O tempo que resta
O desencanto com as novas tecnologias está a ganhar expressão. Muitos anúncios recorrem a encenações que, paradoxalmente, geram um efeito acrescido de realidade. São mais reais do que o real. O anúncio El Tiempo Que Nos Queda, da Ruavieja, dá-nos a ver um filme sob forma de reportagem. O desencanto com as novas tecnologias está a aumentar. Está em jogo a amizade e o amor. As novas tecnologias podem sobreaquecer-nos, mas é um sobreaquecimento que arrefece. Ao abraço virtual falta-lhe o corpo a corpo: o calor humano. O tempo não é infinito, não temos todo o tempo do mundo. O tempo que dedicamos a uma actividade falta a outras actividades.
“É uma contradição, não há lugar para dúvida. A gente afirma que os seus seres mais queridos são o mais importante. Mas a distribuição do seu tempo não mostra isso. Isto tem a ver com o modo como funciona o nosso cérebro. Estamos programados para evitar pensar no tempo que nos resta para viver. Temos, assim, a sensação de que sempre teremos a oportunidade de fazer as coisas que nos fazem felizes” (anúncio El Tiempo Que Nos Queda).
Marca: Ruavieja. Título: El Tiempo Que Nos Queda. Agência: Leo Burnett España. Direcção: Feliz Fernandez de Castro. Espanha, Novembro 2018.
Assenta bem uma dose de contradição. “As novas tecnologias podem sobreaquecer-nos, mas é um sobreaquecimento que arrefece. Ao abraço virtual falta-lhe o corpo a corpo: o calor humano”. Quem conheceu o desenraizamento sabe que o ser humano é um devorador de símbolos. Uma lembrança, um objecto, uma voz, uma fotografia, não é preciso muito para nos sobreaquecer. A imagem propicia calor humano. Os abraços virtuais multiplicam e aceleram o contacto entre pessoas distantes. É uma das vantagens da emigração actual. O corpo não é apenas carne.
Tese e antítese dá Um Dia de Domingo, de Gal Costa.
Music video by Gal Costa performing Um Dia De Domingo. (C) 2013 Universal Music Ltda.

