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Sentir-se bem

“o homem nasceu para o prazer. Sente-o.” (Blaise Pascal).

“A maior parte das coisas que dão prazer não são razoáveis” (Montesquieu).

O vento leva, o vento traz. Retomo este artigo adiado há dois dias.

Funciono por vagas. Ora música, ora publicidade, ora imagens, ora escrita. Assim me disperso. Esta semana, escrevi, escrevi, escrevi: ruminação obstipada com destempero de letras. Coisa séria e ensimesmada. Apetece-me fechar as palavras e abrir a janela às notas, à música. Deixar entrar prazer descontraído. Com os olhos desembaciados. Quero sentir-me bem! Com minudências. Por exemplo, a partilhar Bobby McFerrin, Anne Murray e Nina Simone.

Bobby McFerrin. Sing! Day of song – Improvisation. Ao vivo. Veltins arena. 2010.

Anne Murrey. I Can See Clearly Now (versão original). There’s a Hippo in My Tub. 1977.
Nina Simone. Feeling Good (Official Video). 2021.

Apelo ao prazer

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Fig 1. Mosaico grego. Província de Hatay, sul da Turquia. Séc. III a.C.

Este mosaico grego foi encontrado em 2012 na província de Hatay, no sul da Turquia, correspondente à antiga Antioquia. Datado do século III a.C., representa um esqueleto, sob fundo negro, com um copo na mão esquerda. Ao seu alcance pão e uma garrafa de vinho. As letras dizem: “sejam alegres e aproveitem a vida”. Uma exortação próxima do carpe diem de Horácio. Soa estranho vindo de um esqueleto. Adquirimos o hábito de associar os ossos humanos à vanitas (vaidade, vacuidade). No entanto, a morte risonha, divertida ou boa companheira é uma figura frequente, mormente, na Idade Média e no Renascimento. Sem receio de cometer um anacronismo, este mosaico é um dos “posters” mais interessantes da história da humanidade.

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Fig 2. Mosaico grego. Província de Hatay, sul da Turquia. Séc. III a.C.

Nas Nuvens

Mercedes-Benz-Le-MonolithO anúncio Le Monolith, da Mercedes, é todo ele um corpo a corpo com um monólito bruto, erecto como uma provocação divina. Embates humanos esculpem-no a um ritmo endiabrado, sincopado pela música dos Boys Noise remisturada pelos Chemical Brothers. A cinzelagem inicial do skater culmina com o polimento carnal por um casal de dançarinos. Homens e bestas revezam-se num desgaste cósmico, estético, erótico e agonístico. Para criar um ícone : a nova série da Mercedes. “Le film, réalisé par Wilfrid Brimo et Wanda Productions, montre une succession de scènes à la fois brutales, élégantes, énergiques, où des personnages vont progressivement façonner, sculpter un bloc d’une matière indéfinissable qui se révèlera être le Concept GLA. Un skateur va ciseler le bloc, un cerf va l’érafler, un couple de danseurs le polir… Quatre-vingt dix secondes d’un spectacle haletant, émotionnel et neuf en rupture avec les discours tristes, rationnels ou prudents que la catégorie automobile propose aujourd’hui en communication ».

Filho do luxo, brilhante e criativo, este anúncio exala um certo ar de família. Com as devidas precauções, advinha-se a origem francesa. A missão é homérica: renovar a imagem de uma marca consolidada. A ênfase na razão, na confiança e na sobriedade pertence ao passado. Doravante, a “estrela” será desportiva, sensorial e hedonista, na vanguarda da técnica e da arte. Uma rotação de quase 180º. Um último reparo: como diria Carlos Nascimento, profissional de publicidade experiente e meu parceiro de investigação, este é um bom exemplo de um anúncio que vai correr o mundo, inundar os ecrãs, mas que, de facto, se dirige a um target, além de preciso, extremamente reduzido: “les social climbers, ces hommes et femmes dans les plus belles années de leur réalisation”. Em português abreviado, os alpinistas sociais nas nuvens do sucesso.

Marca: Mercedes-Benz. Título: Le Monolith. Agência: BBDO France / Proximity. Direção: Wilfried Brimo. França, Setembro 2013-09-23

Existe uma versão interactiva muito bem conseguida desta campanha. Pode aceder no seguinte endereço: http://www.youtube.com/user/MercedesBenzFrance/Sensations.