Campanhas de m*rda

Ça sent la mer d’ici (trocadilho francês)
Acontece as novidades chegarem aos molhos. Com os anúncios “La campagne de merde”, “Conquer the First School Poo” e “Le Studio”, temos elementos para iniciar um tratado de coprologia. Abordam temas fecais, desde a prevenção até à libertação, passando pela depuração.
Imagem: Ilustração do livro Gargantua

O texto mais estapafúrdio que conheço nesta matéria é da autoria do François Rabelais: o capítulo XIII da obra Gargântua (1534), intitulado “Como Grandgousier reconheceu a maravilhosa inteligência de Gargântua graças à invenção de um limpa cu”. Cinco páginas de delírio grotesco, cuja leitura pode ser escutada nos dois vídeos que seguem aos anúncios.
Imagem: O pequeno Gargântua segurando com as mãos um limpa cu. Gravura de Gustave Doré
*****
A Ausência de Deus

Em Cabeceiras de Basto, sexta feira, dia 13, falei muito, talvez demasiado, do diabo, pelos vistos uma espécie de “Absens Deus”. Hoje, lembrei-me deste anúncio. Coloquei-o no Tendências do Imaginário em agosto de 2015 com o seguinte comentário: “Este anúncio macedónio é uma espécie de catequese da ciência mitigada com religião: o jovem Einstein rebate a argumentação do professor com recurso à ciência e em nome da religião” (https://tendimag.com/2015/08/03/a-ciencia-a-bicicleta-a-cigarra-e-a-formiga/). Retomo-o como um lembrete esfíngico.
Brutal
Tenho um amigo que perante uma realidade invulgarmente impactante costuma classificá-la como “brutal”. Este anúncio de consciencialização da Change The Ref é deveras impressionante. O desfecho, criativo, é surpreendente.

Fundamentado em dados dos Centros de Controle de Doenças (CDC) que revelam que as armas de fogo são a principal causa de morte de crianças e adolescentes, o anúncio de sensibilização “American Cancer Story” confronta a violência armada e o câncer pediátrico a partir da experiência de uma jovem que tendo sobrevivido a um cancro se depara com um tiroteio no seu regresso à escola.
As crianças na escola

Contar histórias curtas é uma arte. Os anúncios Clean Conscience, da Usa, e Love Note, da Protection Environnement, constituem um bom exemplo. Duas pérolas do arquivo culturepub. Mas outros anúncios parecem requerer mais tempo como que para uma maior abertura ou massagem do espírito. É o caso do anúncio The Lunchbox, da Bufdir.


Amor de filho
O anúncio tailandês Gratitude, da CP Group, ajusta-se ao gosto oriental: longo, lento e emotivo. Uma história muito bem contada. Era uma vez um professor que levava a mãe para a sala de aula…
Marca: CP Group. Título: Gratitude. Agência: Ogilvy Group Thailand. Direcção: Kumphol Witpiboolrut. Tailândia, Setembro 2018.
O sucesso do talento
“Ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras” (Heráclito de Éfeso). Heráclito não leu o Principezinho, caso contrário saberia que a água que se afeiçoa a uma ponte não procura outra.
Alguém, porventura uma criança, tem um talento, presumivelmente por geração espontânea, um talento desconhecido. Alguém, habitualmente um professor, um padre, um assistente social ou um psicólogo, um “especialista do humano”, descobre, quase sempre acidentalmente, o talento. Os especialistas do humano costumam ser mediadores: comunicam a descoberta ao poder. O poder consagra e o público venera. Esta narrativa do sucesso é amplamente partilhada. Uma partilha ingénua.
Marca: Hewlett Packard. Título: Paro. Agência: HP Studios. Direcção: Oni Sen. Índia, Março 2018.
Lição de moral
O anúncio The Book, do United Overseas Bank, propõe uma comovente lição de moral: 1) não devemos apropriar-nos do que pertence a outrem; 2) o valor sentimental suplanta o valor pecuniário; 3) esta sabedoria deve passar de pais para filhos. Apostado no valor da honestidade, o anúncio lembra as fábulas de Esopo e de La Fontaine. Lembra, também, as histórias dos livros da escola primária: A Carochinha e o João Ratão, o rato do campo e o rato da cidade; São Pedro e a ferradura; as unhas dos candidatos a emprego e outros ensinamentos do género. A retórica das boas maneiras prosseguia no ciclo preparatório com uma disciplina chamada, creio, civilidade.
De pé, colados às carteiras, olhos postos no poder, entoávamos as nossas cantorias:
“Vamos cantar com alegria
E começar um novo dia
Para nós o estudo só nos dá prazer
E faremos tudo, tudo para aprender.
Não encontrei a letra desta canção na Internet. Creio que não a sonhei. Cantar, não a canto, que espanto o gato. Mas, ideologias à parte, não convém apagar a memória que à memória pertence. No que me respeita, vou compassar uma nova cantiga a caminho da Universidade: vamos cantar com alegria e começar um novo dia…
Marca: United Overseas Brank – UOB. Título: The Book. Agência: BBH (Singapura). Singapura, Fevereiro 2018.
As tesouras do preconceito
O anúncio da Otrivin culmina com uma surpresa. A menina apenas está constipada e nós sofremos de preconceito. Pergunto: quem não reagiu como a professora?
Este anúncio (Otrivin) e o do post anterior (Cadillac) não deixam de me intrigar. Nenhum predispõe bem o espectador. Não lhe levantam o ego nem lhe estimulam o humor. Geram apreensão e constrangimento. São disfóricos. Deixando Masoch em paz, somos tentados a admitir que o desprazer pode cativar ou, no mínimo, convencer. O medo, a frustração, a raiva, a dor também são sentimentos capazes de nos mover. Esta é, por sinal, a receita adoptada por boa parte da publicidade dita de sensibilização.
Anunciante: Novartis. Título: Scissors. Agência: Saatchi & Saatchi. Direcção: Sam Holst. Suíça, 2011.







