Tag Archive | Genesis

Águas turvas

Órgão da Igreja do Mosteiro de Tibães

Órgão da Igreja do Mosteiro de Tibães.

“O esquecimento é um oceano gigantesco no qual navega um único navio, que é a memória” (Nothombe, Amélie, 2004, Hygiène de l’assassin, LGF)

Amanhã, 2 de Setembro, vou falar ao Mosteiro de Tibães (Biblioteca, 15:30). Um dos temas possíveis seria o esquecimento. Mas optei pelas formas de despertar a memória. Ocorreram-me, mesmo assim, vários apagões da memória. Por exemplo, os Genesis, uma banda de culto dos anos setenta que parece ter naufragado no “oceano gigantesco” do esquecimento. Na minha Internet, cada um tem a sua, só os encontro quando os procuro. O álbum The lamb lies down on  broadway estreou em 1974, ano em que a concorrência foi particularmente forte. Lembro uma canção óbvia: The Carpet Crawlers.

Genesis. The Carpet Crawlers. The lamb lies down on broadway. 1974.

Genesis

Peter Gabriel

Peter Gabriel

Lembra-se dos Genesis? Sofreram um apagão? Não sei, acontece. Para ouvir os Genesis, enfio os auscultadores e fecho os olhos. Para afastar o ruído. A solidão pode ser boa companheira. Nestas condições, não dá para saber se houve apagão. Os Genesis foram um caso à parte na história da música. O álbum The Lamb Lies Down on Broadway subiu, em 1974, o escadório das sete virtudes. E abriram caminho por entre os Rolling Stones, os Pink Floyd, os Deep Purple, os Moody Blues, os The Who, os Yes…

Nesta interpretação ao vivo de I Know What I Like, uma canção “fácil de entender”, os Genesis ainda incluíam Peter Gabriel, conhecido pelas suas bizarrias, sobretudo, no início das músicas. Receio que esta canção, contanto popular, não faça justiça aos Genesis. Acrescento The Carpet Crowlers (The Lamb Lies Down on Broadway, 1974), que também não lhes faz justiça.

Em 2010, apresentei a comunicação “A diabolização da experiência: O trágico e o grotesco nos vídeos musicais”, no Colóquio Internacional Do Sagrado na Arte: Música Sacra Contemporânea. Escolhi quatro vídeos: Air – How does it make you feel; Damien Rice – 9 crimes; Gotye – Hearts a mess; e, por último, Peter Gabriel – Mercy Street (So, 1986), uma obra subtilmente trágica.

Genesis. I know What I Like. Selling England By The Pound. 1973. Ao vivo, entre 1973 e 1975.

Genesis. The Carpet Crowlers. The Lamb Lies Down on Broadway. 1974.

Peter Gabriel. Mercy Street. So. 1986.

 

 

Genesis

Genesis. Selling England by the Pound. 1973.

Não oiço falar dos Genesis há bastante tempo. Têm ouvido? Uma das bandas mais marcantes da história do rock… A memória colectiva tem destas coisas: acontece-lhe ser mais cangalheira do que cavalheira. Confesso uma pequena inclinação pelo álbum Selling England by the Pound (1973). Segue a faixa “Dancing with the Moonlit Knight”.

Genesis. Dancing with de Moonlit Knight. Selling England by the pound. 1973.

No princípio era o verbo, agora é a roda

2015-bmw-i8-photos-59Quando um realizador do cinema dirige um anúncio publicitário a expectativa é elevada. Aconteceu com Martin Scorcese, David Lynch, Michel Gondry… Agora, é a vez de Gus van Sant. Para a BMW. São três anúncios com traça original num sector em que é difícil inovar.

Genesis: no princípio era o verbo. Nestes anúncios, o principal é o verbo. Textos semelhantes distintamente repetidos por pessoas distintas. No princípio, era o verbo: aconteceu o impossível, do nada se fez tudo. Deus era o arquitecto. Agora, é a vez do automóvel, faz-se o possível, ou seja, quase o impossível. Deus não é o arquitecto, mas… Estes anúncios são uma surpresa, mas uma surpresa no quadro de uma expectativa: ciclicamente, o segmento automóvel brinda-nos com o melhor da publicidade.

Marca: BMW i8. Título: Genesis. Agência: Serviceplan International. Direção: Gus van Sant. Alemanha, Maio 2014.

Marca: BMW i8. Título: Attitude. Agência: Serviceplan International. Direção: Gus van Sant. Alemanha, Maio 2014.

Marca: BMW i8. Título: Powerful Idea. Agência: Serviceplan International. Direção: Gus van Sant. Alemanha, Maio 2014.

Catequese pela imagem: a origem da vergonha

Esta iluminura dos irmãos Limbourg, A Queda e a Expulsão do Paraíso, de 1415-16, proporciona um excelente exemplo de catequese pela imagem. Ilustra, passo a passo, a mudança de estatuto da nudez, da inocência à vergonha, passando pelo pecado. Primeiro e segundo episódios: Eva colhe a maçã e entrega-a Adão, ambos despreocupadamente nus. Terceiro: Deus expulsa Adão e Eva do Paraíso, ambos cobrem os órgãos genitais com as mãos. Quarto: Adão e Eva saem do Paraíso tapando, agora, as vergonhas com folhas de figueira.

©Photo. R.M.N. / R.-G. OjŽdaIrmãos Limbourg. A Queda e a Expulsão do Paraíso. 1415-16 (Alta resolução).

Sobre o tema da nudez na religião e na arte:

“Não foi a modéstia da Contra-Reforma, mas o zelo dos pintores do Renascimento do Norte quem vulgarizou o encobrimento dos órgãos genitais com folhas de plantas. Para além dos ressuscitados no Juízo Final e dos condenados ao inferno, não há nudez mais incontornável do que a de Adão e Eva no paraíso. Pintores como Albrecht Dürer, Jan Gossaert, Hans Baldung, Jan van Scorel e Lucas Cranch respaldam-se na própria palavra bíblica para justificar a utilização das folhas virtuosas.

Mal Adão e Eva acabaram de comer o fruto da árvore que se erguia no meio do jardim celeste, “os seus olhos abriram-se; e, vendo que estavam nus, tomaram folhas de figueira, ligaram-nas e fizeram cinturas para si” (Genesis, 3. 7). As folhas de figueira são mencionadas no Genesis como forma de ocultar a nudez vergonhosa dos primeiros pecadores. Recorde-se que, no paraíso, antes do pecado, a nudez não era vergonhosa e dispensava, portanto, a folha de figueira: “O homem e a mulher estavam nus, e não se envergonhavam” (Genesis, 2. 25)“ (https://tendimag.com/?s=vestir+os+nus).