Onde os homens?
Os vídeos sobre os prodígios do planeta encantam, mas deixam um travo amargo. Onde estão os homens?
“Donde los hombres?”, cantam os Aguaviva, a partir de um poema de Rafael Alberti: Balada para los poetas andaluces de hoy. A música é de 1970. Segue o ficheiro áudio.
Aguaviva. Poetas Andaluces de ahora. 1970.
“Donde los hombres?”Os Tangerine Dream, fundados em 1967, encontram cachos humanos. O vídeo Sorcerer (2014) assinala a estética da repetição e da domesticação. Os homens adestram-se, mais do que cães, normalizam-se, mais do que frangos, e arrebanham-se, mais do que carneiros. Os homens são operacionais. E os homens apinham-se para ver homens adestrados, normalizados, arrebanhados e operacionais. Valha-nos Deus!
Tangerine Dream. Sorcerer. 2014.
Balada para los poetas andaluces de hoy
¿Qué cantan los poetas andaluces de ahora?
¿Qué miran los poetas andaluces de ahora?
¿Qué sienten los poetas andaluces de ahora?Cantan con voz de hombre, ¿pero dónde están los hombres?
con ojos de hombre miran, ¿pero dónde los hombres?
con pecho de hombre sienten, ¿pero dónde los hombres?Cantan, y cuando cantan parece que están solos.
Miran, y cuando miran parece que están solos.
Sienten, y cuando sienten parecen que están solos.¿Es que ya Andalucía se ha quedado sin nadie?
¿Es que acaso en los montes andaluces no hay nadie?
¿Que en los mares y campos andaluces no hay nadie?¿No habrá ya quien responda a la voz del poeta?
¿Quién mire al corazón sin muros del poeta?
¿Tantas cosas han muerto que no hay más que el poeta?Cantad alto. Oireis que oyen otros oídos.
Mirad alto. Veréis que miran otros ojos.
Latid alto. Sabréis que palpita otra sangre.No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo.
encerrado. Su canto asciende a más profundo
cuando, abierto en el aire, ya es de todos los hombres.Rafael Alberti
Fumar é feio
As três parcas da higiene pública são o nojo, a culpa e a morte. Moram no jardim da publicidade degradante. Estes três anúncios, dois da Fundação Portuguesa de Cardiologia e o terceiro da Asociación Española Contra el Cancer, convocam o nojo, à boa maneira dos anúncios anti tabaco do início dos anos 2000. Estes vídeos são difíceis de encontrar. Desconhece-se o motivo.
Valsa

Sílvia Pérez Cruz actua no Theatro Circo, em Braga, esta quinta à noite. A lotação está quase esgotada. Sílvia Pérez Cruz é uma grande voz. Diria mais! É uma grande voz que sabe cantar. “Pequeño Vals Vienés” baseia-se na música que Leonard Cohen compôs (Take This Waltz, 1986) para o poema Pequeño Vals Vienés, de Federico García Lorca. Os gostos tendem a cruzar-se. São as tais afinidades electivas… Ontem. Leonard Cohen, hoje, Sílvia Pérez Cruz. Dancemos, não de lado, mas de frente.
Sílvia Pérez Cruz e Raúl Fernández Miró. Pequeño Vals Vienés. Granada. 2014.
Ventos
A edição da Deutsche Grammophon de 1970 do Concerto de Aranjuez, de Joaquín Rodrigo, interpretado por Narciso Yepes, incluía no lado B a Fantasía para un Gentilhombre. Habituei-me a virar o disco. Neste vídeo, observa-se Narciso Yepes a tocar uma guitarra de dez cordas.

Paula Rego. Inês de Castro. 2014.
De Espanha, também vêm bons ventos. Tenho andado às voltas com a história de Inês de Castro. Não sei se é uma tragédia, mas pontificam os excessos da fraqueza do poder. De Espanha, veio Inês de Castro, na comitiva de Constança, que casou com D. Pedro. Foi a incerteza quanto às reacções de Espanha que levou D. Afonso IV a decidir a morte de Inês de Castro. A meteorologia é complicada. Nem sempre se sabe de onde sopram que ventos.
Joaquín Rodrigo. Fantasía para un Gentilhombre. Interpretação de Narciso Yepes.
Sexo angelical

Mostra pouco e vê-se muito! Há tentações a que nem os anjos de pedra resistem. O anúncio Little Angel, da Cachemir, é subtil. Conta uma quase não história e incentiva o público a co-construí-la.
Marca: Cachemir. Título: Little Angel. Agência: Tapsa Y & R Madrid. Espanha, 1999.
A configuração do anúncio The Nuns, da Rubbert Cement, é semelhante, mas propõe uma história e apela menos à co-construção por parte do público. Ambos os anúncios, espanhóis, são atrevidos e ternurentos.
Marca: Rubber Cement. Título: The Nuns. Agência: Casadevall. Direcção: Eduardo MacLean. Espanha, 1992.
Sexualidades 2
Com a aproximação da Primavera, tudo desperta. Até a sexualidade. Sabia que andar num Audi A1 é algo como fazer amor? “Llamémoslo amor” confirma o anúncio: Audi A1, o carro do amor, parado ou em movimento. Uma bela colagem: sexo e máquina.

Devendra Banhart.
A música é do norte-americano Devendra Banhart, um compositor e intérprete sui generis. Acrescento uma segunda música bastante antiga: Inaniel, do álbum Cripple Crow (2005).
Marca: Audi A1. Título: Amor. Agência: DDB España. Direcção: David Vergés. Espanha, Fevereiro 2016.
Devendra Banhart. Inaniel. Cripple Crow. 2005.
Bananas
Um anúncio simples, muito simples, assente numa ideia simples, muito simples, mais simples do que o ovo de Colombo. O comércio injusto funciona como um garrote para os produtores de fruta. As bananas sugerem o garrote.
Por falar em garrote, em 1974, em Espanha, ainda houve execuções com recurso ao garrote. Foi um escândalo internacional. Recordo ter desenhado, a pontilhado, uma caricatura com o Franco numa cadeira de rodas a apertar o garrote.
Por falar em bananas, não convém esquecer a famosa saia de bananas da dançarina e actriz Josephine Baker. Tal como no anúncio, trata-se de uma adaptação/deslocação das bananas.
Anunciante: Oxfam International. Título: Let’ Make Fruit Fair- Now! Agência: M&C Saatchi Berlin. Direcção: Eric van den Hoonaard. Alemanha, 2015.
Josephine Baker. Dança das Bananas. Follies Bergères. 1927.
Não há dois sem três! Se bananas lembram bananas, então também lembram uma banana: a banana dos Velvet Underground e do Andy Wahrol.
Velvet Underground. Femme Fatale. Velvet Underground. 1967. Com capa e produção de Andy Wahrol.
O triunfo sobre a morte
No artigo precedente, visitámos a Igreja de São Martinho, em Artaíz, Navarra, para apreciar uma figura com três faces. Cumprido o objetivo, seria curial retomar o fio de rumo. Mas o olhar vadio adora desviar-se. Deleita-se a abarcar o conjunto e atarda-se nos pormenores, seguindo uma cinestesia cara a Blaise Pascal (Pensamentos, 1670) e a Edgar Morin (Comune en France, 1967). Já que estamos na Igreja, convém aproveitar. O olhar vadio é oportunista, ávido de “factos imprevistos, anómalos e estratégicos” (Robert K. Merton, Social Theory and Social Structure, 1949). É flâneur (Charles Baudelaire, Georg Simmel, Walter Benjamin). Deambula até se perder, sem lograr resultados transaccionáveis.
Compensa dar a volta à igreja. O cachorro com a mulher pecadora a parir uma criança é figura recorrente. O falo ainda mais. Encontramo-lo onde menos se espera. Nas cenas da Bíblia esculpidas nos espaços entre os cachorros, cativa, sobremodo, a atenção o episódio da descida de Cristo ao Inferno. A escultura mostra Cristo a resgatar, com uma mão, Adão da boca do inferno; com a outra segura o bastão com a cruz, assente numa caveira. Eis um “facto imprevisto, anómalo e estratégico”.
Será que existem imagens semelhantes? Percorremos, na Internet, cerca de uma centena de pinturas e esculturas dedicadas à descida de Cristo ao inferno. Em boa parte, o bastão está ausente. Nas outras, o bastão ora é meramente simbólico, ora desempenha duas funções: ajudar a arrombar a porta do inferno; ou subjugar o demónio aprisionado. Em nenhum caso, o bastão se apoia numa caveira.
Entre a crucificação e a ressurreição, Cristo abre as portas do inferno e liberta os santos, começando por Adão e Eva. Quanto aos demónios, ou estão acorrentados aos pés de Cristo, ou estão presos nos destroços da porta ou se mantêm à distância. Em algumas imagens, raras, Cristo subjuga o diabo com o bastão.

The Harrowing of Hell. Bibliothèque nationale de France, detail of f.370r. Augustine, De Civitate Dei. 1370.1380.
Na descida ao inferno, Cristo vence o diabo, as trevas e a morte. Vence a morte pela sua ressurreição e pela ressurreição dos santos: ”Os sepulcros se abriram, e os corpos de muitos santos que tinham morrido foram ressuscitados” (Evangelho de São Mateus, 27: 52). Na Igreja de São Martinho de Artaíz, está esculpido o triunfo de Cristo sobre a morte, tal como rezam as escrituras. Não registei nenhuma imagem equivalente. Presume-se que existem, mas raras. É preciso desencantá-las. Muito tenho escrito sobre o triunfo da morte. É compensador escrever, nem que seja por uma vez, sobre o triunfo sobre a morte.
Termina mais uma travessia. Saltou-se do híbrido de duas faces dos Dvein (pormenor) para o “Janus” da Igreja de São Martinho de Artaíz (pormenor); observaram-se as esculturas da igreja (panorama) retendo a cena com a descida de Cristo ao inferno (pormenor); para comparação com imagens congéneres, alargou-se o olhar à Internet (panorama). O olhar vadio entrega-se à deriva de movimentos e à alternância de planos, ora micro, o pormenor, ora macro, o panorama. Pelo caminho acontece a aprendizagem e a descoberta. Neste mundo, é preciso invocar alguém para ser alguma coisa. Uma vela pelo Paul S. Feyerabend (Against Method: Outline of an Anarchistic Theory of Knowledge.1975)!
Galeria de imagens: a descida de Cristo ao inferno.
Positividade

Fiquei agradavelmente surpreendido pela campanha “construye tu mundo” da ONG espanhola FAD (Fundación de Ayuda contra la Drogadicción). Acrescento, por isso, um segundo anúncio. Repito o que escrevi acerca do primeiro: é possível fazer anúncios de consciencialização de elevada qualidade apostando na criatividade positiva.
“Try! Create a why not, a just because. Create a place to be, create a nonsense. Create what you like, but create something, because the more things you create in your life, the less room is left for drugs” FAD, Create).
Anunciante: FAD. Título: Create. Agência: Publicis, Spain. Direcção: Marc Coronas & Lorena Medina. Espanha, Março 2015.
Velho do Restelo

A publicidade dita de consciencialização suscita algumas reservas. Às vezes, engana-se no alvo. Em vez de denegrir o produto ou o processo, denigre o consumidor ou o portador (por exemplo, o alcoólatra ou o condutor infrator). Aponta ao vício ou ao dano e acerta na vítima. É certo que as vítimas não são anjos, mas nós também não somos os reis magos. A publicidade de consciencialização pode produzir efeitos nocivos. Acerta-se na vítima e falha-se o objetivo. Descuida-se a adesão e a eventual conversão das vítimas. Alguns anúncios sofrem de excesso de focalização. Têm mais palas do que olhos. Embrenham-se em túneis do entendimento. Mas o efeito mais nocivo de alguma publicidade de consciencialização prende-se com o modo, com a orgânica, dos anúncios. Raros resistem ao rebaixamento das vítimas, dos “protagonistas”. Para lutar contra um vício ou uma mentalidade, serão imprescindíveis imagens de uma mulher a vomitar na cara de outra?

Theodor W. Adorno
Um homem a agredir à paulada uma mulher transeunte? Comparar alguém a um zombie? Pavonear um carro carnavalesco com um coro de doentes com cancro da boca, da garganta e dos pulmões? Cena mais grotesca do que as aberrações dos filmes Galerie des Monstres (1924) e Freaks (1932). Vale a pena ler A Personalidade Autoritária (Adorno et alii,1950), principalmente a parte relativa à Escala F (F de fascista; ver artigo de Theodor Adorno, em anexo).
Acrescem questões de foro ético, senão civilizacional: é desejável amesquinhar os outros? E exibir publicamente a miséria alheia? Com meios de comunicação que atingem toda a população? Que atitudes e que valores queremos promover? Um estudo de Esmeralda Cristina Tauber mostra que a maioria das crianças não percebe estes anúncios. E os adultos? Eu também não. Maquiavel sustentou que os meios justificam os fins. Se o disse, pelos vistos, nunca o escreveu. No entanto, para justificar os meios com os fins não é preciso dizer nem escrever, basta fazer.
Gosto de desconversar. O anúncio espanhol La gran sala de espera, da FAD (Fundación de Ayuda contra la Drogadicción) representa o tipo de anúncio de consciencialização digno de particular apreço. Os toxicodependentes são caracterizados como pessoas comuns, sem o mínimo sinal de distinção. Nenhuma degradação, nenhum estigma. O slogan dirige-se a todas as pessoas, toxicodependentes ou não: “los que esperan el momento perfecto para hacer algo que sepan que quizás nunca lo sea. No esperes para construir”.
Anunciante: FAD. Título: La gran sala de espera – Chica. Agência: Publicis. Direcção: Toño Mayor. Espanha, Fevereiro 2016.







