A amamentação através do tempo. II – Primeiro milénio pagão

Com tempo para semear, acrescento um novo episódio à história ilustrada da amamentação, desta vez, com imagens pagãs, não cristãs, do primeiro milénio.
Nos primeiros séculos da era cristã, predominam as figuras “pagãs” celtas, galo-romanas e do culto a Ísis, então no auge. As obras, sobreviventes, com a Virgem Maria resultam raras até finais do milénio, principalmente no continente europeu.
Imagem: Estela funerária De Medinet el-Fayumséc. Egito. Séc. IV ou V d.C.Talvez uma das primeiras virgens do leite (Galakotrophousa) coptas. Museum fürByzantinische Kunst. Berlim
As Deusas-mães, ou Matronas, de origem celta e galo-romana conheceram uma divulgação considerável durante este período (Figuras 2.01; e 2.07 a 2.15). Estatuetas de terracota, frequentemente com menos de um palmo, eram reproduzidas com recurso a moldes (Figuras 2.12 a 2.14). Ísis, entretanto, romanizou-se, passando a exibir túnicas e mantos ao estilo greco-romano (Figuras 2.02; 2.03; 2.16; e 2.17). Acrescem alguns relevos com uma mãe e um bebé em estelas de túmulos de crianças (Figuras 2.04 a 2.06).
Colocadas em altares domésticos, santuários e sepulturas, estas imagens, associadas à proteção das crianças, à maternidade, à terra, às fontes, à fecundidade e à abundância, não só precedem como prefiguram as dedicadas posteriormente à Virgem Maria.
Segue uma galeria com menos de dúzia e meia de imagens. Permitam-me, todavia, uma confidência: excecionais, são exemplares deveras difíceis de encontrar e identificar, inclusivamente na Internet. Trata-se de uma tarefa que requer algum engenho e muita paciência. Só mesmo para quem se interessa por coisas que não lembram ao diabo!
Galeria 2. Imagens pagãs do primeiro milénio da era cristã

















A amamentação através do tempo. I – Antes de Cristo
Estou a preparar uma conversa dedicada à iconografia da Virgem Maria. O título, provisório, aponta para qualquer coisa como “Mater dolorosa: naturalismo e simbolismo na pietà”, com a escultura do jovem Michelangelo como ponto de partida. Quando abordo um tema, costumo perder-me noutros que lhe são mais ou menos conexos. Compreender é também comparar.
Para além da pietà, convoco outras figuras, precedentes e contemporâneas, entre as quais a Virgem do Leite. Da Virgem do Leite à figura de qualquer mulher a amamentar uma criança vai apenas um passo.
Entretenho-me, assim, a desencantar e arquivar imagens com mulheres a amamentar crianças. Existem em todos os tempos e continentes. Configuram um arquétipo da maternidade e da fertilidade.
Parte dessas imagens justificam partilha. Algumas, raras, resultam difíceis de encontrar. Uns achados!
Segue uma primeira galeria, com esculturas de várias proveniências anteriores à era cristã. A mais antiga tem quase 8000 anos. Desgastadas pelo tempo, algumas “perderam a cabeça”. A maioria encontra-se numa posição que antecipa a generalidade das obras do milénio posterior: sentadas, a criança no colo, olhar frontal e uma mão a segurar um peito.
Galeria: Imagens com mulheres a amamentar crianças anteriores à era cristã (a. C.)





























Boa Disposição Divina (continuação)
Ontem, mudança na medicação: mais contra a tensão, menos calmante. Hoje, sinto-me quebrado. Nem sequer tive disposição para assistir à Liberdade à Deriva (Dia do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura). Afundei-me numa sesta arrastada.

Com alguma ajuda, por modesta que seja, os caminhos tornam-se mais acessíveis e amplos. Reagindo ao artigo “Boa Disposição Divina. A Virgem e o Menino Sorridentes”, uma amiga enviou-me uma imagem com a estatueta da Virgem com o Menino, dita da Sainte-Chapelle, datada do século XIII e localizada no Museu do Louvre (Figuras 16 e 17).
Resultam deveras gratificantes estes retornos.
Uma imagem desconhecida é fonte, ponte ou porta para outras, avulsas ou em cadeia, num efeito multiplicador. A partilha amiga ofereceu-se, portanto, como um estímulo, ou desafio, para retomar a busca.
Figura 13. Vierge à l’Enfant. Ca. 1240 a 1260. Ivoire. Musée de Cluny
Adoro esgaravatar, como as galinhas. É um vício. Não me recordo, por exemplo, de colocar os pés na praia de Moledo e resulta raro sentar-me nas esplanadas. Em contrapartida, não perco a mínima oportunidade para ir até à zona dos rochedos.

As pessoas que me acompanham costumam entreter-se a apanhar “beijinhos”, umas conchas minúsculas. O meu alvo é ainda mais raro e exigente: picos e bifaces pré-históricos, que remontam ao Paleolítico. De insucesso em insucesso, a coleção cresce. Há quem goste de oferecer flores do jardim, o meu cúmulo é surpreender com picos apanhados na areia ou resgatados de poças de água salgada, com sérios riscos de, apesar da bengala, escorregar e dar uma queda.
Picos descobertos em Moledo
Esgaravatar é um vício facilitado pela Internet. Em dois dias, o número de imagens guardadas na pasta “Virgem e Menino Sorridentes” disparou de meia dúzia para mais de uma quinzena (Figuras 13 a 27), excluindo aquelas em que a Virgem esboça um sorriso à Gioconda. Quase todas provêm do século XIII e da primeira metade do século XIV. A maioria é em marfim e provém da região parisiense, berço do estilo gótico.
Segue a colheita mais recente, mas, espero, não a definitiva. Repare-se que na figura 27 até os leões riem!
Galeria de imagens com a Virgem e o Menino Sorridentes (continuação)














A dança das deusas
Este artigo é uma prenda da São. Tantos prodígios tem este mundo e tão poucos nos divertem. A chave do humor, e do prazer, é como o ovo de Colombo: basta uma pitada de engenho. As 24 Free Goddess Gif de Nina Paley (http://blog.ninapaley.com/) desenferrujam, após milénios de imobilidade, o corpo. A partir das imagens de Nina Paley, alguém (Emely Hesse?) montou o seguinte vídeo:
Emily Hesse. Yes. Best thing I’ve seen this year and we’re only five days in.
Sexo angelical

Mostra pouco e vê-se muito! Há tentações a que nem os anjos de pedra resistem. O anúncio Little Angel, da Cachemir, é subtil. Conta uma quase não história e incentiva o público a co-construí-la.
Marca: Cachemir. Título: Little Angel. Agência: Tapsa Y & R Madrid. Espanha, 1999.
A configuração do anúncio The Nuns, da Rubbert Cement, é semelhante, mas propõe uma história e apela menos à co-construção por parte do público. Ambos os anúncios, espanhóis, são atrevidos e ternurentos.
Marca: Rubber Cement. Título: The Nuns. Agência: Casadevall. Direcção: Eduardo MacLean. Espanha, 1992.
O riso da velha grávida
“Entre as célebres figuras de terracota de Kertch, que se conservam no Museu L’Ermitage de Leningrado, destacam-se velhas grávidas cuja velhice e gravidez são grotescamente sublinhadas. Lembremos ainda que, além disso, essas velhas grávidas riem. Trata-se de um tipo de grotesco muito característico e expressivo, um grotesco ambivalente: É a morte prenhe, a morte que dá à luz” (Mikhail Bakhtin, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: O contexto de François Rabelais, São Paulo, HUCITEC, 1987, pp. 22-23).
Só de imaginá-las, estas figuras de terracota cativam. Há anos que as procuro. Resignei-me a substituí-las pela velha com um bebé enfaixado, da Tentação de Santo Antão (1506), de Hieronymus Bosch, e pelas imagens da morte com o bebé ao colo (ver James Ensor, Morte com bebé ao colo). Alguns estudos sobre Bakhtin sinalizam uma estatueta de terracota (figura 1) que condiz com a descrição: uma mulher, aparentemente, idosa e grávida (ver, por exemplo, Vanessa Tarantini, O corpo grotesco). A estatueta provém de Kertch, contanto se encontre no Museu do Louvre e não no Museu L’Ermitage. Confesso que tenho visto e revisto esta idosa grávida, mas ela teima em não se rir. Tão pouco chora.
Está tudo na Internet? Quando o objetivo é específico, o que mais se encontra é lixo. Explorar na Internet é cada vez mais navegar numa lixeira. Parafraseando Malthus, se o crescimento da informação é geométrico, o crescimento do lixo é exponencial. De qualquer modo, quem muito procura quase alcança. “Descobri” uma estatueta com uma mulher sentada: idosa, obesa e, com boa vontade, grávida e risonha. Condiz com as figuras de terracota de Mikhail Bakhtin. Até na data (três séculos a.C.). Só não foi produzida em Kertch, na Crimeia, mas, perto, na Beócia. Também não está no L’Ermitage, mas no British Museum (figura 3).

04. Figura de terracota de uma velha ama com um bebé. Beócia. Grécia. Cerca de 330-300 a.C. British Museum.
Outras estatuetas de terracota avizinham-se das figuras convocadas por Mikhail Bakhtin. Falta-lhes, porém, um ou outro atributo: a idade, a gravidez ou o riso (ver galeria). Destaco, mesmo assim, uma imagem: uma velha risonha sentada com um bebé ao colo, da mesma época, mas da Beócia (figura 4). Tal como a mulher do British Museum (figura 3), esta figura está repleta de pregas e dobras: dobras de sombra, do tempo, do movimento e da aproximação dos contrários. A velha ri enquanto cuida do bebé. Não está grávida, mas sustenta o crescimento. Não é “a morte prenhe, a morte que dá à luz”, mas um atalho no ciclo da vida e da morte, um laço entre a velhice, próxima da morte, e a infância, no início da vida. O mundo dobra-se e os extremos confrontam-se.
Galeria de imagens
Figuras Remojadas Sorridentes
“A serendipidade remete para o facto bastante frequente de se observar um dado inesperado, insólito e decisivo que dá azo ao desenvolvimento de uma nova teoria ou ao alargamento de uma teoria existente” (Merton, Robert K., 1965, Elements de Théorie et de Méthode Sociologique, Paris, G. Monfort, p. 47).
Há quem encontre o que procura, com protocolos de investigação. O método indica o caminho. Há, também, quem descubra caminhando. Uns, clássicos, desfiam uma realidade complexa. Outros, barrocos, constroem a realidade a partir de singularidades imprevistas.
No livro dedicado a François Rabelais, Mikhail Bakhtin refere-se a umas figuras de terracota com velhas risonhas. Tenho procurado estas imagens em vão. Encontrei, em contrapartida, sem qualquer guia, estas figuras cerâmicas sorridentes da cultura Remojadas (Vera Cruz, México) dos séculos VII e VIII. Para quem aprecie o grotesco, este achado representa um filão.
“The so-called Smiling Figures from the Remojadas region of Veracruz are often regarded as expressions of Mesoamerican humor. These hollow ceramic sculptures are thought by many to be associated with a god of dance, music, and joy. Another compelling interpretation, however, relates them to a cult of pulque, an intoxicating beverage made from the fermented sap of the maguey plant. The animated faces, puffy cheeks, and swollen protruding tongues are regarded as evidence of intoxication. The figures may depict ritual participants, or even sacrificial victims. The survival of many more smiling Remojadas heads than bodies suggest to some a possible ceremonial decapitation and destruction of the bodies. This bare-chested figure, with open mouth and filed teeth, stands energetically with legs spread and arms lifted as if caught in mid-motion. The garb of this celebrant consists of circular earrings, a beaded necklace and bracelet along with a loincloth decorated with laterally symmetrical patterns. On his cap are ollin symbols, a sign for motion. This sculpture evokes a festive dance or ritual accompanied by the rhythmic reverberation of the hand-held rattle and celebratory sound escaping from the figure’s open mouth” (The Metropolitan Museum of Art: http://www.metmuseum.org/toah/works-of-art/1979.206.1211).
- 03. Figura sorridente. Cultura Remojadas. Vera Cruz. México. Secs. VII-VIII.
- 02. Figura sorridente. Cultura Remojadas. Vera Cruz. México. Secs. VII-VIII.
- 01. Figura sorridente. Cultura Remojadas. Vera Cruz. México. Secs. VII-VIII.
- 04. Figura sorridente. Cultura Remojadas. Vera Cruz. México. Secs. VII-VIII.
- 05. Figura sorridente. Cultura Remojadas. Vera Cruz. México. Secs. VII-VIII.
- 06. Figura sorridente. Cultura Remojadas. Vera Cruz. México. Secs. VII-VIII.
- 07. Figura sorridente. Cultura Remojadas. Vera Cruz. México. Secs. VII-VIII.
- 08. Figura sorridente. Cultura Remojadas. Vera Cruz. México. Secs. VII-VIII.
- 09. Figura sorridente. Cultura Remojadas. Vera Cruz. México. Secs. VII-VIII.
















