Um Milhão de Máscaras de Deus

Cause I can feel your pain
In my bones, in my bones
And I can feel your pain
Deep in my bones, deep in my bonesAnd hallelujah to the one in our bones
And hallelujah to the one that we love(Manchester Orchestra, I’m Like a Virgin Loosing a Child, 2006)
Depois do “olhar estrábico de Cristo”, “um milhão de máscaras de Deus”! Após o sucesso de “Silence” (https://tendimag.com/2021/03/11/o-tendencias-do-imaginario-face-ao-confinamento/), a música dos Manchester Orchestra frisará o “inaudível”?
A imaginação infantil ao poder

“A imaginação ao poder” (palavra de ordem de Maio 68)
O Halloween já passou, o Natal está à porta. A imaginação infantil ao poder, tanto nos Estados-Unidos (onde a Toys’R’Us tem sede) como na Rússia (onde a S7 Airlines tem sede)!
Indolência extravagante

- AS LENTAS NUVENS FAZEM SONO
- Indolência aberrante
- As lentas nuvens fazem sono,
- O céu azul faz bom dormir.
- Bóio, num íntimo abandono,
- À tona de me não sentir.
- E é suave, como um correr de água,
- O sentir que não sou alguém,
- Não sou capaz de peso ou mágoa.
- Minha alma é aquilo que não tem.
- Que bom, à margem do ribeiro
- Saber que é ele que vai indo…
- E só em sono eu vou primeiro.
- E só em sonho eu vou seguindo.
- (Fernando Pessoa, Poesias Inéditas, São Paulo, Poeteiro Editor, 2014)
De evento em evento, não me apetece pensar. Pasmo, escuto música e embalo os sentidos. Abandono puro. Não me serve qualquer música. Nem dos gavetões, nem das estantes, mas das raras e singulares, que releguei para as pastas de arquivo. Por exemplo, o folk psicadélico “esquisito” (weird) de Devendra Banhart, que, por sinal, adora Portugal. Conhece?
“O cantor norte-americano Devendra Banhart gostou tanto da recepção que obteve durante o “Festival para Gente Sentada”, realizado na cidade de Santa Maria da Feira, que decidiu homenagear a cidade nesta bonita canção interpretada em espanhol/castelhano”.
Em 2020, regressou a Portugal para apresentar o álbum Ma. Segue a gravação da canção Is This Nice na Antena 3. O vídeo 4 retoma esta canção mas em versão estúdio.
Acrescento a interpretação acústica de Never Seen Such Good Things, um dos seus maiores sucessos.
Miriam Makeba, Mama Africa

Dedico-me cada vez mais a uma lentidão atenta à natureza. Hoje, assisti ao que creio ter sido uma “dança de corte” entre um melro, preto, e uma melra, de tez acastanhada. Ultrapassando raramente uma distância de meio metro entre ambos, o melro aproximava-se, investia, e a melra afastava-se, esquivava. Por vezes, ensaiava pequenos voos de menos de 40 cm de altura pousando no mesmo sítio. Esta “dança” durou cerca de 4 minutos. Fiquei a observar quieto, logo não filmei.
Lembrei-me de Miriam Makeba ao ler o artigo “Jean Rouch, cineasta, antropólogo, engenheiro, africano branco”, de José Ribeiro, a aguardar publicação. Menciona Makeba a propósito do filme anti-apartheid Come Back Africa de Lionel Rogosin (1960) em que esta participa como cantora. Este filme foi o primeiro impulso decisivo para a sua carreira.
Ao telefone disse a uma colega que estava a escutar Makeba. Que não conhecia. Estranhei. Somos almas gémeas no que respeita à música. Conhecer tenho a certeza que conhece, apenas desconhece que conhece, como o Monsieur Jourdain do Bourgeois gentilhomme de Molière (1670). Justifica-se, portanto, dedicar um apontamento a Makeba.
Primeira voz africana com reconhecimento expressivo a nível internacional, Miriam Makeba nasceu em Joanesburgo, em 1932. Cedo rumou para os Estados-Unidos, onde gravou o primeiro álbum a solo em 1960. No mesmo ano, o regime sul-africano proibiu-a de regressar ao país para o funeral da mãe. Empenhada em movimentos cívicos, em 1962, testemunhou perante a Comissão Especial das Nações Unidas para o Apartheid. Com um prémio Grammy em 1965, a sua canção mais popular é Pata Pata (1967). Casou em 1968 com Stokely Carmichael, líder do Partido dos Panteras Negras. O governo dos Estados-Unidos cancelou-lhe o visto quando estava em viagem no estrangeiro. Mudou-se para a Guiné, tendo residido em vários países. Artista e cidadã sempre ativa, tornou-se um símbolo da luta contra o apartheid. Terminado o apartheid, regressou à África do Sul. Foi nomeada, em 1999, embaixadora da boa vontade da ONU. Conhecida como “Mamã África”, é considerada a “rainha da canção africana”. Morreu de ataque cardíaco durante um espetáculo, na Itália, em 2008.
Segue cinco canções de Miriam Makeba.
Pequeno desvio

Descobre-se o que não se espera quando e onde menos se espera. Deparei com a música do cantor, instrumentalista e compositor norte-americano Kishi Bashi numa curta-metragem (these little moments matter: https://vimeo.com/369736156). E gostei. Lembra alguns artistas preferidos. Partilho três músicas, duas interpretadas com o Nu Deco Ensemble: I Am the Antichrist to You; Violin Tsunami; e Atticus in The Desert.
De uma extremidade à outra

A uma amizade reencontrada
olhamos para o lado
uma criança chora
esquecida da dureza do vento
quando a terra é seca
e os cardos invadem as dunasleva no olhar o sal
nas mãos um barco de papel
asas longas
à espera de um sopro
e um bafo quente
de boca interiornão bastam as pegadas na areia
pés de planta augadaerguemos o rosto
beijamos a espuma dos dias
perguntamose se a morte não basta?
(Almerinda Van Der Giezen. Excerto de poema)
Vivemos tempos ambivalentes. Aliás, o mundo sempre foi ambivalente. A lentidão convive com a aceleração e a luxúria com a humildade. Juntas, vizinhas ou à distância. Ora devoramos, ora ruminamos. Ávidos ou resignados, “vogamos num meio vasto, sempre incertos e flutuantes, impelidos de uma extremidade a outra” (Pascal, Blaise, Pensamentos, Artigo XVII – Conhecimento geral do homem). Consoante o estado do mar.
Criativos e invulgares, os anúncios Dry e Second Edition, da, Zara justificam uma atenção e um olhar redobrados.
Voz e contrabaixo: Esperanza Spalding
O que é bom dificilmente se estranha.
Meia-verdade do dia:
Nem sempre são de condenar as más ações; podem ser bem intencionadas. Tão pouco devemos louvar sempre as boas ações; podem ser mal intencionadas. Esta ressalva não advoga nem a irresponsabilidade nem a primazia das intenções face aos resultados.
As crianças na escola

Contar histórias curtas é uma arte. Os anúncios Clean Conscience, da Usa, e Love Note, da Protection Environnement, constituem um bom exemplo. Duas pérolas do arquivo culturepub. Mas outros anúncios parecem requerer mais tempo como que para uma maior abertura ou massagem do espírito. É o caso do anúncio The Lunchbox, da Bufdir.


Ação de graças

Apetece-me dar graças disposto a retomar caminho, com a máxima de Ticiano no quadro Prudência (1565-1570)
” EX PRAETERITO /PRAESENS PRVDENTER AGIT/ NI PVTVRA ACfIONE DETVRPET, “Do passado, o presente age prudentemente para não estragar a ação futura”.
e ao ritmo do Andante con moto e poco rubato, de George Gershwin.
Volvido apenas um dia após a publicação deste artigo, entendo por bem acrescentar o texto, rigoroso e agradável, que Erwing Panofsky (1892-1968) dedicou ao quadro Alegoria da prudência, de Ticiano: “A Alegoria da Prudêcia de Ticiano – um pós-escrito”, capítulo 4 do livro Significado nas artes visuais, editado pela primeira vez em 1955. Autor clássico, Erwing Panofsky é um dos mais proeminentes historiadores e sociólogos da arte. Pierre Bourdieu redigiu o posfácio da publicação francesa do livro Architecture Gothique et Pensée Scolastique (Éditions de Minuit, 1967). Segue o pdf:
Dizemos melhor quando não dizemos nada
Regresso à música country e ao cantor e compositor Keith Whitley. Seguem dois sucessos do álbum Don’t Close Your Eyes, lançado em 1988, um ano antes da sua morte, com 35 anos, motivada, segundo consta, por um excesso de álcool. A sua voz e as suas canções lembram Don McLean.
