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Do Japão, com humor

A publicidade oriental é um caso à parte. Ora nos brinda com anúncios de seis minutos de fazer chorar as pedras, ora nos espevita com sequências frenéticas que, ao jeito japonês, fazem dançar as galinhas.

No Anúncio da Shop Japan, o segredo reside na repetição acelerada do disparate (ver excerto de Henri Bergson). Pouco importa o que te faz cair, o que interessa é o que te levanta, eventualmente, um aparelho para abdominais. No segundo anúncio, Lighters, a evolução de uma pen USB isqueiro, desde a criação até à conquista do planeta, é pretexto para uma miscelânea tresloucada de tudo quanto é símbolo japonês e mundial.

Marca: Shop Japan. Título: Wonder Core – Ab Machine. Japão, 2014.

Marca: Jii USB Lighter. Título: Lighters. Japão, 2013.

Soluciona-se assim o pequeno enigma proposto por Pascal a certa altura dos Pensamentos: “Dois rostos semelhantes, cada um dos quais por si não faz rir, juntos fazem rir por sua semelhança.” Por nossa vez diríamos: “Os gestos de um orador, cada um dos quais não é risível em particular, por sua repetição fazem rir.” É que a vida bem ativa não deveria repetir-se. Onde haja repetição ou semelhança completa, pressentimos o mecânico funcionando por trás do vivo. Que o leitor analise a impressão obtida diante de dois rostos muito parecidos: verá que pensa em dois exemplares obtidos de um mesmo molde, ou em duas impressões de um mesmo carimbo, ou em duas reproduções de um mesmo clichê, em suma, num processo de fabricação industrial. No caso, a verdadeira causa do riso é esse desvio da vida na direção da mecânica (Henri Bergson, O Riso: Ensaio sobre a significação do cómico. 1ª edição: 1899).

Um Gozo Desgraçado

Fou rireNa passagem do ano, é costume dar-se uns valentes pontapés no ar para afastar maldades, tristezas e azares, tais como os deste anúncio da Toyota. O ser humano é um rodízio de surpresas. Tanto chora como ri com a desgraça alheia. Henri Bergson releva que o percalço insólito é fonte de riso. Quanto a mim, rimos porque o diabo nos faz cócegas com o rabo. Admira-me que nestas “sociedades pós-modernas” tão propensas ao reformismo puritano (não bate a bota com a perdigota), não vingue uma política concertada de contenção do riso. Não é por falta de rainhas de copas, reis pasmados e mestres cantores! Que tal exilar o riso para os lados do purgatório? A coisa vai, devagar, mas vai. Mikhail Bakhtin releva que o riso galhardo medieval se foi transformando num sorriso amarelo, seco, nervoso e respeitador. O riso na antecâmara do purgatório! Entretanto, nada com rir da desgraça dos outros. Deve ser a isso que se chama um gozo desgraçado.

Marca: Toyota. Título: That’s life. Agência:  Lindsay Smithers FCB. África do Sul, 1996.