Perto do sol
À Zé Gomes
Se tiver tempo, descanse a ver este artigo! Pela companhia aérea Emirates, pelo Elias e, principalmente, pelos Antony and The Johnsons com Franco Battiato. Este blogue pode ser discreto, mas é rico em coisas raras. Se não puder parar, passe ao largo, e não olhe para trás, como em noites de bruxedo.

Apetece-me ouvir a canção Fistful of love, dos Antony and The Johnsons. Procuro no Tendências do Imaginário e encontro um retângulo negro com o seguinte letreiro: “Este vídeo não está disponível devido a uma reivindicação de direitos autorais”. Paciência! Substituo o link por outro, por sinal, melhor: uma atuação ao vivo, de 2007 (https://www.youtube.com/watch?v=1-524bnuYdM). O Tendências do Imaginário está cheio de retângulos negros. Na maioria dos casos, por um motivo inocente: o link foi, entretanto, desativado. As pequenas contrariedades dão-me vontade de brincar, de me divertir com maneirismos. Por exemplo, criar um falso gémeo, Perto do sol, a partir do artigo amputado, o Voo dos sentidos (https://wordpress.com/post/tendimag.com/40706).
O impressionante anúncio da companhia aérea Turkish Airlines (5 senses With Dr. Oz) é substituído pelo faraónico, We ‘re on top of the world, da congénere Emirates: uma hospedeira de bordo dá as boas-vindas à Expo 2020 Dubai no topo do edifício mais alto do mundo. Lembra um novo Ícaro com trejeitos de Estátua da Liberdade. A canção Revolution permuta com Thinking of you, ambas de Elias. Por último, a canção Firstful of love, dos Antony and The Johnsons, dá lugar à canção Del suo veloce volo, também dos Antony & The Johnsons, interpretada com Franco Battiato, no concerto da Arena de Verona, em 2013. Uma raridade! Como quem conta um conto acrescenta um ponto, ainda sobra espaço para um link do álbum (áudio) completo deste espetáculo.
Pequenos nadas
A carta inconclusiva
Que pena tenho eu de ti,
Por não assistires,
Ao que eu assisti!
Uma pena de pavão,
Voava de mão em mão.
Era de um recluso que cumpria
Uma pena de prisão!
Apesar de inocente,
A pena tinha de ser cumprida.
Escrevia à sua amada,
A melhor carta da sua vida!
Faltava escrever o último dizer,
Mas o tinteiro, tinta não tinha e…
Dinheiro não havia para o tinteiro
Satisfazer…
(Cândida Passos, ilustração de Celeste Semanas, A carta inconclusiva! (excerto), Poetizar as Efemérides, Braga, 2015).
Por causa de um tinteiro, entornam-se vidas. “Pour un rien du tout”. “A vida é feita de pequenos nadas” (Sérgio Godinho: https://www.youtube.com/watch?v=YP9Rc3KIz9g). As grandes obras, como as grandes estátuas, dependem, por vezes, de insignificâncias. Pelo menos, é o que insinuam estes anúncios.
Uma pastilha elástica Hollywood causa semelhante efeito à Estátua da Liberdade (serão calores) que ela não hesita em descobrir-se e dar um mergulho no rio Hudson. No caso do Cristo Redentor, a situação é distinta. No interior, mora um homem incumbido de manter o monumento limpo, graças a um pano de cozinha e CIF.
Marca: Hollywood, Título: Statue of liberty. Agência: BETC euro RSCG. Direcção: Les Frères Poiraud. França, 1999.
Marca: CIF. Título: Christ the Redeemer. Agência: Borghi / Lowed (São Paulo). Brasil, 2014.

