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Portinari e o burro montado às avessas

Candido Portinari. Circo. 1932.
Figura 1. Cândido Portinari. Circo. 1932.

Estou a ler teses, relatórios e trabalhos práticos. “Não há coisa mais gostosa no mundo”, diria Sancho Pança! Quero acreditar que quanto mais um professor é “experiente” mais tende a aprender com os alunos. Entre outras razões, porque lhes dá a oportunidade.

Cândido Portinari. Circo. 1933.
Figura 2. Cândido Portinari. Circo. 1933.

Hoje, aprendi com o trabalho de uma aluna dedicado ao pintor Cândido Portinari e ao estilista Ronaldo Fraga. No trabalho, aparece em duas pinturas de Portinari o motivo do burro montado às avessas (ver figuras 1 e 2). A aluna não o relevou. Não vinha a propósito. Mas há quem ande às voltas com a figura do burro montado às avessas. Atente-se nos seguintes artigos:
Máscaras – Bugiada e James Ensor: https://tendimag.com/2015/03/26/mascaras-bugiada-e-james-ensor/
O burro e a violência doméstica: https://tendimag.com/2015/03/29/o-burro-e-a-violencia-domestica/
Sileno, o vinho e o burro: https://tendimag.com/2015/03/28/sileno-o-vinho-e-o-burro/
Tolos e burros: https://tendimag.com/2015/02/19/tolos-e-burros/.

Cândido Portinari. Circo. 1932.
Figura 3. Cândido Portinari. Circo. 1932.

“Cândido Torquato Portinari, um dos doze filhos de uma família humilde de imigrantes italianos, nasceu em 30 de dezembro de 1903 em Brodowski, interior de São Paulo. É um dos mais importantes ícones da arte moderna brasileira com quase 5 mil obras (…)
Em 1929, Portinari instala-se em Paris, conhece movimentos artísticos como o expressionismo e surrealismo. Mesmo como bolsista não mantém uma boa produtividade criativa mas vive um momento decisivo para a definição do seu estilo. A distância da terra natal despertou no pintor saudosismo e admiração por sua origem o que será uma das características mais fortes de sua obra. O que pode ser observado na carta enviada à Rosalita Almeida:
“Daqui fiquei vendo melhor a minha terra – fiquei vendo Brodowski como ela é. Aqui não tenho vontade de fazer nada… Vou pintar o Palaninho, vou pintar aquela gente com aquela roupa e com aquela cor. Quando comecei a pintar senti que devia fazer a minha gente e cheguei a fazer o “baile na roça”. Depois desviaram-me e comecei a tatear e a pintar tudo de cor – fiz um montão de retratos. Eu nunca tinha vontade de trabalhar e toda gente me chamava preguiçoso. Eu não tinha vontade de pintar porque me botaram dentro de uma sala cheia de tapetes, com gente vestida à última moda… […] Uso sapatos de verniz, calça larga e colarinho baixo e discuto Wilde, mas no fundo eu ando vestido como o Palaninho e não compreendo Wilde”.

Cândido Portinari. Circo. 1932
Figura 4. Cândido Portinari. Circo. 1932.

Retorna ao Brasil em 1931, e inicia sua participação no movimento modernista brasileiro (…) Portinari, em 1932, apresenta sua primeira exposição com em torno de 60 obras inspirada na sua memória de infância. Naquele momento confirma o desejo que tinha de formatar uma arte genuinamente brasileira, retratar nos quadros sentimentos e memória da sua origem.

Cândido Portinari. Circo, 1942.
Figura 5. Cândido Portinari. Circo, 1942.

Nesta fase, é um artista que retrata com cores terrosos, contrastes entre a paisagem e a figura humana, traços borrados as vivências e paisagens da terra onde nasceu. É o estilo revelado em suas obras após o retorno da Europa. Cenas da sua infância simples e interiorana, como o Circo, o Futebol e a Festa em Brodowski” (Da Costa, Patrícia Pereira Cardoso, 2017, Análise Cândido Portinari X Ronaldo Fraga, Trabalho para a disciplina Sociologia e Semiótica da Arte, Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, Universidade do Minho, p. 5 a 7).

Fancisco de Goya. Tu que no puedes. 1799.
Figura 6. Fancisco de Goya. Tu que no puedes. 1799.

Nos anos trinta, Cândido Portinari produziu uma série de quadros envolvendo o ambiente do Circo. Em alguns destes quadros, sobressai a figura do burro montado às avessas, símbolo, pelo menos desde a Antiguidade, de desordem, caos e inversão do mundo. Nos circos de Cândido Portinari, os burros são montados por palhaços ou arlequins; na Antiguidade, pelo bêbedo Sileno, na Idade Média, por um falso arcebispo eleito para rir e nas Bugiadas de Sobrado, por um camponês mascarado. Tudo figuras da desrazão transitória e marginal.

Se convocarmos a gravura de Goya, Tu que no puedes (Figura 6), insinua-se uma dúvida incómoda: o que vale mais, montar burros às avessas ou carregá-los às costas, como tantos carregamos?

Preguiça neuronal

the-beekeeperNão se excedam a ensinar
Quero aprender
Não desenrolem mapas
Quero perder-me
Tanta gravidade
Impede-me de saltar
O caminho é caminhada
E o destino ainda não é nada
Apetece-me dançar uma valsa
Abraçado à estupidez
Que bate leve, levemente
Como quem chama por mim (AG)

Eleni Karaindrou notabilizou-se com o disco Eternity and a Day (1998). To Vals Tou Gamou, do disco The Beekeeper / O Melissokomos, foi editado muito antes, em 1986.

Eleni Karaindrou. To Vals Tou Gamou. The Beekeeper / O Melissokomos. 1986.

Expectativas estudantis

 

bem-vindos-a-fmu

Os estabelecimentos de ensino aderem cada vez mais à publicidade. Visam públicos, disponibilizam serviços e têm problemas. Em tempo de início de aulas, este anúncio brasileiro vem a talhe de foice. Dá que pensar. Não por falta mas por excesso de clareza. Transparência, diriam os bem-falantes. De que precisa um jovem? Da família? Da amizade? De lazer? Um jovem não precisa de lapsos, estorvos ou luxos. Quando muito um sopro de “romance”, a cenoura do anúncio. Do que um jovem precisa é de “alguém que se preocupe com o seu cérebro” e de “querer mais da vida. Mais, um pouco mais…”

Marca: FMU /FIAM-FAAM. Título: Mas antes. Agência: LDC. Direcção: Paulo Mancini e Lucas Fazzio. Brasil, Setembro 2016.

Para além da tecnologia

Cibertec“Vimos algo muy cierto en estos tiempos, y es que las personas ya no eligen un producto solo porque tenga buena tecnología, sino porque existe una buena gestión de la marca, un diseño único y una excelente comunicación de por medio. La tecnología, por sí sola, ya no es suficiente para el éxito”.
(Tin Sánchez e Fernando Ivo, directores criativos executivos da campanha).

Este anúncio da Cibertec (Perú) é convincente. Pela escolha do smartphone como objecto técnico, pela inscrição dos três novos cursos da Cibertec (Design, Gestão e Comunicação) e pelo objectivo: conseguir que os “chicos se sientan movidos a optar por un instituto que vaya más allá de enseñar solo tecnología” (Claudia Horna, directora de marketing da Cibertec). Este discurso por parte de uma escola centrada nas tecnologias é admirável. Reconheça-se ou ignore-se, a realidade espera-nos. E a realidade é mais construída pelos homens do que pelas coisas.

Marca: Cibertec. Título: Smartphones. Agência: Young & Rubicam Perú. Direcção: Toño Sarria. Perú, Setembro 2015.

Campanha pedagógica

Os seguidores do Tendências do Imaginário são exigentes. Sustentam que a antevisão da “campanha de prevenção contra o ensino”, inspirada nas campanhas contra o consumo de tabaco, não está correta (http://tendimag.com/2015/05/31/futura-campanha-sanitaria/). Devia ser a cores, como no Canadá, desde 2001, ou em Portugal, a partir de 2016. Para me penitenciar, segue um protótipo bem colorido. com a Duquesa Feia, de Quentin Massys (1525-30). Acrescento um painel, em alta resolução, com imagens de embalagens brasileiras de tabaco.

Campanha pedagógica

verso-do-cigarro

Futura campanha sanitária

A luta contra o tabaco é apenas um passo no sentido da cura universal. Outras campanhas se seguirão, por exemplo, contra o ensino enquanto causa de transtornos psíquicos. Para prevenir o risco de perturbação mental dos professores, encara-se utilizar os manuais escolares de um modo semelhante ao dos maços de cigarros. Eis uma antevisão.

Capa de manual

Protótipo de capa de manual escolar

Contra-capa de protótipo de manual escolar

Protótipo de contra-capa de manual escolar