Sombras e transparências

A escala cinza e o claro-escuro permitem captar a aura, a tonalidade e a energia dos fenómenos, sem o ruído das cores. Como diria Henri Bergson, dão vida às sombras sem desperdiçar a luz. Como na Alegoria da Caverna de Platão, as sombras partem de alguma realidade, não a reproduzem. Dependem a luminosidade, da projeção e do olhar. Geram ilusões: “Se enxerga um gigante, inteire-se primeiro da posição do sol, e veja se o gigante não é a sombra de um pigmeu” (Novalis). Um fenómeno pode inclusivamente mudar de feição: clássico, hierático como o copo, pode tornar-se barroco ou trágico, redobrando-se. “Se o corpo é direito que importa que a sombra seja retorcida” (provérbio chinês).
Uma pessoa diz para logo se desdizer. As sombras também permitem, mais ou menos indiretamente, o acesso à verdade dos fenómenos. Atente-se na seguinte asserção atribuída a Fernão de Magalhães: “A igreja diz que a terra é plana, mas vi a sombra na lua e tenho mais fé na sombra do que na igreja”.
As nossas sombras escapam-se à frente ou demoram-se atrás; nada as impede de andar ao lado. São, porém, de outra ordem aquelas que se aninham na nossa alma. Nem sempre nos é dado escolhê-las.
A fotografia, premiada, da Almerinda Van Der Giezen tem a arte de sugerir estas diversas perspetivas e experiências, mesmo o que vai na alma! Não é qualquer música que se presta para a acompanhar. Em 2015, com 92 anos, Menahem Pressler interpretou o Noturno nº 20 de Chopin. Uma escolha que não desmerece.
Do Japão, com humor
- S.T. Dupont Andy Warhol Limited Edition – Marilyn Monroe Line 2 Lighter.
- S.T. Dupont Andy Warhol Limited Edition – Marilyn Monroe Line 2 Lighter.
A publicidade oriental é um caso à parte. Ora nos brinda com anúncios de seis minutos de fazer chorar as pedras, ora nos espevita com sequências frenéticas que, ao jeito japonês, fazem dançar as galinhas.
No Anúncio da Shop Japan, o segredo reside na repetição acelerada do disparate (ver excerto de Henri Bergson). Pouco importa o que te faz cair, o que interessa é o que te levanta, eventualmente, um aparelho para abdominais. No segundo anúncio, Lighters, a evolução de uma pen USB isqueiro, desde a criação até à conquista do planeta, é pretexto para uma miscelânea tresloucada de tudo quanto é símbolo japonês e mundial.
Marca: Shop Japan. Título: Wonder Core – Ab Machine. Japão, 2014.
Marca: Jii USB Lighter. Título: Lighters. Japão, 2013.
Soluciona-se assim o pequeno enigma proposto por Pascal a certa altura dos Pensamentos: “Dois rostos semelhantes, cada um dos quais por si não faz rir, juntos fazem rir por sua semelhança.” Por nossa vez diríamos: “Os gestos de um orador, cada um dos quais não é risível em particular, por sua repetição fazem rir.” É que a vida bem ativa não deveria repetir-se. Onde haja repetição ou semelhança completa, pressentimos o mecânico funcionando por trás do vivo. Que o leitor analise a impressão obtida diante de dois rostos muito parecidos: verá que pensa em dois exemplares obtidos de um mesmo molde, ou em duas impressões de um mesmo carimbo, ou em duas reproduções de um mesmo clichê, em suma, num processo de fabricação industrial. No caso, a verdadeira causa do riso é esse desvio da vida na direção da mecânica (Henri Bergson, O Riso: Ensaio sobre a significação do cómico. 1ª edição: 1899).
Um Gozo Desgraçado
Na passagem do ano, é costume dar-se uns valentes pontapés no ar para afastar maldades, tristezas e azares, tais como os deste anúncio da Toyota. O ser humano é um rodízio de surpresas. Tanto chora como ri com a desgraça alheia. Henri Bergson releva que o percalço insólito é fonte de riso. Quanto a mim, rimos porque o diabo nos faz cócegas com o rabo. Admira-me que nestas “sociedades pós-modernas” tão propensas ao reformismo puritano (não bate a bota com a perdigota), não vingue uma política concertada de contenção do riso. Não é por falta de rainhas de copas, reis pasmados e mestres cantores! Que tal exilar o riso para os lados do purgatório? A coisa vai, devagar, mas vai. Mikhail Bakhtin releva que o riso galhardo medieval se foi transformando num sorriso amarelo, seco, nervoso e respeitador. O riso na antecâmara do purgatório! Entretanto, nada com rir da desgraça dos outros. Deve ser a isso que se chama um gozo desgraçado.
Marca: Toyota. Título: That’s life. Agência: Lindsay Smithers FCB. África do Sul, 1996.


