Instintos

Volvidos 50 anos, continuo convencido que nem a democracia é instintiva nem as ditaduras contranatura. Os cravos, frágeis, querem-se cuidados, como a rosa do Principezinho. Recoloco 4 canções, antigas, sem ilusões: Cantilena, de Francisco Fanhais (1969); Os Eunucos, de José Afonso (1970); Que Força É Essa?, de Sérgio Godinho (1972); e Pequenos Deuses Caseiros, de Manuel Freire (1973).
Celeste Martins Caeiro a distribuir cravos
Convencer ou obrigar


A tecnocracia aspira a racionalizar, senão otimizar, através da ciência e da técnica, a relação entre, por um lado, os recursos e os meios disponíveis e, por outro, os fins assumidos. Pode obter algum sucesso quando estes são materiais. Tende, porém, a encalhar quando são iminentemente pessoais e sociais, quando não é apenas questão de mobilizar recursos e valores “objetivos” mas convicções e vontades. Confrontados com esta dificuldade, os tecnocratas democratas tendem a transformar-se em tecnocratas autocratas. Convencidos, não convencem, obrigam.
História de um melro que morreu por ser feliz

Um melro costuma fazer ninho no quintal. Atarefado, tem-se saído bem com os gatos. Pior destino teve “o melro” do Guerra Junqueiro, vítima da vingança do Velho Padre Cura, num extenso conto em verso que o meu avô recitava de cor. Segue a digitalização do poema “O Melro” a partir da segunda edição ilustrada do livro A Velhice do Padre Eterno (1ª edição: 1885). Segue o respetivo pdf,
Quem fala em melros, pode falar em rouxinóis. Porque a opressão e a maldade não têm pouso exclusivo. Ao melro raptaram-lhe os filhos; ao rouxinol da Cantilena de Francisco Fanhais cortaram quase tudo.
Com imagens pode dizer-se muito. Com poucas imagens pode, por vezes, dizer-se ainda mais. Na curta-metragem dos bauhouse, sopra-se no medo e na esperança até que explodem como tiros e bombas. Porque as nossas asas são tão frágeis como as dos pássaros.
Crónica de um País Depenado
Depois de tanto prenúncio e tanto sofisma, Portugal acorda trágico. Não é uma mera reincidência da tragédia do fado ou da tragédia sebastiânica, trata-se de uma tragédia da acção, que nos faz e desfaz todos os dias. Não há, agora, guitarra ou nevoeiro que nos valha. Nem Castela ou Inglaterra que nos indigne. Cumpre-nos escolher sem chaves, apostar convictos numa travessia incerta. Não somos heróis, nem cretinos, transportamos apenas, à imagem do Zé Povinho, um peso que nos verga sem promessa de alívio. Mas, está escrito, a nossa alma não é pequena. Portugal é, sem dúvida, um país depenado, onde em cada esquina encontramos um Pedro Só (ver trailer e canção) dominado por “pequenos deuses caseiros”. Mesmo assim, indo além da “Cantilena” de Francisco Fanhais, conseguiremos cantar sem bico e voar sem asas, porque somos herdeiros da noite!
Trailer do filme “Pedro Só”, de Alfredo Tropa (1972); canção homónima de Manuel Freire.
Francisco Fanhais, Cantilena, 1969.
