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Passado sem Presente

Recordo
Todos aqueles momentos
Perdidos no encantamento
Que jamais
Reencontraremos
Não existe hoje para nós
Nada mais
A partilhar
A não ser o passado
(Roxy Music. Tradução livre)

Há dias, escrevi que os testemunhos dos tempos áureos da cultura europeia acabam por proporcionar um sabor agridoce. Estou longe de ser o único, e ainda menos o primeiro, a incubar semelhante sentimento. Por exemplo, “A Song For Europe”, dos Roxy Music, aponta claramente no mesmo sentido. Há mais de meio século.

Roxy Music – A Song For Europe. Stranded, 1973. Live at the Apollo 2001

E tudo o vento devolveu

Schindler’s List (1993)

Diga-o com música!

Returns to Cracow e Schindler’s List Theme, do filme A Lista de Schindler, e Lara’s Theme, do filme E tudo o vento levou (1939), interpretados por Itzhak Perlman.

John Williams. Return to Cracow. Do filme Schindler’s List (1993). Intérprete: Itzhak Perlman.
John Williams. Theme from Schindler’s List. Do filme Schindler’s List (1993). Intérpretes: Itzhak Perlman e John Williams.
Tara’s Theme from “Gone With The Wind” (1939). Compositor: Max Steiner. Intérprete: Itzhak Perlman.

Riqueza vaidosa

Rich and Poor – Unknown Painter 17th Century

Passam ferrari, porsche e lamborghini. E carros de colecção. Portugal é um país particularmente desigual? A desigualdade dos rendimentos de um país pode ser medida pelo índice de Gini. Varia entre um máximo de igualdade, 0, e um máximo de desigualdade, 100. Observemos os valores do índice de Gini nos países europeus, em 2017.

Índice de Gini nos países europeus, em 2017. Fonte: PORDATA.

Portugal consta entre os países em que existe maior desigualdade de rendimentos. Tem um índice de Gini de 33,5, próximo da Grécia e da Espanha, ultrapassado apenas por três países de leste: a Letónia, a Lituânia e a Bulgária.

Portugal é dos países mais desiguais da Europa. Justifica os carros de desporto e de luxo? Pode-se ser rico e discreto. Segundo Max Weber, os protestantes imbuídos do espírito o capitalismo preferiam o investimento ao fogo de artifício. Em Portugal, não impera nem a ética protestante, nem o espírito do capitalismo, predomina o consumo ostentatório e o espírito de corte. Consome-se luxo, faz-se lixo. Somos o 24º país mais desigual da Europa. Somos, também, aquele em que a riqueza rima com uma opulência quase ofensiva.

O índice de Gini é uma sequência da curva de Lorenz. No gráfico , indica-se na abscissa a população acumulada e na ordenada, os rendimentos acumulados.

Curva de Lorenz (país não identificado)

Comprova-se, por exemplo, que aos 20% mais pobres corresponde uma parte ínfima do rendimento nacional, enquanto os 20% mais ricos possuem acima de 60% do rendimento nacional. Segundo o gráfico, entre 1989 e 2004, a desigualdade diminuiu. A curva aproxima-se da diagonal a que corresponde a igualdade absoluta.

No início dos anos oitenta, era professor do curso de Relações Internacionais. Um dia, pergunto: “Conhecem a curva de Lorenz?”. Responde-me um aluno: “Não, professor, só conhecemos as curvas da Bo Derek”. Dar aulas pode ser estimulante.

If I were a rich man. Film: Fiddler on the roof. 1971.

Misericórdia

Algures na fronteira da Hungria.

No dia 21 de Março de 2017, uma embarcação sai da Líbia rumo à Europa. Naufraga no Mediterrâneo. Centenas de sobreviventes são resgatados pelo barco Aquarius. No barco, uma mulher grávida de oito meses e meio dá à luz uma menina, baptizada Mercy (misericórdia). A canção Mercy (Eurovisão 2018), do duo Madame Monsieur, centra-se neste episódio, que se ergue como um símbolo de esperança sob fundo de tragédia. Mas existem outros símbolos. Por exemplo, o corpo de um menino que deu à costa. A esperança renasce e submerge. Renasce da destruição e sucumbe à destruição. Fé, esperança e caridade são as três virtudes teologais. Espera-se de um cristão que partilhe a fé, promova a esperança e pratique a caridade. A canção Mercy é filha da esperança. Tem a virtude de focar as centenas de milhares de migrantes que chegam a bom porto. Outros não resistem à travessia ou perdem, paradoxalmente, a esperança chegados ao destino, enrolados em interesses, ideologias e arame farpado.

Madame Monsieur. Mercy. Álbum: Vu d’ici. 2018.

A canção Mercy Street, de Peter Gabriel pouco ou nada tem a ver com a canção Mercy do duo Madame Monsieur. Uma acentua a esperança, outra, a melancolia, uma esperança submersa, soturna e refractada. Três rios desaguam no estuário do desespero: eros, tanatos e culpa. Nenhum resolvido. Os outros de Peter Gabriel somos nós.

Peter Gabriel. Mercy Street. Àlbum: So. 1986.

O amor da arte

Lexus-NX-The-Art-Of-Standing-Out-Advert

“A arte é o caminho mais curto do homem ao homem” (André Malraux, 1949, Psychologie de art: La création artistique, Genève, Editions Albert Skira)

Um anúncio com arte assinado pela Lexus. É raro surpreender obras de arte tão bem incorporadas num vídeo. Uma pequena galeria com quadros de Vermeer, Mondrian, Van Gogh, Seurat, Hopper e escultura de Koons. Nada como o bom gosto. Diga-o com flores? Diga-o com arte. A Lexus deixa-se afagar pela aura da arte.

Marca: Lexus. Título: The art of standing out. Agência: Chi & Partners. Direcção: NE-O. Europa, Novembro 2017.

O voo do touro

Giulio Romano. O rapto de Europa. Fim do séc. XVI.

Giulio Romano. O rapto de Europa. 1527.

Deixei-me seduzir pelo vídeo Weightless, de Jess Rosten. As imagens são impressionantes. Montado por um “cow-boy”, o touro voa a meio metro do solo! No rapto de Europa, Zeus, disfarçado de touro, também voa sobre as águas do Mediterrâneo. Há algo de sagrado na potência pesada do touro e na leveza corajosa do “cow-boy”. A besta nobre e o arcanjo guerreiro.

Título: Weightless. Direcção: Jesse Rosten. Direcção de fotografia: Matt Jeppsen. Abril 2017.

Morte, erotismo e política

'Riding with Death' by Jean-Michel Basquiat. 1988.

Jean-Michel Basquiat. Riding with Death. 1988.

Riding With Death, de Jean-Michel Basquiat, é uma pintura que surpreende. Foi concluída no ano, 1988, em que Basquiat faleceu vítima de uma overdose de heroína, com 27 anos de idade. Entre as imagens da morte, não tenho memória de uma figura humana a cavalgar a morte. São, aliás, raras as imagens em que a morte aparece subordinada, como no episódio excepcional da descida de Cristo ao inferno (ver O Triunfo sobre a Morte).

O Rapto de Europa,  c. 340 a.C.

O Rapto de Europa, c. 340 a.C.

Quem conduz? O título do quadro não é “Riding Death”, cavalgando a morte, mas Riding With Death, caminhando com a morte. Estes cambiantes lembram duas lendas. Na primeira, conduz quem é montado. É o caso do rapto de Europa por Zeus, transformado em touro. Europa senta-se no dorso do touro que a sequestra ( ver O rapto de Europa. Com os olhos no retrovisor). Na segunda lenda, relativa a Fílis e Aristóteles, conduz quem monta.

01. Phyllis riding Aristotle. 13th c.

Phyllis riding Aristotle. 13th c.

Alexandre O Grande andava perdido de amores por Fílis, uma bela mulher proveniente da Índia. A tal ponto que descurava as responsabilidades e o governo do reino. Aristóteles, tutor de Alexandre, chamou-o à razão: devia moderar os seus encontros com Fílis. Alexandre acedeu ao pedido de Aristóteles.

Fílis não gostou da interferência de Aristóteles. Decidiu, com êxito, seduzi-lo. É a vez de Aristóteles andar perdido de amores por Fílis.

04. Aquamanile (late 14th century) New York Metropolitan Museum

Aquamanile (late 14th century) New York Metropolitan Museum

Um dia, Fílis propõe a Aristóteles: “dou-te o meu corpo, mas, primeiro, acedes que ande montada nas tuas costas”. Alexandre, avisado, assistiu à cena. Quis expulsar Aristóteles. Mas, em verdade, só agora a lição se perfazia: se até um velho sábio não resiste ao encanto de uma mulher, que esperar de um jovem rei”.

Na lenda de Fílis e Aristóteles, o amor e o erotismo vencem o político e o sábio. A imagem de Fílis a montar Aristóteles, com trejeitos de sadomasoquismo, tornou-se célebre, em particular, na Idade Média e, sobretudo, no chamado Renascimento do Norte.

14. George Pencz. Fílis e Aristóteles. 1530

George Pencz. Fílis e Aristóteles. 1530. Tal como na figura 13, Fílis usa esporas.

Um último apontamento sobre a Farsa de Inês Pereira (1523), de Gil Vicente. Inspirada na máxima “mais quero um asno que me carregue do que cavalo que me derrube”, a farsa termina com o segundo marido a carregar às costas Inês Pereira para a levar até ao amante, o Ermitão. “Pois assi se fazem as cousas” ( ver pdf: Gil Vicente. Farsa de Inês Pereira. Parte final).

Galeria de imagens: Fílis e Aristóteles

Touros com rodas

Audi Q3

Já faltava um bom anúncio a um automóvel. Graças à sequência de imagens, ao texto, à música, à divisa e a uma boa composição global, o anúncio All conditions are perfect conditions é excelente. O Audi Q3 é sensual e robusto. Trata-se de um todo-o-terreno, preparado para “qualquer condição”. O Audi Q3 parece obra dos deuses. Sem menosprezar o Lamborghini, lembra um touro mítico cretense.

Pasifae. Vilanova i la Geltru. Espanha.

Pasifae. Vilanova i la Geltru. Barcelona. Espanha.

Zeus apaixonou-se por Europa. Avistando-a na praia, aproximou-se, transformado num touro branco com chifres e cascos de prata. Confiante, Europa montou no touro que a levou mar adentro até Creta.
Minos, filho de Zeus e Europa, casou com Pasifae. Na qualidade de rei de Creta, faz um pacto com Poseídon, prometendo-lhe sacrificar o melhor touro. Minos não cumpre a promessa. Sacrifica um touro vulgar. Sentindo-se enganado, Poseídon pede o auxílio de Vénus, que, durante a noite, implantou no coração de Pasifae, um desejo irresistível por um touro. Incapaz de se conter, Pasifae pede a Dédalo para lhe construir uma armadura em forma de vaca de modo a poder aproximar-se do touro (a versão bovina do cavalo de Tróia). O desejo foi satisfeito.
Da relação de Pasifae, mulher de Minos, com o touro, nasceu o Minotauro, um ser humano com cabeça de touro. Resultado de uma concepção anómala, o Minotauro envergonhava Minos e aterrorizava os cretenses. Minos encomenda a Dédalo a construção de um labirinto, de onde fosse impossível sair, para encarcerar o Minotauro.
Minos conquista Atenas, de cujo povo leva semanalmente sete rapazes e sete raparigas virgens para alimento do Minotauro. Teseu, filho do Rei de Atenas, junta-se a um destes grupos com o intuito de matar o Minotauro. Em Creta, Teseu conhece Ariadne que, apaixonada, lhe dá o novelo de lã para o ajudar a sair do labirinto. Teseu matou o Minotauro. Consta que a parte humana ficou na terra e a parte animal foi para o céu formando a constelação Touro.

O rapto de Europa. Mosaico. Byblos. Séc. III A.D. Beirute.

O rapto de Europa. Mosaico. Byblos. Séc. III A.D. Beirute.

O texto do anúncio inspira-nos um misto taurino de sexo e poder: esculpir, adrenalina, excitação… Esta é a alquimia de muitos anúncios a automóveis. Impressiona, contudo, que este chamamento seja o oposto dos anúncios de prevenção rodoviária. Adrenalina e excitação não é o que se espera de um condutor previdente. Como avaliam as altas autoridades os anúncios publicitários? Há uns tempos, espantei-me com a proibição de uma anúncio da Rexona por causa de três raparigas que dançavam no banco de trás de uma carrinha sem cinto de segurança (http://tendimag.com/2011/11/29/zelai-por-nos/). Se calhar, as Altas Autoridades atendem mais ao conteúdo do que à forma. Elas lá sabem! Foram nomeadas para impedir erros alheios de alto efeito. Alta Autoridade é um nome que cria urticária ideológica. Mais alto do que uma alta autoridade, só uma alta alta autoridade ou uma altíssima autoridade. As altas autoridades pegaram de estaca neste nosso húmus democrático. Soam a retro, soam talvez aos anos trinta.

Marca: Audi Q3. Título: All conditions are perfect conditions. Agência: Ogilvy & Mather, Cape Town. Direcção: Rob Malpage. África do Sul, Agosto 2015.

Texto do anúncio e tradução.

  This is not a road, it’s an invitation

This is not driving, this is carving.

These aren’t bad conditions, as there is no such thing.

This is not a flash flood. It’s a source of adrenalin.

Ok, this is treacherous. But so what?

This is not tension, this is excitment.

This is not a mountain, this is the next level.

All conditions are perfect conditions.

The new Audi Q3

Isto não é uma estrada, é um convite

Isto não é condução, isto é “esculpir”

Estas não são más condições, pois não existe tal coisa.

Isto não é uma enxurrada, é uma fonte de adrenalina.

Ok, isto é desleal. E então?

Isto não é tensão, isto é excitação.

Isto não é uma montanha, isto é o próximo nível.

Todas as condições são condições perfeitas

O novo Audi Q3-

Potência

Volvic. La force du volcan.

Quando a música é boa, e o resto não desmerece, vale a pena experimentar. No novo anúncio da Volvic e no trailer do videojogo Assassin’s Creed, repete-se a música de Woodkid. E a mesma propensão para o mito, senão para o arquétipo. Do conjunto, desprende-se uma sensação de potência. Existe uma estética da potência? Tem milénios… Um anúncio, um trailer, um videoclip. Três forças da natureza humana.

Marca: Volvic. Título: La Force du Volcan. Agência: Young & Rubicam Paris. Direção: Johnny Green. Europa, Outubro 2014.

Assassin’s Creed: Revelations – Official E3 Trailer. Ubisoft Montréal. Junho 2011.

O Rapto de Europa. Com os olhos no retrovisor.

Mais avisado do que convocar a besta, talvez seja mostrar a obra. A besta sobressai durante as eleições, mas é da obra que se alimenta. Segundo a mitologia grega, Europa senta-se, imprudente, no dorso de um touro (Zeus), que a rapta. Subjugada pela potência, a bela Europa olha para trás: sabe o que perde e teme o que ganha.

Paul Manship. Flight of Europa. 1925

Paul Manship. Flight of Europa. 1925

“Europa era uma linda princesa fenícia. Como ainda não chegara à idade de casar, vivia com os pais num magnífico palácio e tinha por hábito dar longos passeios com as amigas nos prados e nos bosques. Certo dia quando apanhava flores junto da foz de um rio foi avistada por Zeus (o deus supremo) que se debruçava lá do Olimpo observando os mortais. Fascinado com tanta formosura, decidiu raptá-la. Para evitar a fúria da sua ciumentíssima mulher, quis disfarçar-se. Nada mais fácil para quem tem poderes sobre naturais! Tomou a forma de um touro. Um belo touro castanho com um círculo prateado a enfeitar a testa. Desceu então ao prado e deitou-se aos pés da Europa. Ela ficou encantada por ver ali um animal tão manso, de pelo sedoso e olhar meigo. Primeiro afagou-o, depois sentou-se-lhe no dorso e… o touro disparou de imediato a voar por cima do oceano. A pobre princesa ficou assustadíssima. Mas não tardou a perceber que o raptor só podia ser um deus disfarçado, pois entre as ondas emergiam peixes, tritões e sereias a acenar-lhes. Até Posídon apareceu agitando o seu tridente.

Muito chorosa, Europa implorou que não a abandonasse num lugar ermo. Zeus consolou-a, mostrou-se carinhoso, prometeu levá-la para um sítio lindo que ele conhecia fora da Ásia. Prometeu e cumpriu. Instalaram-se na ilha de Creta e tiveram três filhos que vieram a ser famosos.”

Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada, A Europa dá as mãos, Comissão Europeia. 1995, pp. 4-5.