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Esqueletos vampiros

Na Polónia, na Bulgária, na Irlanda e na Itália foram descobertos túmulos medievais com esqueletos de corpos brutalizados: pedras e tijolos enfiados na boca, cabeça entre as pernas, corpos cravados com estacas… São “esqueletos de vampiros”. Pertenciam a cadáveres passíveis de se tornar vampiros. Impunha-se evitar a saída do túmulo. Macabro? Sem dúvida, mas “somos homens: nada do que é humano nos é estranho” (Terêncio). Aliás, esqueletos vampiros soa-me algo familiar, soa-me a vampiros sem esqueleto. Seguem o documentário Vampire Skeletons Mystery, da National Geographic, mais os “Vampiros” de José Afonso.

National Geographic. Vampire Skeletons Mystery. Documentário. 2012.

José Afonso. Vampiros. Álbum República. 1975.

Morte com bebé ao colo

Fig 1. Hieronymus Bosch. A Tentação de Santo Antão (triptico). Pormenor.1505.

Fig 1. Hieronymus Bosch. A Tentação de Santo Antão (triptico). Pormenor.1505.

Quando a causa é boa, qualquer momento se presta. Sensibilizado pela comissão multidisciplinar para a natalidade, contribuo, sem saber como, com o seguinte apontamento.

Sarcofago di Stilicone. Chiesa de Sant'Ambrogio. Milano. Séc. IV.

Fig 2. Sarcofago di Stilicone. Chiesa de Sant’Ambrogio. Milano. Séc. IV.

Georges_de_La_Tour.  L'adoration des bergers. Cerca de 1645.

Fig 3. Georges de La_Tour. L’adoration des bergers. Cerca de 1645.

No Tríptico As Tentações de Santo Antão, Hieronymus Bosch introduz a figura de uma velha, montada num rato. A velha é um ser híbrido: na cabeça cresce uma árvore e os braços são ramos; a parte inferior do corpo lembra a cauda de um insecto. A velha segura nos braços que são ramos um bebé enfaixado. Naquele tempo, era prática enfaixar os recém-nascidos. Assim é retratado, frequentemente, o menino Jesus no presépio (Figs 2 e 3). Somos confrontados com uma velha na antecâmara da morte que segura, encostado ao ventre, um recém-nascido. Extrapolando, reconhece-se o tópico da morte que dá à luz a vida, tópico amplamente estudado por Mikhaïl Bakhtin. Esta figura convoca ainda, através do hibridismo da velha, os três reinos da vida: o humano, o animal e o vegetal. O enquadramento é cósmico.

Fig 4. James Ensor. A morte a as máscaras. 1927

Fig 4. James Ensor. A morte a as máscaras. 1927

Esta dobra que aproxima os contrários, neste caso a vida e a morte, é um procedimento típico do grotesco, que o barroco não enjeita. Perpassa o tempo. Reencontramos, por exemplo, uma figura semelhante na pintura de James Ensor. No quadro A morte e as máscaras, o único esqueleto presente segura ao colo um recém-nascido (Fig 4).

Fig 5. Mason Williams. Tattoo Skeleton and baby.

Fig 5. Mason Williams. Tattoo Skeleton and baby.

Não se pense que este tópico da morte que sustenta a vida, a um passo de uma morte prenhe, é uma esquisitice imemorial, bizarria da Antiguidade, da Idade Média ou dos construtores de projectos, em suma, dos pré-pós-modernos. A morte com vida insinua-se nos nichos de todas as sociedades, incluindo a nossa. Por exemplo, na moda das tatuagens ilustrada pelos motivos criados por Mason Williams (Fig 5). O grotesco e o barroco, cada um à sua maneira, pegam no líquido, vertem-no no vazio, agitam-no na centrifugadora e servem a mistela, com ou sem pós-humanos, em shots hipermodernos nas orgias inclusivas. Vai um shot de ideias?

 

Uma morte regalada

“Buvons à la mort qui danse à nos côtés” (Henry-Jacques, La Symphonie Héröique, Paris, Aux Editions des “Belles Lettres”, 1921, p. 19). Bebamos à morte, que a vida merece ser bebida. A morte risonha e as danças macabras tiveram o seu momento alto no fim da Idade Média. Mas, espantalhos ou ceifeiros, os esqueletos nunca nos largaram.

Marca: Schincariol. Título: Caveirinhas. Agência: Leo Burnett Brasil. Direção: Rafaela Carvalho. Brasil, Agosto 2012.