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Visão secreta

Andy Wahrol para a Ray-Ban

Andy Warhol para a Ray-Ban.

Há ocasiões em que os dois olhos não chegam. Por exemplo, hoje: Papa, Benfica, Eurovisão. Alguém pediu um três Fs? É muito ecrã para um distraído. Que fazer? Adquirir os óculos da Directv, (mais) um invento que vai revolucionar a nossa vida. O sonho torna-se realidade: vemos e não vemos, estamos e não estamos, participamos e não participamos. Nos contextos mais incríveis, apenas vemos futebol. O que a técnica pode fazer por nós!

Marca: Directv. Título: Sportglasses. Agência: Ogilvy Argentina. Direcção: Federico Russo. Argentina, Abril 2017.

Milagres esféricos

Canal + L'amnésique

Raras são as realidades que nos mobilizam tanto como o futebol. Mobiliza o corpo, a alma e o resto. Uma comunhão prodigiosa. A bola faz milagres, inspira os apóstolos e consagra as estrelas, como Pauleta. Nem sequer falta “a mãozinha de Deus”. Devolver a memória a um amnésico é a menor das proezas.

Marca: Canal +. Título: L’amnésique. Agência: BETC Paris. França, Fevereiro 2017.

José Mourinho

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José Mourinho é um herói do relvado. Neste anúncio, exorta as tropas com as sombras de Batman e as trombetas de Josué. A mascote, salsicha, não fala inglês. É a parte mais original do anúncio. Seguem as versões inglesa e espanhola.

Marca: Heineken. Título: The Speech. Agência: Publicis Italy. Direcção: Guy Ritchie. Itália, Setembro 2016.

A Cabeçada de Cristiano Ronaldo

Cristiano Ronaldo Nike

Em 1978, passei três meses na Jugoslávia. Em Tuzla, uma professora de francês pediu-me para falar da Revolução do 25 de Abril aos alunos de uma escola secundária. Compareceram centenas. Na escola, abundavam os campos de ténis e de basquetebol. Anos depois, os tenistas e os basquetebolistas da ex-Jugoslávia constavam entre os melhores do mundo. Em Portugal, sucede algo semelhante. Não há recanto que não acolha um “campo da bola”. Os clarões nocturnos parecem naves extraterrestres a aterrar. Os resultados ultrapassam os da Jugoslávia. Os melhores treinadores e jogadores de futebol do mundo são portugueses. Nós somos assim, não desperdiçamos oportunidades. Desde há algum tempo, estamos a investir em empreendedores. Não se fala noutra coisa. O sino de Wall Street que se apronte!

Marca: Nike Football. Título: Follow Your Dreams – The Switch. Agência: Wieden + Kennedy. Direcção: Ringan Ledwidge. Internacional, Junho 2016.

O deus da bola

Tecate noéDizem que o futebol é uma religião. Existem santuários, altares, peregrinos, fiéis e orações. Fazem-se promessas e aguardam-se milagres. Há o mal e o bem, exegetas e, até, “a mão de Deus”. Os anúncios da América Latina prestam-se a esta confusão entre o futebol e o sagrado (ver artigo Bendita Bola: https://tendimag.com/2013/12/08/bendita-bola/). O anúncio La Cancha de Noé, da cerveja mexicana Tecate, é mais um exemplo.

Norberto Orlando Echeverriá, Noé para os amigos, tem uma revelação divina: Diego Maradona (deus) diz-lhe o seguinte: “Al fútbol solo lo puede salvar el amor al fútbol. Construíte una cancha”. Noé assim fez: em vez da arca, constrói um campo de futebol. Acabada a obra, em madeira como a arca, e acolhidas as parelhas, o campo é inaugurado com um jogo em que Diego Maradona veste a camisola nº 10 e mete um golo, não com a mão, mas com a cabeça. Milagre!

Marca: Tecate. Título: La cancha de Noé. Agência: Nómades. Direcção: Rodrigo Garcia Saiz. México, Maio 2016.

O café, o tabaco e o futebol

Bilhete de Totobola, do dia 29 de Novembro de 1964.

Bilhete de Totobola, do dia 29 de Novembro de 1964.

TotobolaNo Tendências do Imaginário, é dia de descentramento. Dia de relativizar o nosso sociocentrismo e as nossas evidências. É um desafio lançado, há meio século, por Jean Piaget, um psicólogo recomendável aos sociólogos. A virtude vem de longe: nas Cartas Persas (1721), Montesquieu já enaltece o olhar do estrangeiro.

O anúncio da Gudang Garam é triplamente estranho. A marca pertence à Indonésia, país com o qual encerrámos “um capítulo de conflito”. É, embora discreto, um anúncio a uma marca de tabaco, fenómeno de que estamos, há anos, protegidos graças à febre proibicionista. Nem os cigarros de chocolate escaparam. Neste domínio, só palhinhas e caveiras!

“É proibido o fabrico e a comercialização de jogos, brinquedos, jogos de vídeo, alimentos ou guloseimas com a forma de produtos do tabaco, ou com logótipos de marcas de tabaco” (Lei nº 37/2007, de 14 de Agosto, artigo 17º, ponto 3).

O anúncio Gudang Garam é um hino à pátria! O anúncio dá a impressão de perseguir o efeito desejado: associar a marca à nação. O que lembra alguns casos portugueses: Português Suave, que ainda existe, e Lusos, que se perdeu na voragem do mercado. O anúncio aos cigarros Lusos e ao café Sical num boletim do Totobola traça um triângulo expressivo do estilo de vida dos anos sessenta: café, tabaco e futebol: “Um prazer… Para quem sabe o que quer!” Recordar, ou seja, entregar-se à “regressão histórica” (Max Weber), é uma forma de descentramento. Seria compensador se este bloque lograsse aproximar-se de uma rampa de descentramento.

Marca: Gudang Garam. Título: The First Day Spirit. Agência: Dentsu Strat Jakarta. Direcção: Abimael Ghandi. Indonésia, Agosto 2015.

Camaradas da bola. Sociologia sem palavras 19.

Mordillo. Futebol.

Mordillo. Futebol.

“Tal como a conhecemos, a identificação clubística assenta em praticamente tudo menos em bases classistas. A maior parte das equipas denota filiações de índole territorial ou organizacional, tais como cidades (Porto), bairros (Benfica), países (seleções), empresas (o Sochaux, ligado à Peugeot; em tempos, a C.U.F.) ou associações (Académica). Nenhum destes referentes alude a divisões de classes. Pelo contrário, diluem-nas. Agregam os residentes ou os membros das organizações em clubes, independentemente da sua pertença de classe. Nesta linha, o futebol não só se rege por lógicas não classistas, como pode até contribuir para esbater as fronteiras de classe lançando pontes de convívio, comunhão e solidariedade entre os adeptos. Vendo bem, todos torcem e gritam, em uníssono, pelos mesmos emblemas e bandeiras. Um episódio do filme O Leão da Estrela (1947) ilustra a preceito esta capacidade integradora do futebol. O namorado da empregada queixosa dirige-se a casa do patrão para pedir satisfações. Encontram-se na sala de estar e a situação azeda, mas, já em vias de facto, o patrão descobre que o “antagonista” ostenta o emblema do leão na lapela. O que se configurava como um conflito laboral termina numa confraternização leonina, prelúdio de uma cooperação e de uma amizade duradouras. O futebol desempenha aqui um papel político de cimento de identidades para além das divisões de classe. Ergue-se, portanto, como um fator de pacificação social. O futebol contribui, deste modo, para unir grupos e pessoas que outras realidades tendem a separar” (Albertino Gonçalves, O desporto do nosso contentamento, Boletim Cultural de Melgaço, nº1, 2002, pp. 127-161; revisto).

Mais palavras para quê? O melhor é visionar o episódio do filme.

Sociologia sem palavras 19. Futebol e estratificação social. Arthur Duarte. O Leão da Estrela. 1947. Excerto.

Trégua

Sainsbury's

Este anúncio da Sainsbury’s respira espírito natalício. Ao Halloween segue o Natal. Uma trégua ocorre entre as tropas inglesas e alemãs nas trincheiras da primeira guerra mundial. Três tópicos sobressaem neste belo anúncio: a canção (Silent Night), o futebol e o chocolate. O coro é contagiante: exalta e envolve à distância. O futebol é dos poucos rituais colectivos capazes de aproximar hostes inimigas. O chocolate, associado à energia, era consumido pelos soldados. Era também um alimento incontornável, nos anos 1960, dos emigrantes portugueses clandestinos rumo a França. Este anúncio lembra o filme Cavalo de Guerra, de Steven Spielberg (2011). Ambos ficcionam uma trégua durante uma guerra particularmente hedionda e mortífera. A memória da primeira guerra mundial pode não ser sagrada, mas, nem por isso, é menos importante: foi um momento de revelação do ser humano: a imagem do Homem nunca mais foi a mesma. Parte das vendas natalícias dos chocolates Sainsbury’s vai para a Royal British Legion. Este espírito de partilha respeita uma vetusta tradição. Há séculos que o capital se mostra benemérito. Hoje, não me apetece criticar. Nem sequer o aproveitamento comercial da Primeira Grande Guerra. Outros o fazem: Sainsbury’s 1914 Christmas Truce ad exploits memory of Great War, The Telegraph, 13 Nov. 2014.

Marca: Sainsbury’s. Título: The 1914 Christmas Truce. Agência: AMV BBDO. Direcção: Ringan Ledwidge. UK, Novembro 2014.

Violência e desporto

Canon Come and see“Um dia, hei-de produzir uma curta-metragem sobre dois amigos, os maiores amigos, que começam a lutar a brincar e acabam a lutar até à morte” (AG).

O ser humano não é imune à violência. E não há vacinas. Tem que lidar com ela. Se o souber fazer, tanto melhor. E quando alguém garante que quer acabar com a violência, isso significa que pretende, de facto, deter, segundo a expressão de Max Weber, o monopólio da violência legítima.

“ É preciso não esquecer e respeitar a violência que temos. As pequenas violências nos salvam das grandes. Quem sabe, se não comêssemos os bichos, comeríamos gente com o seu sangue.” (Clarice Lispector, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, 1969)

O confronto desportivo violento retratado no magnífico anúncio Come and See, da Canon, é uma réplica do “calcio” medieval, uma prática disseminada em vários países da Europa. Em Inglaterra tinha várias designações: football, camp ball, hurling

“Nestes jogos, a bola era carregada, lançada e golpeada com pauladas e chutes. As partidas eram jogadas da mesma forma pelas ruas da cidade e nos campos. O número de jogadores variava, não estava formalmente restringido, e algumas vezes superava os milhares. Não havia igualdade no número de participantes de cada grupo. As regras eram oral e localmente definidas – em oposição às escritas, padronizadas e sancionadas por um órgão de governo, central” (Dunning, Eric, citado em Boschilia, Bruno, Futebol e Violência em Campo, dissertação de mestrado em Educação Física, Universidade Federal do Paramá, Curitiba, 2008, pp. 65-66).

“Durante séculos este jogo foi em muitas regiões do país o passatempo favorito das pessoas, uma forma de se divertirem com uma bola de futebol, quer se verificassem ou não ossos partidos e narizes ensanguentados, embora para as autoridades isso fosse considerado um comportamento anti-social (…) Algumas pessoas eram multadas ou enviadas para a prisão por participarem nestes jogos desenfreados. Talvez o costume tivesse desaparecido aqui ou acolá durante um certo tempo. Se assim era, continuava noutros lugares. O próprio jogo excitante não morrera” (Elias, Norbert & Dunning, Eric, A busca da excitação, Lisboa, Difel, 1992, p. 260).

Marca: Canon. Título: Come and See. Gladiatorfootball. Agência: JWT. Direção: Jonathan Glazer. UK, Setembro 2014.

Apetece-me terminar com uma provocação. Quando quero alfinetar os colegas ou os alunos, confidencio que tenho aprendido mais sociologia com alguns romances do que com a maioria dos livros da especialidade que me foi dado ler. E agravo a situação, dando alguns exemplos: a Educação Sentimental (1869), de Gustave Flaubert; Em busca do tempo perdido (1913-1927), de Marcel Proust; A Montanha Mágica (1924), de Thomas Mann… Pois, agora, encontrei uma nova provocação. Sinto-me mais induzido a sondar os fenómenos sociais graças aos anúncios publicitários do que graças aos artigos da especialidade, com ou sem factor de impacto. Dir-me-ão que o que conta não é a embalagem mas a cabeça que a molda e que a preenche. Também me parece.

Homens imaturos

Líbero

Em Espanha, ainda não deformaram todos os espelhos. Os defeitos são defeitos. Sem cortes, nem floreados. Defeitos todos temos, aunque es más cosa de hombres!

O texto deste anúncio é uma delícia. Dá vontade de o repetir palavra a palavra. Sem acrescentar nenhuma. Este anúncio tem fibra de Cervantes. Não tem fibra nem de Camões nem de Pessoa. Se este anúncio fosse português, sentia-me menos sebastiânico. Menos curador de heróis cismados.

Marca: Libero. Título: Inmaduros. Agência: Lola Madrid. Espanha, 2014.