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Recordar o que não se viveu

O INE (Instituto Nacional de Estatística) estima que, em Portugal, a população residente com menos de 50 anos ascendia, em 2022, a cerca de 5 713 000 pessoas (54,7% do total). Mais de metade dos “portugueses” nasceu, portanto, após o 25 de Abril de 1974. O documentário Como era Portugal antes da Democracia? aborda o período anterior à Revolução.

O documentário consiste numa “montagem para utilização didáctica em aulas de História realizada a partir de extractos da série Portugal, um Retrato Social, de António Barreto e Joana Pontes”. Bastante abrangente, dedica poucas palavras e imagens à emigração e ao contrabando, estimados, porventura, menos relevantes para o propósito geral.

Rodrigo Leão. Portugal, Um Retrato Social. 2007

No canal do YouTube de João Cardoso, o documentário soma, desde 2015, mais de1 089 138 consultas. Convido a espreitar, sobretudo, quem nasceu após o 25 de abril de 1974. Recordar o que não se viveu talvez resulte uma experiência interessante.

Como era Portugal antes da Democracia? – Montagem a partir de extratos da série Portugal, um Retrato Social de António Barreto e Joana Pontes, estreada na RTP1 em 2007. Duração: 39:22

Futurismos

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Nos anos setenta, a turma da disciplina de Sociologia da Arte, da Sorbonne, foi visitar a exposição dedicada ao futurismo no Centro de Arte e de Cultura Georges Pompidou (Beaubourg, Paris). Fui contrariado uma vez que existiam algumas ligações entre o futurismo e o fascismo, ambos de origem italiana. Marinetti, poeta fundador do movimento futurista (Manifesto Futurista, 1909) foi também uma das 119 pessoas presentes, em 1919, na fundação dos Fasci italiani di combattimento, o primeiro partido fascista europeu.

Umberto Boccioni. Unique Forms of Continuity in Space. 1913.

Umberto Boccioni. Unique Forms of Continuity in Space. 1913.

A exposição era impressionante. Aprendi a não confundir arte e ideologia. O futurismo mobilizou todas as artes e a sua herança permanece viva. Centra-se no presente e no futuro, privilegiando o movimento, a velocidade, a inovação e a máquina.

“La littérature ayant jusqu’ici magnifié l’immobilité pensive, l’extase et le sommeil, nous voulons exalter le mouvement agressif, l’insomnie fiévreuse, le pas gymnastique, le saut périlleux, la gifle et le coup de poing.

Nous déclarons que la splendeur du monde s’est enrichie d’une beauté nouvelle: la beauté de la vitesse. Une automobile de course avec son coffre orné de gros tuyaux tels des serpents à l’haleine explosive… une automobile rugissante, qui a l’air de courir sur de la mitraille, est plus belle que la Victoire de Samothrace” (F.T. Marinetti, Manifeste du Futuriste, Le Figaro, 20 de Fevereiro de 1909).

Os anúncios seguintes lembram o futurismo: cores contrastadas, decomposição e recomposição das imagens, exaltação dos movimentos, fascínio pela técnica… Repare-se na semelhança entre a personagem que foge no primeiro anúncio e a escultura de Umberto Boccioni (1913).

Marca: BGH. Título: Persecución. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi. Direcção: Jonathan Gurvit. Argentina, Julho 2015.

Marca: AZ Produções e Publicidade. Título: AZ o marketing futurista aqui. Agência: AZ Produções e Publicidade. Brasil, Fevereiro 2015.