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A realidade da imagem. Restauro

ariston_aqualtis_underwaterÀ procura de artigos sobre a morte no Tendências do Imaginário, deparo-me com centenas de vídeos apagados. A Internet dá, é pródiga, mas também retira: “vídeo privado”; “a página não existe”, “defesa dos direitos de autor”, “não disponível no país”… Assim sucedia com os três anúncios do artigo “a realidade da imagem”. Os dois primeiros anúncios são uma excelente ilustração do que pode ser um ovo de Colombo na publicidade. O terceiro anúncio, da Ariston, é uma perdição! Segue o artigo restaurado.

A realidade da imagem (02 de Dezembro de 2011)

Entre o real e o imaginário, nem sequer um passo. Que o digam D. Quixote, Alice ou a criança que espreita pela porta de uma máquina de lavar roupa Ariston Aqualtis (ver vídeo). Entre a realidade e a imagem, apenas um abraço. Fundem-se. O peixe prefere o monitor ao aquário e a rã encontra o seu habitat nas cores do telemóvel Samsung. De tão real, a imagem até parece irreal: “Colors so real, it’s almost unreal”. A imagem é demasiado real!

Marca: Samsung. Títulos: Fish. Agência: BBDO New York / Skunk Us. Direcção: Mason Nicoll. EUA, Maio 2011.

Marca: Samsung. Títulos: Frog. Agência: BBDO New York / Skunk Us. Direcção: Mason Nicoll. EUA, Maio 2011.

Marca: Ariston Aqualtis. Título: Underwater world. Agência: Buf Film Master. Direcção: Dario Piana. Itália, Março 2006.

Engano autêntico

Jonty Hurwitz

Jonty Hurwitz

Será que existem realidades mais reais do que o real? Os sábios dizem que sim! Quem capta essas realidades mais reais do que o real? A águia? E a águia é mais ou menos real do que o real? Para quem? Para os dois seres humanos que figuram no anúncio? E os dois seres humanos são mais ou menos reais do que o real? Para quem? Para o espectador? E o espectador é mais ou menos real do que o real? Será o anúncio um cocktail mais real do que o real? Um simulacro?

Marca: AT&T. Título: Eagle. Agência: BBDO New York. USA, 2011.

Agonia

Luis de Morales. Piedad (c. 1560)

Luis de Morales. Piedad (c. 1560).

Imagens de impotência em situação de emergência. Aflitivas. A realidade e a ficção combinam-se para aumentar o efeito de verdade. Um efeito mais real do que o real. Uma criança brinca na companhia da mãe num espaço doméstico: amor, prazer, segurança. Um acidente, altamente improvável, ocorre: a criança salta para a piscina, escorrega numa prancha de surf e bate com a nuca no rebordo. Toda esta acção ocupa os 10 primeiros segundos do anúncio, montados com minucioso realismo. Segue-se o desespero e a agonia da mãe: 50 segundos, agora, de hiper-realidade. A agonia da mãe perante a perda do filho actualiza uma figura matricial do imaginário cristão. Impotente, a mãe, impotente, o espectador. Não há modo de ultrapassar a barreira. Tal como existem pecados por omissão, também existe impotência por omissão: incapacitação imprevidente. Um curso de primeiros socorros, eis a falha! Bastante cru, quase cruel, eventualmente chocante.

Anunciante: St John Ambulance Foundation. Título: Break the barrier. Agência: The Brand Agency. Direção:  Grant Sputore. Austrália, Abril 2014.

PS. A tradição judaico-cristã ainda está para dar e para durar. Os mestres da palavra continuam a pensar que a consciencialização carece ser regada com uma boa dose de sentimento de culpa

Uma realidade mais fictícia do que a ficção

Os anúncios com formato de documentário não datam de agora, mas estão francamente na moda. Foram vedetas no último festival de Cannes. Tudo serve para construir realidades, as evidenciar ou tornar palpáveis: uma instalação, uma intervenção, uma filmagem oculta, uma performance, um evento… Este notável anúncio da Ogilvy & Mather Argentina é, a esse título, um bom exemplo.

A hipermodernidade habituou-nos a ficções que são mais reais do que o real. O dispositivo de Mi primer amigo, mais do que retratar, cria realidade, com realidades. A fórmula agora é outra: cria-se uma realidade que é mais fictícia do que a ficção, com tudo o que isso comporta em termos de convicção, absorção e emoção.

Nada está ao abrigo da voracidade da publicidade. Nem o parto, nem o acto médico, nem a maternidade, nem os primeiros gestos de dois bebés. Não há honra nem vergonha, vida ou morte, tabu ou conveniência, bom ou mau gosto, religiosidade ou sentido de estado, que não possa ser tema de anúncio, que não conste do cardápio da publicidade. Também na arte, há cerca de um século, a assinatura do artista se tornou omnívora.

Marca: Huggies. Título: Mi primer amigo. Agência: Ogilvy & Mather Argentina. Direção: Ariel Evasio. Argentina, Agosto 2012.

“Con una acción muy emotiva y llena de ternura, Ogilvy Argentina y Huggies desarrollaron Mi primer amigo.

La idea principal de esta acción fue que dos bebés recién nacidos compartan una cuna especial y pasen el día del amigo juntos.

La acción se registró en la Clínica Bazterrica y contó con el apoyo tanto de los padres de los recién nacidos, como de obstetras y enfermeras del lugar.

Enzo y Thomás, los bebés protagonistas de esta historia, comenzaron sus primeras horas juntos.

Ariel Evasio, director del proyecto, comentó: “Ha sido muy buena la predisposición de Alejandro Javier Muñiz, director de la clínica, que puso el lugar a disposición para poder registrar este momento increíble que nos regalaron los recién nacidos”.

Agencia y cliente se contactaron con distintos obstetras y visitaron a las parejas que esperaban hijos en el día del amigo: “Pudimos acompañarlos en el último tramo de la espera. Compartimos la ansiedad de preparar el bolso y los seguimos hasta la clínica hasta que los dos amigos nacieron. A las pocas horas, cada uno tenía a su primer amigo al lado”, contaron.” (Adlatina: http://www.adlatina.com/notas/noticia.php?id_noticia=46816).