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Magic. Jogar aos monstros

Magic. The gathering.

“Il est bien peu de monstres qui méritent la peur que nous en avons.” (André Gide, Les Nouvelles Nourritures, 1935).

Vampiros, lobisomens, serpes, ogres, dragões, harpias, minotauros, demónios, bruxas, papões, cabeçudos, zombies, são figuras recorrentes do imaginário fantástico da humanidade. Afirmam-se como entidades monstruosas e grotescas. A relação com os monstros desafia o nosso entendimento. Wolfgang Kayser (O Grotesco, 1957) define o grotesco, inspirando-se em Sigmund Freud, como estranhamento. O mundo que nos é familiar torna-se estranho, eventualmente ameaçador. “Foge debaixo dos pés”. Com o grotesco ocorre uma desfamiliarização do familiar. Há algo de estranho neste estranhamento. Como conceber as situações em que o estranho se torna familiar? Quem passou anos a fio a ler mangas ou a imergir em videojogos pode avançar-se que as respetivas imagens lhe permanecem estranhas? O Shrek e o Smeagol são estranhos? São uma ternura de brinquedos. Esboça-se uma certa cumplicidade na experiência do estranhamento, na própria configuração do estranho. Um dos principais contributos de Wolfgang Kayser consistiu na concepção do grotesco e do estranhamento como uma relação dinâmica e não como um confronto de essências desencontradas.

Serpe na festa de São João, em Braga.

O Shrek assevera-se mais familiar, menos grotesco, do que o mais mediático dos presidentes da república. Nesta espécie de interacção dialógica acontece um efeito de Coco. Como sublinha Omar Calabrese, a propósito do filme A Coisa (2011), de John Carpenter, há monstros que são vazios e, mais do que disformes, mostram-se informes. Carecem do envolvimento, do “sacrifício”, das vítimas para assumir a missão e ser o que são. Coco, à semelhança do Papão, é um monstro originário de Portugal e da Galiza. “Não é o aspecto do coco mas o que ele faz que assusta a maioria das crianças. O coco é um comedor de criança (um papa-meninos) e um sequestrador. Ele imediatamente devora a criança e não deixa rastro dela ou leva a criança para um lugar sem volta. Mas ele só faz isso às crianças desobedientes (…) O coco toma a forma de qualquer sombra escura e fica (…) de guarda” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Coca_(folclore). Apetece relembrar que “os monstros somos nós”. O fantástico conhece, nos nossos dias, uma exuberância inédita. O jogo Magic, antes com cartas materiais, agora também online, é um caso de sucesso global. Emerge, submerge e reemerge mais forte. Ao ritmo da adesão lúdica e emocional dos jogadores.

Albertino Gonçalves & Fernando Gonçalves.

War of the Spark Official Trailer – Magic: The Gathering.
Magic: The Gathering – Guilds of Ravnica: Official Trailer. 2018.

A sereia na idade da técnica

Os contos e as lendas não nos largam. São educação pelo sonho e pela imaginação. Umas vezes os revisitamos, outras os distorcemos, como no anúncio La Syrène, dos Sauveteurs en Mer.

Passadas algumas horas, o vento começou a soprar forte. A lua e as estrelas sumiram do céu e começaram a surgir trovões e relâmpagos.
O mar estava revolto, ondas gigantescas atacavam o navio. Os marujos, assustados, retiraram as velas do navio. As pessoas gritavam assustadas. O navio balançava muito, até que uma onda gigantesca o tombou para o lado. A escuridão foi total.
Um raio iluminou o céu e a Pequena Sereia viu pessoas gritando e tentando se salvar nadando.
De repente, a pequena sereia viu o príncipe. Ele estava se afogando. Ela sentia que tinha que ajudá-lo. Ela nadou entre os destroços do navio e o alcançou.
O jovem príncipe estava desmaiado. Ela segurou firmemente, mantendo a cabeça dele para fora da água, e flutuou com ele até a tempestade passar.
Ao raiar do sol, a pequena sereia verificou que o príncipe respirava tranquilamente. Ela ficou aliviada em ver que ele estava bem, ficou tão contente que o beijou. Nadou com ele até uma praia, o deitou na areia e escondeu-se atrás das rochas (Hans Christian Anderson, A pequena Sereia. Excerto. 1837).

A pequena sereia do anúncio, um pouco mais vestida do que o habitual, não tem força para valer ao príncipe. Será preciso um objecto técnico, um colete salva-vidas, para o salvar. Como avaliaria Hans Chistian Anderson esta adaptação? E.T.A. Hoffmann (1776-1822) talvez lhe encontrasse algum interesse. À semelhança do filme Quem tramou Roger Rabbit? (1988), a parte final do anúncio combina live-action e animação, para vincar, porventura, um maior efeito de realidade.

pateta-e-ze-cariocaQuando era pequeno, devorava “revistas aos quadradinhos”. Identificava-me, sobretudo, com o Pateta, leal, voluntarioso, trabalhador, aplicado, mas sem resultados ou com resultados catastróficos, e com o Zé Carioca, preguiçoso, esperto, palrador e vadio, que consegue escapar aos problemas e alcançar o que deseja. Um é o contrário do outro, mas identificava-me com ambos. A identificação pode ser estrábica.

Amontoadas centenas de fotografias sobre a mesa, estranho aquelas onde figuro. Como é possível uma pessoa estranhar-se? Não é necessário ser Dorian Gray. A auto-identificação, aparentemente natural, pode revelar-se um labirinto sem fios. Fiódor Dostoievski sabia isso, tal como, cerca de trezentos anos antes, Panurgo, o amigo inseparável de Pantagruel. Como é bizarro este mundo: uma pessoa identifica-se com dois bonecos opostos e estranha-se a si mesmo.

Anunciante: Les Sauveteurs em mer. Título: La sirène. Agência: Publicis Conseil. Direcção: Flying V. França, Novembro 2016.

A Ceia dos Pobres (eventualmente chocante)

The notorious Last Supper sequence in Luis Buñuel's VIRIDIANA.  

Os símbolos mais sagrados, como a hóstia, não estão ao abrigo do rebaixamento grotesco. Antes pelo contrário (https://tendimag.com/2013/06/26/sacrilicioso/). Memória puxa memória, e eis que se insinua a paródia da última ceia no filme Viridiana (1961), de Luis Buñuel. Vi Viridiana, filme de culto, palma de ouro em Cannes, há mais de trinta anos. A sequência ainda hoje impressiona.

Na ausência dos patrões, um grupo de pobres apropria-se, por um tempo, da casa senhorial. A visita descamba em orgia coletiva. A transgressão culmina no episódio em que a ceia decalca o quadro de Leonardo da Vinci. Trata-se de um cúmulo do grotesco: o tópico mais elevado da religião cristã, a Eucaristia, é, a pretexto de um simulacro de fotografia, associado ao tópico simbolicamente mais baixo do corpo humano, os órgãos genitais femininos. Este tipo de grotesco, sinistro e dissolvente, lembra a fase negra de Goya e, naturalmente, o filme surrealista Le Chien Andalou (1928), de Luis Buñuel e Salvador Dali.

Junto um excerto do filme Viridiana, suscetível de perturbar os espíritos mais sensíveis e mais devotos. Acrescento o filme Le Chien Andalou, porventura ainda mais desconcertante e mais violento. O filme Viridiana, nome de santa do século XIII, foi censurado pelo papa João XXIII, por blasfémia e indecência, e proibido em Espanha até 1977, dois anos após a morte de Franco.

Luis Buñuel. Viridiana. Episódio da ceia. Espanha, 1961.

Luis Buñuel e Salvador Dali. Le Chien Andalou. França, 1928.

Os zombies fazem yoga

O anúncio Zombie (Yoga Outreach) envereda pelo estranhamento (Unheimliche, na acepção de Freud). Mas a ameaça das pessoas transformadas em zombies tornou-se cada vez mais um estranhamento familiar. Mais de 500 filmes e um sem número de vídeojogos, vídeos musicais e anúncios publicitários habituaram-nos a este género de comoção. A perturbação reside na transformação, inesperada, dos zombies em seres humanos, por artes mágicas do yoga. Trata-se de uma construção de segundo grau, de um estranhamento que se sobrepõe a outro estranhamento, corrompendo a sua componente familiar e invertendo a acção (agora, de zombies para pessoas) mediante recurso a um meio completamente insólito: o yoga.

Anunciante: Yoga Outreach. Título: Zombie. Agência: John St (Canada). Direcção: Ben Steiger Levine. Canada, 2011.