Tag Archive | François Rabelais

A ruína da alma

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“A ciência sem consciência é apenas ruína da alma” (François Rabelais, Carta de Gargântua a Pantagruel, Pantagruel, 1532).

A avaliação e o financiamento da ciência adoptam a linguagem das dimensões, dos indicadores e dos índices. Assombra-me a dúvida de que da proposta metodológica de Paul F. Lazarsfeld (Boudon, Raymon & Lazarsfeld, Paul, 1965. Le vocabulaire des sciences sociales. Des concepts aux indices, Paris, Mouton) tenhamos sido contemplados com a majestosa parte anal. Molda, retalha, conta e apura, frisando o mais absurdo dos formalismos! Segue uma reacção em cadeia “científica”, segundo a Google.

Marca: Google. Título: A Google Science Fair Experiment Extended. Agência: Syyn Labs. Direcção: Jonathan Zames. USA, 2011.

O Mundo na Barriga

Leila Searle (2)

Leila Searle. Your Whole World Now.

Ana Rita Ferraz é actriz e professora na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Ambos gostamos do grotesco. Tem uma paciência enorme para com os meus silêncios. Está a organizar um encontro sobre o riso na Universidade. No seu mural (https://www.facebook.com/anarita.ferraz.33), chovem preciosidades. Por exemplo, a fotografia de Leila Searle e a citação de François Rabelais. Acrescento quatro iluminuras com testículos surreais extraídas do Livro de Horas de Jeanne la Folle (1486-1506), quase contemporâneo de François Rabelais (1494-1553).

“Perdida a cabeça, perece apenas a pessoa; perdidos os colhões, perecerá toda a natureza humana” (François Rabelais, Le Tiers Livre, 1546).

Empreendedorismo anal

Medical Journal in German, c. XV century.

Medical Journal in German, c. XV century.

A escatologia ocupa-se dos últimos dias. Mas a escatologia comporta outros sentidos. Por exemplo, “ciência” dos excrementos, também conhecida por coprologia. O anúncio This Unicorn Changed the Way I Poop, da Squatty Potty, usa e abusa da escatologia. Três minutos de excrementos incontinentes. Uma exorbitância grotesca em embalagem feérica. Um unicórnio não para de evacuar sorvetes ostensivamente apetitosos! Em termos de contos de fadas, as botas do gato e os sapatos da Cinderela são substituídos por um suplemento de sanita: o Squatty Potty toilet stool. Conseguem imaginar crianças a lamber sorvetes de excremento de unicórnio e a limpar a boca com papel higiénico? Não? Imaginação curta! Este anúncio é mais um caso de shrekização do mundo. Viral, já ultrapassou, no site da marca, 2 milhões de visualizações.

Marca: Squatty Potty. Título:This Unicorn Changed the Way I Poop. Direcção: Daniel Harmon & Dave Vance. Estados Unidos, Outubro 2015.

Esta arte de bem defecar só tem paralelo nas experiências de Gargântua sobre “o melhor meio de limpar o cú”. Analidade por analidade, segue um excerto do capítulo XIII do livro Gargântua (François Rabelais,1534):

“-Eu, respondeu Gargântua, por longa e curiosa experiência, inventei um meio de me limpar o cu, o mais senhorial, o mais excelente, o mais expediente que jamais foi visto. -Qual? disse Grandgousier. -Vou contar como foi, disse Gargântua. Limpei-me uma vez com uma meia máscara de veludo de uma moça, e achei bom, pois a maciez de sua seda me causou uma voluptuosidade bem grande no traseiro. Uma outra vez com um véu, e foi a mesma coisa. (…) Com um gorro de pajem, bem emplumado à suíça. Depois, andando atrás de uma moita, encontrei uma marta e me limpei com ela, mas as suas unhas me feriram todo o períneo. Logo que me curei, no dia seguinte, limpei-me com as luvas de minha mãe, bem perfumadas de benjoim. Depois me limpei com feno, aneto, manjerona, rosas, folhas de abóbora, de couve, de beterraba, de parreira, de alface e de espinafre. (…) Depois, limpei-me com os lençóis, as cobertas, a cortina, uma almofada, um tapete, um outro tapete verde, uma toalha de mesa, um guardanapo, um lenço e um penhoar. Em tudo achei prazer, mais do que em coçar uma sarna. (…) Limpei-me com feno, palha, crina, lã, papel, mas ‘sempre os culhões arranha, com certeza/ quem com papel do cu faz a limpeza’. (…) Depois, disse Gargântua, eu me limpei com um gorro, um chinelo, uma bolsa, um cesto, mas que limpa-cu desagradável! Depois com um chapéu. Mas vê que os chapéus são uns lisos, outros peludos, outros aveludados, outros de tafetá, outros de cetim. O melhor de todos é o peludo, pois faz boa absorção da matéria fecal. Depois, eu me limpei com uma galinha, um galo, um frango, um couro de boi, uma lebre, um pombo, um alcatraz, uma pasta de advogado, uma touca.

Mas, concluindo, digo e sustento que não há limpa-cu igual a um ganso novinho, bem emplumado, contanto que se mantenha a cabeça dele entre as pernas. E pode acreditar, palavra de honra. Pois a gente sente no olho do cu uma volúpia mirífica, tanto pela maciez das penas como pelo calor temperado do ganso, a qual é facilmente comunicada ao cano de cagação e a outros intestinos, até chegar à região do coração e do cérebro. E não penses que a beatitude dos heróis e semideuses, que estão nos Campos Elísios, esteja no abrótano, na ambrosia ou no néctar, como dizem estas velhas. Está, segundo penso, em limparem o cu com um ganso novo. Esta é a opinião de Mestre Jehan da Escócia.”
(http://puragoiaba.blogspot.pt/2005/08/humor-anal-e-o-melhor-do-carnaval.html0)

O Perfume Filosofal

A pedra filosofal liquefaz-se e desfaz-se no ar. Descobriu-se uma fragrância que “transforma um rapaz em homem, as raparigas em namoradas,  e as mães em criaturas aflitas”. O nome do prodígio é Old Spice, o perfume do delírio. As criaturas do anúncio são tão estranhas que lembram os infernos do Alto Renascimento. A continuar deste jeito, a Old Spice tornar-se-á numa espécie de Hieronymus Bosch da publicidade.

Marca: Old Spice. Título: Mom Song: 60. USA, Janeiro 2014.

Invocar os infernos e Hieronymus Bosch é um exagero. Certo é que muitos anúncios de perfumes exalam tentação e pecado. Por outro lado, se há  infernos dantescos, também há, segundo outros testemunhos, infernos aprazíveis. Se Deus recompensa os justos, por que haveria Lúcifer de castigar os pecadores? Atente-se nesta episódio do livro Pantagruel, de François Rabelais (1532).

Na refrega contra os gigantes, Epistémão, amigo de Pantagruel, foi decapitado. Panurgo consegue, porém, “chamá-lo à vida”:

“De repente, Epistémão começou a respirar, depois a abrir os olhos, depois a bocejar, depois a espirrar, e por fim deu um grande peido da sua reserva (…) Desatou então a falar e contou que tinha visto os diabos, falara sem cerimónias com Lúcifer, fora muito bem tratado no inferno e nos Campos Elísios, a todos garantindo que os diabos fazem boa companhia. Quanto às almas danadas, explicou que muito aborrecido se sentia por Panurgo ter sido tão rápido a chamá-lo à vida.
– Porque olhá-las (disse ele) é um singular entretenimento.
– Então porquê? – quis Pantagruel saber.
– Não as tratam tão mal como pensais (disse Epistémão), embora o seu estado se altere de estranha forma. Sim, porque vi Alexandre o Grande remendar calças velhas para ganhar a sua pobre vida.
Xerxes apregoar mostarda
Rómulo era vendedor de sal
Numa fazia pregos…”

(François Rabelais, Pantagruel, Lisboa, Frenesi, 2006, p. 168-170).

 Segue-se uma centena de nomes de figuras históricas (François Rabelais é um caso extremo da vertigem das listas de que se ocupa Umberto Eco). Em suma, o inferno trata bem os condenados, “embora lhes altere o seu estado de estranha forma”. Opera uma inversão social: Quem era poderoso na terra, é humilde no inferno. Assim o ilustra a gravura de Gustave Doré.

Gustave Doré. Ilustração do Pantagruel, de François Rabelais

Gustave Doré: “Não as tratam tão mal como pensais (disse Epistémão), embora o seu estado se altere de estranha forma”. Oeuvres de François Rabelais, Paris, J. Bry Ainé Libraire Éditeur, 1854, p. 137.

Criaturas pantagruélicas 3

Tal como aconteceu com os Caprichos de Francisco Goya, Salvador Dali retocou 25 dos 120 desenhos de François Desprez. Se estes já eram bizarros e oníricos, Salvador Dali surrealizou-os à moda do séc. XX. E se já eram ousados do ponto de vista sexual, mais ousados ficaram. Os Songes Drolatiques de Desprez e os Caprichos de Goya são extraordinários. Pois Dali passou por ali. E deixou a sua marca inconfundível.