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Doçura

“A natureza fez o comer para o viver, & a gula fez o comer muito para o viver pouco” (Padre António Vieira, Sermão da quarta Dominga depois da Páscoa, Sermoens do P. Antonio Vieira, 1692).

Dez segundos bastam para um anúncio ter história, humor e impacto. A campanha indiana da marca Pulse Candy acomoda três anúncios na duração de um anúncio normal. As doçuras Pulse Candy são uma tentação perigosa…
Estes pequenos anúncios da Pulse Candy lembram um anúncio indiano fantástico, Palace, às pastilhas elásticas Happydent. Pode aceder no seguinte artigo: https://tendimag.com/2014/08/27/dentes-brilhantes/.

Marca: Pulse Candy. Título: Astronaut. Agência: J Walter Thompson. Direcção: Shirish Daiya. Índia, Dezembro 2018.
Marca: Pulse Candy. Título: Swing. Agência: J Walter Thompson. Direcção: Shirish Daiya. Índia, Dezembro 2018.
Marca: Pulse Candy. Título: Bedroom. Agência: J Walter Thompson. Direcção: Shirish Daiya. Índia, Dezembro 2018.

Comer e gritar por mais

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Um homem muito homem a chorar? Onde se viu? Por um hamburger? Muito estranho. Está na moda publicar anúncios por episódios. Presumo que este é o primeiro: homens muito homens choram por um hamburger. Falta o segundo: homens muito homens rendem-se ao sexy-appeal de um hamburger carnal, com ou sem Perrier. Brincadeira à parte, o anúncio Brings the toughest to tears, da Wendy’s, é admirável: criativo, ousado, desconcertante, bem humorado e tecnicamente esmerado.

Marca: Wendy’s. Título: Brings the toughest to tears. Agência: Augusto NZ. Direcção: James Anderson. Nova Zelândia, Novembro 2016.

Pisar o risco

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A morte é central no imaginário grotesco. A gravidez e o nascimento, também. Multiplicam-se os anúncios que recorrem a estes temas. Umas vezes, aproximando-os, como no anúncio Champagne da XBOX (ver O parto na modernidade avançada ), outras, separando-os, como no anúncio Ultrasound, da Doritos, para o Superbowl. Gravidez e parto, sem morte, mas com gula. O apetite excessivo associado à gravidez; o apetite deslocado do pai; o apetite prodigioso de bebé, no ventre da mãe. Tudo possível graças às maravilhas mágicas da técnica. O anúncio mergulha-nos no âmago do grotesco: a gravidez, o nascimento, a gula, o corpo e a técnica. Faltam, por exemplo, a morte, a religião e o poder. Alguém anda a saltitar nos limiares da conveniência? Trata-se de uma obsessão do grotesco: pisar o risco.

Marca: Doritos. Título: Ultrasound. Direcção: Peter Carstairs. Austrália, 2016.

Excitação: a sopa das delícias

A gula e a luxúria, o banquete e o sexo, costumam andar de braço dado. Abundam os textos, as pinturas e os filmes onde se cruzam, como nesta gravura do século XV. Uma tentação a que a publicidade não resiste. No Japão, país de delícias requintadas, uma sopa gera um prazer irresistível consubstanciado num coro orgiástico (Marca: Miojo Ippei Chan. Título: We Can’t Stop. Agência: Hakuhodo. Japão, 2000). Para visualizar o anúncio, carregar na imagem ou no seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/myojo-ippei-chan-soupe-de-nouilles-we-can-t-stop/.

Mestre E. S. Festa no Jardim do Amor. C. 1465.

Mestre E. S. Festa no Jardim do Amor. C. 1465.

O Chocolate e a Capuchinho Vermelho

Chocolat Lanvin, ca. 1950.

Chocolat Lanvin, ca. 1950. Dali participou num anúncio do chocolate Lanvin.

Nougat Croc by Cometi (1924).

Nougat Croc by Cometi (1924).

Na erótica da alimentação, o chocolate é talvez o alimento em que a gula e a luxúria mais se namoram. Voluptuosamente. Não é de admirar que o desodorizante Axe, a fragrância do arrebatamento libidinoso, associe um produto, Dark Temptation, ao chocolate: “Axe Dark Temptation as irresistible as chocolate”. O anúncio argentino “Hombre Chocolate” não deixa margem para dúvida. Transformado em homem chocolate após uma vaporização Axe, o protagonista é salvo pela duração do anúncio: um minuto. Mais alguns segundos e ficaria eunuco. É este apelo (sex-appeal) do chocolate que convoca, para além do Ambrósio, do anúncio da Ferrero Rocher, figuras tais como o lobo mau e a capuchinho vermelho. Qual é a razão? Bruno Bettelheim propõe uma resposta.

Marca: Axe. Título: Hombre Chocolate. Agência: Vega Olmos Ponce. Direção: Tom Kuntz. Argentina, 2007.

Reproduction of a Poster Advertising Menier Chocolate, 1893

Reproduction of a Poster Advertising Menier Chocolate, 1893 (?)

Print Chocolat Fondant Kolher. By John Onwy 1930

Print Chocolat Fondant Kolher. By John Onwy 1930

 

Espelho

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“Chapéus há muitos, seu palerma!” (Vasco Santana, Pátio das Cantigas). Identidades, também! Fragmentadas, líquidas, múltiplas, híbridas, virtuais, camaleónicas… Neste anúncio francês, a identidade desafia o espelho. Não fosse a idade, seria mais um apontamento para a teoria do estádio do espelho.

Marca: Nestlé – Extrême. Título: Le reflet. Agência: JWT Paris. Direcção: Sébastien Grousset. França, Maio 2014.

 

A culinária do orgasmo

Enquanto o antibiótico se mantém preguiçoso, entretenho-me a ver sombras na caverna.

Blaise Pascal (1623-1662) é uma sub-rotina do meu pensamento. Pierre Bourdieu também não se cansa de o citar, tendo-lhe dedicado um livro (Meditações Pascalianas, 1997). Quanto a mim, apraz-me citar Pascal a propósito do prazer:

“Os princípios do prazer não são firmes nem estáveis. São diversos em todos os homens, e variáveis em cada caso particular com uma tal diversidade, que não há nenhum homem mais diferente de outro que de si próprio nos diversos momentos da vida. Um homem tem prazeres diferentes de uma mulher; diferentes são os de um rico e os de um pobre; um príncipe, um militar, um mercador, um burguês, os velhos, os jovens, os sadios, os doentes, todos variam; os mínimos acidentes os alteram” (Pascal, De l’Art de Persuader).

Para abrir este vídeo, carregue na imagem ou aceda a http://www.culturepub.fr/videos/kabanossi-saucisses-les-plaisirs-de-la-table?hd=1.

Kabanossi. Salsichas. O prazer da mesa. Finlândia, 2003.Marca: Kabanossi. Título: Os Prazeres da Mesa. Finlândia, 2003.

O próximo anúncio foi proibido, tendo circulado viralmente. Para aceder, carregar na imagem.

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Marca: New England. Título: A Adolescente. Agência: Howell Henry Chadelcott. Direcção: Klaus Witting. UK, 1992

A gula e a luxúria são os dois pecados capitais mais propensos a namorar entre si. Thomas Munzer (1490-1525) diria, na sua prosa suculenta, que fornicam em conjunto. Erotizar alimentos é uma velha receita da publicidade. O cúmulo consiste em sugerir que o prazer do consumo alimentar é equiparável a um acto sexual com orgasmo à vista (vídeos 1 e 2). Aprendemos, entretanto, que os alimentos podem ter sexo (vídeo 3): o gelado, a salsicha e o queijo são, pelos vistos, masculinos. Um queijo? Sem dúvida, tresanda a homem. E combina força e ternura. Pena que os alimentos não engordem a natalidade.

Para abrir o próximo vídeo, carregue na imagem ou aceda a http://www.culturepub.fr/videos/coeur-de-lion-camembert-force-et-tendresse?hd=1.

Coeur de lion. Force et Tendresse. France. 1994.

Marca: Coeur de lion. Título: Force et Tendresse. Agência: FCB. França, 1994.