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Alívio

Prunelax. Buried. 2021.

Os anúncios Casket (caixão) e Buried (sepultado), para o laxativo Prunelax, aproximam-se do cúmulo do grotesco. Um disgusto, duas piadas curtas a tresandar mau gosto. O tema, a disenteria, propicia-se. Num escasso minuto (2X30s), convocam os principais tópicos do rebaixamento, do “baixo material e corporal”:

Lugares rasteiros e de absorção – a terra, o túmulo, o caixão, o corpo, o nariz, o ventre e os pés;

Protagonistas – o cadáver, a velha, a coveira, o cego (defeituoso) e o animal (cão);

Fenómenos e práticas – diarreia, flatulência, pestilência, lambidela, exumação, queda, susto, pavor, alívio e riso.

Um dos traços mais caraterísticos do grotesco consiste no cotejo dos opostos. Neste caso, o enquadramento funciona como contraste: remete para símbolos valorizados pelo imaginário coletivo: a igreja, o sagrado religioso; a floresta, o santuário natural. Como diz o provérbio: “No melhor pano cai a nódoa”.

Obscuros, macabros e quase demoníacos, estes dois anúncios da Prunelax sugerem uma mudança na estratégia de marketing e publicidade. Uma inversão na imagem da marca. “Prunelax relaunches using ‘dark humour’ in disruptive new campaign” (Campaign Brief: https://campaignbrief.com/prunelax-relaunches-using-dark-humour-in-disruptive-new-campaign-via-five-by-five-global/ ). Meses antes, os anúncios evidenciavam-se leves, luminosos e quase angélicos (ver vídeos 3 e 4). Casket e Buried foram publicados nos meses de agosto e setembro; Say Goodnight To Constipation e Overnight Relief , em março e junho. A alusão a uma viragem estratégica resume-se a uma hipótese relativamente fundada. Carece, contudo, de mais informação. Existem leituras alternativas plausíveis. Por exemplo, os primeiros anúncios são de origem australiana, os segundos norte-americana, o que não é inócuo. As marcas podem adotar políticas de publicidade distintas consoante os momentos mas também as filiais e as agências. Convém desconfiar das causalidades únicas e lineares.

Marca: Prunelax. Título: Casket. Agência: Five by Five Global. Direção: Armand de Saint-Salvy. Austrália, agosto 2021.
Marca: Prunelax. Título: Buried. Agência: Five by Five Global. Direção: Armand de Saint-Salvy. Austrália, setembro 2021.
Marca: Prunelax. Título: Say Goodnight To Constipation (?). Estados-Unidos, junho 2021.
Título: Overnight Relief. Estados-Unidos, agosto 2021.

Ar do tempo

Vaca leiteira

L’air du temps é o nome de um perfume da Nina Ricci. L’air du temps pode ser traduzido de várias maneiras. Por exemplo, “a quintessência do momento”. O ar do tempo, a quintessência do momento, não deixa de lembrar a dramática flatulência das vacas. Preocupa-me. Não seria possível inventar umas fraldas com filtro químico para bovinos? Há anos que se conhece o contributo das vacas para a emissão de Metano para a atmosfera. A humanidade nunca foi fácil!

“Estudo norte-americano publicado (…) na revista científica “Carbon Balance and Management”, (…) revela que, em 2011, as emissões de Metano foram 11% superiores aos números relativos a 2006” (https://www.jn.pt/mundo/vacas-sao-mais-responsaveis-pelo-buraco-do-ozono-do-que-se-pensava-8809300.html).

“Está a pensar trocar o seu automóvel por um carro de bois para ajudar o ambiente? Esqueça. As vacas são das maiores responsáveis por emissões de gases poluentes para a atmosfera. Ao todo, o sector da criação de gado é o culpado por de 18% das emissões, bem mais do que o dos transportes, responsável por “apenas” 13,5% desta ameaça ao ambiente” (https://www.dn.pt/ciencia/biosfera/vacas-e-ovelhas-poluem-mais-do-que-os-carros-1262025.html.

“Não se deve brincar com coisas sérias”! Mas há coisas sérias que são risíveis. Aliás, um bom humorista só ri de coisas sérias. As outras não precisam de grande sentido de humor.

Marca: Pampers. Título: Eugh. Direcção: Ian Sciacaluga. Reino Unido, 2 000.

Os ventos de baixo e as termas da frente

merediths-miracles-colon-cancer-foundation-keep-farts-funny-600-72331A nossa sociedade mantém, pesem os auto retratos sem preconceitos, alguns tabus ou, com eufemismo, algumas inconveniências. Incomodamo-nos pudica e naturalmente. Muitos tabus remetem para os órgãos, as funções e os usos do corpo. Mas os tabus, mesmo entranhados, também se abatem. Quando valores mais altos se levantam. A saúde, a qualidade de vida e o adiamento da morte constituem um ramalhete de valores supremos, quase incontestáveis, na nossa sociedade.

O desconforto gerado por estes anúncios justifica-se pelos objectivos visados. Keep Farts Funny elenca uma taxonomia ilustrada dos “ventos de baixo” (Erasmo, De civilitate morum puerilium, 1530), suscitando um riso ambivalente, misto de constrangimento, espanto e transgressão.

Semaine da l’Incontinence 2016 aborda, com humor, as termas da frente (expressão inspirada em François Rabelais). Compara, com recurso a estatísticas, a incontinência com anomalias de igual incidência, concluindo que a incontinência não é um caso à parte, é curável e não deve ser encarada como um estigma.

Para terminar, um excerto do comentário da Culturepub (França):

“A ceux qui s’étonneront du caractère très léger (ou lourd, c’est selon) de cette communication, sachez qu’en matière de maladies graves, miser sur l’humour permet souvent de dédramatiser pour mieux sensibiliser. En revanche, pour les appels aux dons, mieux vaut faire pleurer dans les chaumières” (http://www.culturepub.fr/un-guide-du-pet-pour-lutter-contre-le-cancer/).

Talvez não convença, mas dá que pensar: o mais avisado é sensibilizar com o riso e pedir com lágrimas.

Anunciante: Meredth’s Miracles Colon Cancer Foundation. Título: Keep Farts Funny. Agência: FCB Chicago. Direcção: Ben Flaherty. USA, Março 2016.

Anunciante: AFU – Association Française d’Urologie. Título: Semaine de la Continence 2016. França, Março 2016.