A dádiva da Memória. De filho para pai
Gratidão: não ver a prenda, mas quem a oferece (anónimo).
Todos os anos, próximo do Natal, a rede britânica de lojas John lewis faz questão de lançar um anúncio marcado pelo espírito de partilha e generosidade. Convoca quase sempre a família e recorre frequentemente à fantasia. “Where Love Lives” prescinde da fantasia e concentra-se na relação entre gerações, designadamente entre filho e pai.
Memória puxa memória. O tempo, suposto linear, contorce-se. E o início, o passado, e o fim, o presente, abraçam-se.
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Prenda cortesã precursora

Concluído em 1405, o Livro da Cidade das Damas (Le Livre de la Cité des Dames) foi escrito, em prosa, por uma mulher, Christine de Pisan, em defesa das mulheres, Uma obra pioneira “antimisógin”. Foi ainda autora do Livro das Três Virtudes (Le Livre des Trois Vertus), de 1405, e do livro de poesia Le Ditié de Jehanne d’Arc, de 1429.
“Cristhine de Pisan (1365.1431) é considerada como uma das primeiras mulheres escritoras em França. Viúva e mãe de família aos 25 anos, escolheu a escrita para ganhar a sua vida. Tornou-se poetisa de corte, oferecendo-lhe alguns senhores a sua proteção, a exemplo do duque de Borgonha ou do duque de Orléans. Mas foi também autora de livros de pendor político e moral, e dirigiu uma oficina de copistas.
No Le Livre de la Cité des dames, de 1405, promove uma análise crítica da sociedade a par de soluções para sair da crise do século XV. Christine de Pisan inclui-se a si mesma na narrativa: consternada pelas divisões que dilaceram a França, decide construir uma “Cidade das damas” onde as mulheres ilustres dariam o exemplo. Personagens alegóricas exclusivamente femininas, tais como a Dama Razão, a Dama Retidão e, ainda, a Dama Justiça [Dame Justice] ajudam-na a educar as mulheres de todas as idades e condições sociais” (Le Livre de la Cité des dames de Christine de Pisan, Passerelle[s ] – Bibliothèque Nationale de France).

Citação de Christine de Pisan:
Se fosse o costume mandar jovens meninas para a escola e ali ensiná-las toda sorte de diferentes matérias, assim como se faz com jovens meninos, elas entenderiam e aprenderiam as dificuldades de todas as artes e ciências com tanta facilidade quanto os meninos. […] Sabes por que mulheres conhecem menos que homens? […] é porque elas são menos expostas a uma larga variedade de experiências já que precisam ficar em casa o dia inteiro em nome do lar. Não há nada como uma gama completa de diferentes experiências e atividades para expandir a mente de qualquer criatura racional (Christine de Pizan, Livro da Cidade das Damas. Manuscrito original: 1405).

Anúncio português vintage 7: Sofá
“Sofá”, da Optimus, ilustra claramente quanto somos filhos do telemóvel. Somos a geração do sofá, das emoções confortáveis, mas pertencemos, em particular, à geração do telemóvel, no duplo sentido de época e progenitura. [Carregar na imagem para aceder ao anúncio].

Recordação dos Reis

Este anúncio escapou-me no Natal de 2020. Voltou a escapar em 2021. Ia também escapar em 2022. Mas os Reis resgataram-no. Era uma pena!
Anúncio quase perfeito

De qualquer ângulo, o anúncio “She/Abuelo”, da J&B Spain, é quase perfeito. Só não é perfeito porque a perfeição não existe.
Diálogo entre gerações

Por vezes as pessoas não querem ouvir a verdade, porque não desejam que as suas ilusões sejam destruídas (frase atribuída a Nietzsche)
Quanto mais os sistemas de ensino se aproximam de máquinas de empacotar saber mais as máquinas de entretenimento ousam funcionar como fontes de sabedoria? Este anúncio com um diálogo possível entre o saber dos pais e a sabedoria da filha é uma delícia. Uma amostra da comunicação entre gerações. Sem compromissos nem ressentimentos.
A música entre nós
Sem a música, o mundo seria um erro (Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos, 1889)

A música toca-nos. É uma ponte para afetos e memórias. O anúncio Crafting Memories – since 1925, da Bang & Olufsen, incide, precisamente, sobre esta relação entre a música e a memória partilhada. Recordo quando ouvi, pela primeira vez, a música Fast Car, da Tracy Chapman, no sótão da casa de uns primos a quem quero bem.
Os nós da globalização
Global, local, glocal? Comprimido, estável, expandido? Líquido, mole, firme? Próximo, distante? Rápido, lento? Grande, pequeno? O mundo depende das nossas pegadas, das nossas relações, das nossas escalas e dos nossos mapas mentais. “O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são.” (Protágoras). “O que conta está no interior”, a fazer fé no anúncio da Delsey Paris. Simon, após dar a volta ao mundo, encontra o que persegue, a mala, no ponto de partida. Durante a travessia, cresce-lhe a barba, entrega-se à aventura, restaura a identidade e abraça o amor paterno. Vê-se ao espelho do pai. A passagem de testemunho entre gerações é, frequentemente, pautada pela reincidência: fecha-se um ciclo, abre-se outro. E o mundo continua a girar em torno de si mesmo. Ao jeito do Quino.
Marca: Delsey Paris. Título: What Matters is Inside. Agência: Buzzman. Direcção: Against all odds. França, Abril 2018.
Mundo Quino
Entre gerações
Conheces Paolo Conte? Um cantor italiano. Deve rondar os oitenta anos. Tu e eu não somos da mesma geração. A diferença que a idade faz! Tenho os bolsos cheios de anos e tu, cheios de vida. Tu não conheces o que eu conheço e eu não conheço o que tu conheces. E a sociologia continua a subestimar o efeito das gerações.
Paolo Conte é um cantor jazz inconfundível. Não é o Seal, nem o Pedro Abrunhosa, creio, contudo, que és capaz de gostar. Mais ou menos folhas mortas, as gerações comunicam e aprendem umas com as outras.
Via Con Me é uma canção de Paolo Conte de 1981. O vídeo resulta de uma montagem de sequências de três filmes com Fred Astaire e Ginger Rogers. Sparring Partner é uma canção de 1993. Via Com Me é a canção mais célebre de Paolo Conte. Não obstante, prefiro a segunda, de que contemplo duas versões: uma interpretada ao vivo na Arena di Verona, em 2005, a outra, uma gravação de estúdio, de 1993. São diferentes. O piano não engana.
Paolo Conte. Via Con Me. Álbum Paris Milonga. 1981.
Paolo Conte: Sparring Partner. Álbum Tournée. 1993. Ao vivo na Arena di Verona. 2005.
Paolo Conte: Sparring Partner. Álbum Tournée. 1993.
A próxima estação
A próxima estação pode chamar-se Alzheimer. Coloco artigos que ora valem pelo comentário, ora, como este, pelo anúncio. Em termos de narrativa e emoção, o anúncio La Misión, da Fundación Reina Sofía, bate-se com os orientais. E, pronto! Não preciso passear mais palavras.
Anunciante: Fundación Reina Sofía. Título: La Misión. Agência: Sra Rushmore. Direcção: Gabe Ibáñez, Maio 2017.



