningen. Holanda, 2001.

Publicidade consagrada

Canal Digital

O crescimento de anúncios consagrados a causas públicas é exponencial. Hoje, dia 1 de Outubro, na página Culturpub , seis dos dez novos anúncios são dedicados a causas:

Outros anúncios:

  • Um hambúrger salva uma criança: Icelandic boy, da Chicken Licken (África do Sul);
  • Um Audi defende-se de condutores palhaços, Clowns, da Audi (UK);
  • Uma mama espacial aleita crianças: Spaceship, da Rakunoh Mother, Japão;
  • Uma carreira desportiva original, History is history, da Gatorade (USA).

Com ou sem causas, não há anúncio que não seja interessado. Alguns têm, inclusivamente, “interesse no desinteresse” (Bourdieu, Pierre, 1976, “Le champ scientifique”, Actes de la recherche en sciences sociales  Année 1976  Volume 2  Numéro 2  pp. 88-104). Muitos não são interessantes. Importa, actualizar as ferramentas de análise dos anúncios publicitários.

Dos seis anúncios “consagrados”, destaco três:

  • I Got This, pela exibição da miséria humana, com laivos de desrespeito e, até, sarcasmo para com as vítimas a resgatar. Lembra, pelo modo e pela música, o anúncio Unsweetened Truth, da America Legacy Foundation/Truth.
  • Love, pela exibição eufórica do amor (homossexual) consubstanciado num beijo inesperado entre dois homens num santuário da masculinidade (um estádio de futebol).
  • When you get home centra-se na relação entre um polícia e uma criança vítima de um acidente rodoviário.

Marca: Face the Music and Recovery Unplugged. Título: I got this. Agência: Ari Merkin. Direcção: Jared Knecht. USA, Setembro 2017.

Marca: Canal Digital. Título: Love. Agência: Try, Oslo. Direcção: Martin Werner. Noruega, Setembro 2017.

Road safety

Marca: Road Safety. Título: When you get home. Produção: 25FPS Amsterdam. Direcção: Ben Brand. Setembro 2017. Carregar na imagem para aceder ao vídeo.

Sevdaliza

Sevdaliza

Uma descoberta que nos cativa é uma janela aberta para o prazer. Conheci a música de Svdaliza na página de facebook da Helena Amaro: https://www.facebook.com/helena.amaro.12.

Sevdaliza é uma cantora de origem iraniana residente na Holanda. Prevê-se o lançamento do seu primeiro LP, ISON, no próximo dia 26 de Abril. Entretanto, publicou vários EPs. A canção “Human” foi editada em 2016 como single e como vídeo musical; “Hubris” foi publicada como single em 2017. Ambas integram o LP ISON.

Sevdaliza. Human. Dir. Emmanuel Adjei. 2016.

Sevdaliza. Hubris. 2017.

O aguilhão da inteligência

AbelhaConcentração! Muita concentração… O teste é manhoso. Na sala, nem um murmúrio. Apenas o zumbido de uma abelha, que pousa no ombro. Veio para ficar. Longos minutos, pele contra patas, braços contra asas. Estaremos perante uma nova técnica de alavancagem de testes? Algo como um aguilhão à inteligência? Vinte garantido. Esta experiência, recente e verídica, lembra o anúncio, antigo, da companhia de seguros Centraal Beheer, protagonizado por um funâmbulo e uma abelha.

Marca: Central Beheer. Título: Wasp. Agência: Result/DDB. Direcção: Paul Vos. Holanda, 1999.

Um buraco no muro

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Fotografia de David LaChapelle para a Diesel. 1995.

Vinte e dois anos após a fotografia com dois marinheiros a beijar-se (Diesel, 1995), David LaChapelle dirige o novo anúncio da marca: Make Love Not Walls. Próximo, nos anos oitenta, de Andy Warhol, David LaChapelle é uma referência no domínio da fotografia e da realização de vídeos musicais.

Make Love Not Walls, da Diesel, tem concitado rasgados elogios. A qualidade da imagem condiz com a fama do realizador. Uma explosão de cores sobre o cinzento do muro. A dança, o movimento e a fusão tornam o anúncio empolgante. A música parece talhada à medida. Os graffitis, os anos sessenta, o amor, o desejo e a sexualidade desafiam preconceitos e barreiras.

#makelovenotwalls trata de derrubar as paredes mentais e físicas que nos separam, e deixar todos os lados se unir em nome da unidade e do amor. [A marca] Diesel quer derrubar essas paredes mostrando que um amanhã mais brilhante e emocionante é possível (Diesel. Make Love Not Walls).

A história de Make Love Not Walls  é simples: uma abertura no muro dá azo a uma quase orgia: dança, libertação, comunhão e sexo. O anúncio assume-se contra a opressão e a discriminação. Para um velho do Restelo, sobram dois reparos tímidos e fugazes como fagulhas. Primeiro, a libertação, a comunhão e o amor tendem a aparecer mais associados a uma orientação sexual específica. Uma questão de impacto? Segundo, o vídeo fragiliza ou reforça a imagem do “profeta do muro”? Pressuponho, com algum risco de erro, que o anúncio visa promover, antes de mais, a imagem da Diesel. Não resisto a recolocar um anúncio da Levi’s em que um casal também arrasa “paredes mentais e físicas”.

Marca: Diesel. Título: Make Love Not Walls. Agência: Anomaly Amsterdam. Direcção: David LaChapelle. Holanda, Fevereiro 2017.

Marca: Levi’s. Título: Odyssey. Agência:  Bartle Bogle Hegarty. Direcção: Jonathan Glazer. Reino Unido, Janeiro 2002.

Uma gota de água

bavariaUma gota de água é um das expressões mais belas das línguas latinas. E é versátil. Como uma gota de água no oceano, um infinitamente nada. A gota de água que faz transbordar o copo, um ocasionalmente tudo. Vem este devaneio a propósito do anúncio The Drop, da Bavaria (2009). Original, turbulento, airoso e jovial, com estética e humor a preceito. Um ramalhete de qualidades raramente próximas. Com uma gota de cerveja…

Marca: Bavaria. Título: The Drop. Agência: Selmore. Direcção: Matthijs Van Heijningen. Holanda, 2009.

A solidão como companheira

Georges Moustaki. Ma Solitude. Le Métèque. 1969.

“Não, nunca estou só com a minha solidão”. Sou mais prosaico do que o Georges Moustaki: gosto de estar só, mas não gosto de me sentir só. A solidão existe. A solidão das margens e a solidão na multidão. A solidão de quem se perdeu no mundo ou no mundo perdeu a mão de Deus. Existe, também, a solidão de quem não suporta a sua própria companhia. Nos anúncios BoardingThe Box, não se fala da mesma solidão. Uma é desejada e a outra imposta. Em contrapartida, no extremo oposto, aquele que anda sempre acompanhado não tem folga para pensar ou pensa, então, em equipa.

Marca: Air France. Título: Boarding. Agência: BETC Euro RSCG. Direcção: Hou Hsiao Hsein. França, 2006.

Carregar na imagem para aceder ao anúncio The Box.

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Anunciante: Anti Exclusion. Título: The Box. Agência: McCann Erickson. Direcção: Joris Bergsma. Holanda, 1996. Imagem: Digital Art by A. Meyer.

O amor da morte pela vida

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A curta-metragem “The Life of Death”, de Marsha Onderstijn (Holanda), é vagarosa. Sossega. Convida-nos a manter o espírito em vigília. A morte lembra Midas. Tudo que tocava transformava-se em ouro. A morte tudo que toca perde a vida. Há séculos que se alude ao beijo, ao abraço, ao sopro ou ao toque da morte. Nesta curta-metragem, a morte toma-se de amores por um veado e, por extensão, pela vida. A recompensa de Midas revelou-se um pesadelo; a potência da morte, uma prisão. Não pode tocar sem matar, incluindo quem gosta. Como em todas as pequenas e boas histórias, os dados estão lançados: o veado abraça a morte e morre. Matar por impotência e morrer por amor. Esta relação entre a morte e o veado enquadra-se num intervalo da ordem do mundo, uma espécie de limbo para a morte. Para que conste, houve um tempo em que a morte amou a vida e a vida amou a morte.

Obrigado, Celeste! Este vídeo é uma pérola.

Marsha Onderstijn. The Life of Death. Holanda, 2012.