O Anjo da Conexão e o Velho do Restelo
Acredita em anjos? Então este artigo é para si.

Não é por um comportamento se manifestar “ferido de interesse” que está fadado a prejudicar o bem comum (Bernard Mandeville, A Fábula das Abelhas: ou, Vícios privados, benefícios públicos, 1714). Inspirando-me em Pierre Ansart (Idéologies, Conflits et Pouvoir, 1977), também não é por uma ideia ser interessada que resulta necessariamente falsa. Como corolário, por muito estranho que pareça, não é a generosidade de um gesto ou de uma ideia que garantem a sua verdade ou bondade. Pode não ser um erro confiar em quem é movido por interesses, nem tão pouco duvidar de quem nos quer bem. Vem este arrazoado a propósito da publicidade, domínio que os missionários da beatitude tendem a associar à quintessência do mal, à perversão ideológica no purgatório da mercadoria. Acresce que não existe instância que detenha o monopólio do acesso à sabedoria. Nem sequer a ciência ou a religião. Aprende-se como e com quem se aprende, independentemente da forma e do conteúdo, da embalagem e do miolo. Daqui a afirmar que tenho vindo a adquirir mais conhecimento com a publicidade do que com a ciência quase vai um passo. Confesso, porém, que, nos últimos tempos, tenho consumido mais anúncios publicitários do que artigos científicos com impacto. Em termos de conhecimento, um anúncio publicitário costuma valer menos pelo que comporta e mais pelo que suscita, pelo que induz a sentir e a pensar. Trata-se, sobretudo, de uma interpelação que nos cumpre assimilar, no sentido piagetiano do termo. Um anúncio não se limita a alcançar-nos, desafia-nos, mobiliza o nosso “acervo de conhecimentos disponíveis” (Alfred Schütz, Collected Papers I: The Problem of Social Reality, 1962). Munido com estas barbaridades, afigura-se-me que o anúncio indiano Joy of Homecoming, da Vivo, constitui uma excelente ilustração das potencialidades da publicidade.
Um idoso vive, just him and his loneliness, numa mansão, em aparente desafogo económico. Os seus três filhos residem longe, onde têm o seu trabalho e os seus compromissos. Falta-lhes meios e tempo, até para prolongar os breves momentos de videoconferência. Para mitigar a solidão, o pai optou por alugar um quarto. Apenas um, o reservado aos hóspedes. Nos outros, intactos, dorme a memória dos filhos, sua energia vital. A ação inicia com a chegada de um novo inquilino. A música, fundamental, canta o destino; e o jovem inquilino veste o papel de um anjo, que recorda As Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders. O jovem faz companhia ao “tio adotivo”, anima-o e tira-lhe fotografias, que envia aos filhos. Inesperadamente, o “sobrinho” parte antes do termo: sente saudades da mãe. Ouve-se a campainha. Será, de novo, a solidão? Não, a solidão não bate assim. São s três filhos que, dispersos pelo mundo, se juntam, como por milagre, para o Diwali, festividade indiana, homóloga do Natal, que celebra a reunião e a vitória do bem sobre o mal: “invoca o retorno da deusa Rama para a cidade de Ayodhya, após um longo período de ausência” e “festeja a vitória do Deus Krishna sobre as forças do mal”. O anúncio termina sem se saber se o “anjo da conexão” foi enviado por Deus ou pela Vivo. Talvez o milagre, um pouco mais prosaico, reverta para o “poder das imagens” em que a Vivo acredita.

O anúncio indiano Joy of Homecoming, apesar da distância geográfica e cultural, assenta-nos como um espelho. Sucede o mesmo em Portugal, País que se tornou tão pequenino num mundo tão vasto. O princípio dos vasos comunicantes funciona na sociedade ao contrário: os fluxos passam do mais pequeno para o maior até ao desequilíbrio final. As migrações já não são o que eram: para além das famílias mais pobres, recrutam entre as mais abastadas e as mais diplomadas. Distinguem-se, contudo, das antigas deslocações dos nobres e dos burgueses. Não as move o luxo, mas a necessidade. A figura do pai remediado separado dos filhos expande-se e multiplica-se com um vírus. Nestes tempos em que o distante se aproxima e o movimento se acelera, a alienação, a separação, pode ser brutal. Não por falta de amor ou de desejo, mas por falta de… disponibilidade! As nossas sociedades estão entre as que mais comunicam e menos comungam. São as mais ricas da História, mas também as mais pobres da humanidade. Sociedades obcecadas pelo crescimento, criam mais necessidades do que possibilidades. É essa a riqueza, é essa a penúria. Como escreve o antropólogo Marshall Sahlins: “idade de pedra é a idade da abundância”; “a sociedade moderna é a sociedade da insatisfação” (Stone Age Economics, 1974). Os pigmeus perfilhavam uma sabedoria que nos é estranha: recusavam as ofertas dos colonos que introduziam. novas necessidades, logo mais esforço. Mendigamos existência. Antes da pandemia, uma criança pergunta à professora de história: “e nós, o que vamos contar aos netos?”. Preocupação sem fundamento, mas sentida. Mendigamos afetos. Pais sem filhos, mães sem pais, avós sem netos e amigos sem abraços, desencontramo-nos.

Somos a primeira civilização que promove o morrer em solidão (Norbert Elias, La solitude des mourants, 1982). É verdade que em algumas sociedades os moribundos se afastavam dos vivos, respeitavam, no entanto, a norma, configurava um afastamento ritual que fazia sentido na respetiva condição e cultura. Agora, os moribundos não se isolam normativamente, mas na prática e pela prática, por fatalidade, como uma espécie de excrescência. À volta do leito, máquinas e peritos. Nem sombra de familiares, amigos, anjos ou demónios (ver O Galo e a morte: https://tendimag.com/2017/10/13/o-galo-e-a-morte-revisto/). Andamos descompensados, problema que apenas se agravou e evidenciou com os sucessivos confinamentos pandémicos. Entretanto, já andávamos à deriva. E não há vacina, nem anjo, nem imagem que nos acuda! Talvez nós, aliviando a carga que tanto ambicionamos e tanto nos esmaga. Talvez se deixássemos de nos armar em sísifos que só saber subir e subir, empurrar projetos encosta acima, até lhe faltar o ar. A vontade de superação é o nosso emblema. É também o nosso problema.

Não fui eu quem escreveu este texto. Foi o meu avatar reacionário e romântico, o Velho do Restelo. Um exercício, uma maneira como outra qualquer de fechar o ano.
Sem filhos

O anúncio Another Vacation não é, manifestamente, favorável à natalidade. Quem não tem filhos desfruta mais da vida. Anúncio a uma marca de preservativos? À primeira vista, parece. Na realidade, é um anúncio a uma plataforma de reserva de hotel: a Hotels.com. Hotéis, pelos vistos, pouco vocacionados para a reprodução. Um falso anúncio? Provavelmente.
Obrigado mãe por não seres pai

Dividir a humanidade em fatias é um vício divino. Assim se criou o homem e, da sua costela, a mulher. Encarar o diferente como diferente é sensato. Não aceitar a diferença é questionável. Hierarquizar faz parte do jogo político. Na publicidade, tornou-se hábito inferiorizar os homens, mais os seus privilégios, preconceitos e defeitos.
Educar uma criança é uma responsabilidade complexa, por acréscimo imprevisível como o caminho marítimo para a Índia, nos Lusíadas de Camões. É fácil cometer erros.
O anúncio alemão “Danke, dass du nicht Papa bist”, da EDEKA, é, em abstracto, parvo. Não há cúmulos de leviandade e infortúnio. O anúncio é uma procissão de disparates. Convém desvalorizar uns para valorizar outros? Diminuir os pais para festejar as mães? Logicamente, não.
No fim de Maio, volvidas três semanas, a EDEKA publica, agora, para a festa do pai, o anúncio Danke Papa. Não há reparação, mas ironia: Obrigado, Papá, por não seres mãe.
Os anúncios publicitários são produzidos em função dos objectivos por profissionais experientes. Um anúncio polémico, e cómico, pode comportar dividendos de notoriedade à marca. Este não é nem o primeiro nem o último caso.
Supermarket giant Edeka is facing a wave of social media indignation over a Mother’s Day online video clip ridiculing fathers’ parenting skills, with both men and women calling the film “sexist” (…)Since it was posted on YouTube on Sunday, the ad has exceeded a million views, with thumbs-down “dislikes” fastly outnumbering likes (https://www.thelocal.de/20190508/german-supermarket-chain-edeka-slammed-over-sexist-mothers-day-video).
Divórcio
O divórcio é, curiosamente, assunto omisso no Tendências do Imaginário. Em Portugal, em 2016, houve 69 divórcios para 100 casamentos (Pordata). “Em França, cerca de um em cada dois casamentos termina em divórcio” (https://www.huffingtonpost.fr/2013/08/13/etude-freres-soeurs-impact-risque-divorce_n_3749287.html). A condição de divorciado tornou-se numa nova idade da vida. No anúncio As unexpected as life, da Renault, um carro trespassa uma série de painéis publicitários, tantos quantos os modelos da Renault e as idades da vida. Neste anúncio, a separação é politicamente correcta: ele fica com o automóvel e ela com uma companheira.
Marca: Renault. Título: As unexpected as lif. Agência: Publicis Conseil. Direcção: Martin Werner. França, Fevereiro 2017.
Nas breves pesquisas que fiz na Internet, não encontrei o que procurava: “quocientes de divorcialidade”. Pelo caminho, deparei com vários saberes pitorescos: os casais com partilha de tarefas domésticas divorciam-se mais, bem como quem fez casamentos caros ou teve filhos cedo. Grande parte dos estudos sobre o divórcio debruça-se sobre os filhos. O anúncio Marked for life, da SIRE, recorre às tatuagens para vincar que aquilo que os pais dizem durante o divórcio “marca os filhos para a vida”.
Marca: SIRE. Título: Marked for life. Agência: 181 Amsterdam. Holanda, Maio 2011.

