Às voltas. O Ouroboros

A propósito da folia, música e dança de origem portuguesa (ver A folia portuguesa), comentou-se que continuava a inspirar novas versões, aludindo a Rita Ribeiro a um grupo célebre, sem, contudo, se lembrar do nome. Tão pouco consigo adivinhar.
Posteriormente, acudiu-me que a Rita talvez estivesse a pensar nos britânicos Penguin Cafe Orchestra. Por acaso, dias antes, ao escutar o álbum Ummagumma (1969), dos Pink Floyd ,tinha-me ocorrido que a música “The Narrow Way, Part I” prenunciava um pouco o estilo dos Penguin, cujo primeiro álbum, Music from the Penguin Cafe, foi lançado em 1976.
Às voltas com a noção de circularidade na teoria do imaginário do Gilbert Durand, a música Perpetuum Mobile, dos Penguin, acabou, também, por ressoar nos meus ouvidos.
Enfim, penso ilustrar, numa próxima comunicação, a referida noção de circularidade com a gravura do M. C. Escher “Um Encontro” (1944), que, por sinal, é capa do livro da Rita As lições dos aprendizes (2001)…

Tantas voltas que a serpente, o Ouroboros, dá! Até acaba por morder a própria cauda, renovando o ciclo.
Danças Submersas. Bailado em Regime Noturno

“Being an artist is like a journey to build something and I feel like I’m not building things, I’m just been driven by whatever comes to me (…) When I dance, when I move under water, I really feel that I become one, one with the water (…) I love the smell of the forest, I love the sound of the forest, it’s really beautiful, I feel part of it, part of the system (…) But what hidden in the under world is something that is really personal, it’s opening to your imaginary.” (Dancing Through the Waters with Julie Gautier, 2023)
Segundo alguns estudiosos do imaginário, nomeadamente Carl G. Jung, Gaston Bachelard e Gilbert Durand, podem-se associar e contrapor símbolos elementares. Associar, por exemplo, o sol, a luz, o ar, o elevado, a ascensão, a árvore, o seco, o duro, o direito, o exterior, o convexo, o fálico, o masculino, a espada ou a separação, remetendo-os para o “regime diurno do imaginário” (Gilbert Durand); e contrapô-los à lua, à sombra, à água, ao baixo, ao mergulho, à floresta, ao húmido, ao mole, ao sinuoso, ao interior, ao côncavo, ao uterino, ao feminino, ao cálice ou à (con)fusão, que remetem para o “regime noturno do imaginário”.
Seguem cinco bailados subaquáticos protagonizados pela francesa Julie Gautier, natural da Ilha da Reunião. Cinco, nem mais nem menos. Até podiam ser seis, mas o mais visualizado, AMA (2018), já está colocado no Tendências do Imaginário (Mergulho e ascensão da mulher. Coreografia subaquática). Todos nos convidam, portanto, a mergulhar profundamente no regime noturno do imaginário.
Verticalidade 2
De longe em longe, entretenho-me a arrumar os ficheiros do computador. Ando nas nuvens. Deparei com o anúncio The Fallen Angels, da Axe, de 2011. Verifiquei se o tinha publicado no Tendências do Imaginário. O anúncio lá está mas a preto. Este luto dos vídeos acontece por motivos vários: de autoria, de censura ou de secura da fonte. Nada como recolocar de outra proveniência. Peço desculpa pelas citações em francês e em inglês. Agora costumo traduzir, mas, então, ou tinha mais preguiça ou menos tempo. Retomo o artigo com prazer, só me apoquenta a dúvida de que escrevia melhor antes do que agora.

C’est d’abord le symbolisme de la verticalité que suggèrent « la voûte étoilée au-dessus de nos têtes » et le simple zénith du ciel azuré diurne. Cette verticalité ascendante est liée à l’une des données les plus caractéristiques de l’anthropologie, mais en même temps elle dépasse en dignité et en puissance cette donnée existentielle. Les anthropologues, les paléontologues, les psychologues généticiens et les poètes (A. Leroi-Gourhan, P. Werner, G. Durand, R. Desoille, M. Montessori, H. Wallon, G. Bachelard) se rencontrent pour affirmer que la verticalité dressée de l’homo sapiens est, selon le mot de Bachelard dans L’Air et les Songes, « une métaphore axiomatique » (Gilbert Durand, « Verticalité et transcendance », Encyclopaedia Universalis : https://www.universalis.fr/encyclopedie/symbolisme-du-ciel/1-verticalite-et-transcendance/).
No anúncio Chuva de Homens, da MTV (2006), os seres humanos caem das nuvens como ícaros ou anjos negro. Ou peixes e sapos (ver excerto do filme Magnólia: https://www.youtube.com/watch?v=TCJsZBK1JKE). Às centenas. É bom sinal, sinal de que a “MTV is in the air”.Temos tendência a pensar o mundo na vertical. A começar pelo sagrado. Deus desceu à terra e Cristo subiu aos céus. A ascensão dos santos, a queda dos anjos e a descida aos infernos constituem um sobe e desce incessante. Nesta “metáfora axiomática”, a horizontalidade converte-se num patamar ou num contraponto.
Uma boa ideia tem a sina de ser, mais cedo ou mais tarde, retomada. No anúncio The Fallen Angel, da Axe (2011), uma dúzia de anjos femininos precipitam-se atraídos pela fragância do desodorizante masculino Axe. É pecado? Pelo menos, renunciam às auréolas. Excelente, o anúncio peca pelo sobressalto de masculinidade.
O anúcio The Fallen Angel foi proibido na República de África do Sul. Não por excesso de masculinidade mas por heresia: os anjos não resistem ao apelo da carne. Segundo a Advertising Standards Authority (South Africa):
The problem is not so much that angels are used in the commercial, but rather that the angels are seen to forfeit, or perhaps forego their heavenly status for mortal desires… This is something that would likely offend Christians in the same manner as it offended the complainant (https://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/africaandindianocean/southafrica/8850294/Deodorant-commercial-banned-for-offending-Christian.html).
A cópia e o fragmento

“Nós só conhecemos verdadeiramente aquilo que é novo, aquilo que introduz bruscamente na nossa sensibilidade uma mudança de tom que nos choca, aquilo que o hábito ainda não substituiu pelos seus pálidos fac-símiles. Mas foi sobretudo este fraccionamento de Albertina em numerosos fragmentos, em numerosas Albertinas, que era o seu único modo de existência em mim (…) Cada um de nós não é uno, mas contém numerosas pessoas que não possuem todas o mesmo valor moral” (Marcel Proust, À la recherche du temps perdu. Livre 6 : Albertine Disparue, 1927).
Sempre que me deparo com o tema da sensibilidade, acode-me Marcel Proust, “o realista da alma” (Gazette de Lausanne, 15 de Abril de 1914). Leio e releio Proust pelo prazer literário, mas também pela vontade de aprender. Muitos autores, a começar por Pierre Bourdieu, encaram a obra de Marcel Proust como uma inspiração e uma referência da micro-sociologia. Na presente citação, Marcel Proust releva o “fraccionamento de Albertina (…) em numerosas Albertinas”. No que respeita à fragmentação identitária e à polifonia, Marcel Proust sucede a Arthur Rimbaud (“Eu é um outro”; Carta a Paul Demeny, 15 de Maio de 1871), mas precede Mikhail Bakhtin e Erving Goffman. Sem ofensa deontológica, no ofício recorro tanto a Blaise Pascal, Marcel Proust, Thomas Mann e Fernando Pessoa, quanto aos faróis mais sublimes do panteão da sociologia académica. Talvez por influência da sociologia fenomenológica, acredito que o conhecimento do social não começa, nem acaba, com um diploma ou uma certificação.
Men Pioneers, da Nívea (México), é um excelente anúncio. Encerra várias ressonâncias que compete a cada um interpretar. Por exemplo, a contradição entre o gládio e a taça (Gilbert Durand) e, eventualmente, a alusão à homossexualidade. Os episódios são impactantes, uns originais, outros, como diria Proust, fac-símiles: concentrados de sentido e emoção já circulados e testados. Despoletam um efeito garantido. O eco e a redundância podem ser amigos da persuasão.
Um par de cornos

Moisés. Sillería de coro de la catedral de San Salvador de Oviedo. Obra realizada entre 1491 y 1497.
Muitas pessoas contemplaram, presencialmente ou não, o Moisés de Michelangelo. Poucas repararam nos cornos. As duas protuberâncias não são artifício de penteado, são, ineludivelmente, dois cornos. Este tipo de “cegueira” remete para a teoria da dissonância cognitiva de Leon Festinger. Quando visitamos a basílica de San Pietro in Vincoli, em Roma, aspiramos à perfeição da arte e da religião, não a um par de cornos ao jeito de Pan ou de Lucífer. E, no entanto, eles lá estão.
O Moisés de Michelangelo não é um caso isolado (ver galeria de imagens). Na Idade Média, mas também nos séculos seguintes, muitas obras representam o profeta com cornos. Dizem os entendidos que esta anomalia decorre de um erro de São Jerónimo (347-420) na tradução da Bíblia do hebreu para o latim:
“Ao traduzir uma passagem do Êxodo que descreve o semblante do profeta Moisés, São Jerônimo escreveu em latim: cornuta esse facies sua, ou seja, “sua face tinha chifres”. Esse detalhe esquisito foi levado a sério por artistas como Michelangelo – sua famosa escultura representando Moisés, hoje exposta no Vaticano, está ornada com dois belos corninhos. Tudo porque Jerônimo tropeçou na palavra hebraica karan, que pode significar tanto “chifre” quanto “raio de luz”. A tradução correta está na Septuaginta: o profeta tinha o rosto iluminado, e não chifrudo. Apesar de erros como esse, a Vulgata reinou absoluta ao longo da Idade Média – durante séculos, não houve outras traduções.
30.E, tendo-o visto Aarão e todos os israelitas, notaram que a pele de seu rosto se tornara brilhante e não ousaram aproximar-se dele. Ex 34:30.” (“Chifres de Moisés”. Blogue Parafraseando a Verdade: http://parafraseandoaverdade.wordpress.com/2011/06/30/moises-do-antigo-testamento-com-chifres/.”
Custa-me a acreditar que um erro de tradução de uma palavra fosse suficiente para coroar, durante séculos, o profeta dos profetas com um brilhante par de cornos. A imagem vingou porque se enxertou no imaginário da época, nas crenças e nos sentimentos das pessoas. Fazia sentido.
Os cornos significam, em várias culturas, potência. No caso de Moisés, a força de Deus. Não é por acaso que os guerreiros celtas e vikings colocavam cornos nos capacetes. Dei, há semanas, uma aula sobre a relação entre o poder e a arte, incluindo as moedas. Começámos pelo início: Dario I, o imperador da Pérsia, cunhou moedas com o logotipo do arqueiro, o seu símbolo; Alexandre o Grande faz circular moedas com o seu perfil. Acontece que Alexandre o Grande é retratado nas moedas com cornos na cabeça! (Figura).
Não há símbolos unívocos. Os cornos remetem para a potência, para a virilidade, mas também para o oposto:
“C. G. Jung encara uma outra ambivalência no simbolismo dos cornos: representam um princípio ativo e masculino, pela sua forma e pela sua força de penetração; um princípio passivo e feminino, pela sua abertura em forma de lira e de recetáculo. Reunindo estes dois princípios na formação da personalidade, o ser humano, assumindo-se integralmente, atinge a maturidade, o equilíbrio, a harmonia interior” (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire de Symboles, Paris, Robert Laffont, 1982, p. 290).
Palavras que lembram Gilbert Durand.
- Fig 01. Statue of Moses c.1150-1200, St. Mary’s Abbey, now in the Yorkshire Museum.
- Fig 02. Statue of Moses c.1150-1200, St. Mary’s Abbey, now in the Yorkshire Museum. Detail.
- Fig 03. Arbusto flamejante. Huntingfield Psalter. 1210-1220.
- Fig 04. Lyon, Bibliothèque Municipale. Ms a418. séc XIII.
- Fig 05. Fresco medieval. Deus dá a tábua dos dez mandamentos a Moisési. St. Andrews Church in Westhall.
- Fig 06. William de Brailes. The Israelites Worship the Golden Calf and Moses Breaks the Tablets. circa 1250
- Fig 07. Bury Bible (about 1355). Cambridge
- Fig 08. Andrea de Bonaiuto (1333-1392), Moisés. Afresco (detalhe)
- Fig 09. Moses with Horns in the Chapel at New College, Oxford. 1350.
- Fig 10. Moses with Horns in the Chapel at New College, Oxford. 1350. Detail.
- Fig 11 Moses with Horns in the Chapel at New College, Oxford. 1350. Detail.
- Fig 12. Moisés recebe as tábuas da lei. Ms. Rouen, BM 0.4. Séc. XIV.
- Fig 13. Moses, the ten plagues and the ten commandments. 1465-1480. The British Museum.
- Fig 14. Claus Sluter, Well of Moses. 1395-1403. Musée Archéologique, Dijon
- Fig 15. Janela da Capela de Rosslyn (construída ente 1446 e 1484). Moisés.
- Fig 16. Moisés. Sillería de coro de la catedral de San Salvador de Oviedo. Obra realizada entre 1491 y 1497.
- Fig 17. Michelangelo. Moisés. 1513-1515
- Fig 18. Michelangelo. Moisés. 1513-1515. Pormenor.
- Fig 19. Moses on the 1518 baptismal font in St. Amandus, Bad Urach, Germany, by the sculptor Christoph von Urach.
A fada da leitura
Os contos de fadas e os desenhos animados constituem deltas que irrigam a nossa “bacia semântica” (Gilbert Durand) e embalam as ondas do nosso imaginário. Os publicitários não o ignoram. Alguns até exageram. É engraçado como as personagens dos contos de fadas têm, frequentemente, o condão de nos lembrar pessoas. Já tem menos piada as pessoas, por vezes, não nos lembrarem nada.
Anunciante: Reading is Fundamental. Título: Book People Unite. Agência: Mother, New York. EUA, Abril 2012.

























