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Homens e Bestas 4. Charles Le Brun

Giambattista della Porta, Ticiano, Rubens, do quarteto anunciado, só falta Charles Le Brun (1619-1690). Foi primeiro pintor do rei Luís XIV e ocupou-se da decoração da Galeria dos Espelhos do Palácio de Versalhes. Nos seus desenhos, os seres humanos resultam abestalhados (ver galeria, figuras 1 a 23). No que agora nos diz respeito,  herdeiros da modernidade, da racionalidade e da ciência positiva, confusões entre homens e animais só se for à luz de Charles Darwin. Não é verdade? Não, não é! No terceiro milénio, continuamos às voltas com os lobisomens (Figuras 24 e 25), com os vampiros (figuras 25 e 26), com os homens aranha (Figura 27), as mulheres gato e outras bestialidades do género (Figura 28). Se considerarmos as máquinas como as bestas do nosso tempo, ainda temos os ciborgues e os biomecanóides. Não esquecendo os mangás nem os animes, onde, à semelhança dos apóstolos evangelistas (águia, São João; touro, São Lucas; leão, São Marcos; e anjo, São Mateus), os heróis estão associados a animais (Naruto, raposa; Son Goku, macaco; figuras 29 e 30).

Homens e Bestas 2

No que respeita à fisiognomonia, Giambattista della Porta não foi um caso isolado. O imaginário da Idade Média destacou-se pela proximidade, híbrida ou não, entre seres humanos e animais. Gostaria de mencionar três grandes vultos da história da arte que também abordaram o tema: Ticiano Vecellio, Peter Paul Rubens e Charles Le Brun.

Ticiano. Alegoria da prudência. C. 1565-1570

Comecemos, neste artigo, com Ticiano Vecellio. Falecido em 1576, pintou entre 1565 e 1570, alguns anos antes do tratado de Giambattista della Porta, a Alegoria da Prudência. O quadro comporta dois níveis. Em cima, três rostos humanos, dispostos segundo as idades da vida: um idoso, à esquerda, de perfil na sombra; um adulto, ao centro, de face; e um jovem, à direita, de perfil, algo ofuscado pela luz. Há quem sustente, incluindo Erwin Panofsky, que os retratados são, da esquerda para a direita, o próprio Ticiano, seu filho Orazio e o seu jovem primo Marco. Em baixo, figuram três cabeças de animais alinhadas do mesmo modo que os três humanos: o lobo corresponde ao idoso, o leão ocupa o centro, a direita sobra para o cão. Para além destes dois reinos ou ordens, o quadro encerra mais duas dimensões. Em primeiro lugar, o tempo: passamos, gradualmente, do ancião para o jovem, do passado para o futuro. Em segundo lugar, a dimensão comportamental ou “psicológica”. A “prudência” assenta, da esquerda para a direita, em três pilares: a memória, a inteligência e a previdência. O lobo recorda ciosamente as suas presas, e o ancião as proezas. As figuras centrais, incluindo o leão, concentram-se, rápidas e vorazes, no imediato. Estão no vértice da ação. À direita, o jovem e o cão aguardam o futuro, afagam esperanças. O seguinte mote acompanha o quadro: “Com a experiência do passado, o presente age com prudência, para não comprometer a ação futura”.

Em próximo artigo, contemplaremos os outros dois “vultos da história da arte” anunciados.

Homens e Bestas

A associação entre as morfologias humana e animal remonta, pelo menos, à Antiguidade. Às respetivas afinidades corresponderiam semelhanças ao nível das tendências de carácter. Por exemplo, nariz em forma de bico de corvo significaria descaramento; de galo, luxúria; e de águia, generosidade. Por sua vez, olhos de carneiro revelam depravação; os de cervo, espiritualidade; e os de burro, loucura. Pelos vistos, Aristóteles navegou por estas águas, particularmente férteis durante a Idade Média, período em que as fronteiras entre reinos, incluindo o humano e o animal, se esbatem e o hibridismo se propaga na decoração das igrejas, nos romances, nos livros de horas e, a partir do século XV, nos grotescos. Giambattista della Porta (1535-1615), sábio italiano renascentista associado, por muitos, à história da câmara escura, dedicou-se, entre várias atividades, à fisiognomonia. Em 1586, publicou De humana physiognomonia, que comporta quatro livros. Provém de esta obra a maior parte das imagens que seguem. Pode consultar-se e “descargar” a edição de 1644 (Della fisionomia dell’huomo), agora com seis livros, no seguinte endereço da Bibliothèque nationale de France: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k51316f.r=Giambattista+della+Porta.langPT. Sobre estas “fisiognomonias”, a principal referência da História da Arte parece-nos ser Baltrusaitis, Jurgis (1995), Les Perspectives dépravées. Tome 1: Aberrations, Paris, Flammarion. Do ponto de vista da sociologia, pode consultar-se Dumont, Martine (1984), “Le succès mondain d’une fausse science: la physiognomonie de Johann Kaspar Lavater”, Actes de la Recherche en Sciences Sociales, nº54, pp. 2-30.