De Maria em Maria
Da Virgem Maria, com o filho no colo, à Maria Carta, com a Sardenha na voz, insinua-se um pequeno atalho irresistível.
Maria Carta (Sardenha, 1934; Roma, 1994), foi uma cantora, atriz e poetisa italiana que explorou as múltiplas facetas da música tradicional da Sardenha, em especial o cantu a chiterra (um tipo de canção folclórica). Soube atualizar a tradição, acrescentando um toque pessoal.
Seu belo rosto, o orgulho e a graça de sua postura, mais do que um símbolo, são a personificação da Sardenha intangível e selvagem que sempre amei. Quando a sua voz calorosa e poderosa se eleva e preenche o espaço, horizontes infinitos se abrem, mergulhando na história. Tendo conhecido Maria Carta, afirmo mais uma vez que os únicos grandes homens da Sardenha foram mulheres” (Giuseppe Dessi, Apresentação do LP Delirio, 1974).
Música para o Paraíso

Os anjos tocam e cantam no Paraíso. Nos momentos felizes, ouvem-se na Terra. Nos momentos abençoados, a voz e a música humanas também poderão alcançar o Céu.
O bom, o mau, o feio e o crítico
Somos um país de marretas. Tempo de pandemia, tempo de crítica. Crónicas de maldizer.
Anúncios do coração

O anúncio The Desert Cowboys, da Skoda, é uma paródia dos westerns de Sergio Leone. É deveras gratificante ver realizadores investir em pormenores em que poucas pessoas reparam: o anúncio foi rodado no Deserto de Almeria, em Espanha, à semelhança do filme Era Uma Vez no Oeste (1968). Parafraseando Shakespeare, um pormenor, um pormenor, o meu reino por um pormenor! O anúncio aborda o isolamento e a desertificação. Uma realidade premente. Pelos vistos, a Skoda pode ajudar a encurtar distâncias. Os “anúncios do coração” estão na moda. Nem sempre foi assim. Esta irmandade da salvação é recente. Empenhado e esmerado, o anúncio cumpre o que promete.
Quem diz Sergio Leone diz Ennio Morricone, retomado na música do anúncio. Segue uma versão orquestrada da música do filme Era uma vez no Oeste, dirigida pelo próprio compositor. Goste-se ou não. O gosto está em vias de libertação: da vanguarda ou da retaguarda? Das elites ou das massas? A presumida “indústria cultural” não se consubstanciou na desqualificação da criação cultural. Antes pelo contrário, a criação cultural de qualidade parece tender, ao arrepio das hierarquias e dos nichos, a ser inclusiva. O “inacesso” aos bens culturais já não é o que era. Sem barbarização do gosto, nem democratização da cultura. Uma falácia tangível.
Ler também cansa
Ler, ler, ler… Não o que apetece, mas o que se impõe. Prefiro ouvir, por exemplo, Ennio Morricone, uma arca sem fundo, onde se encontra, normalmente, a emoção que se procura. Fez 88 anos. Em 2016, ganhou o Óscar pela banda sonora do filme Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino, que inclui a música Ester. Ennio Morricone dirige, em 2007, a música Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo, na praça de São Marcos, em Veneza. Um espectáculo como só os italianos! O diálogo entre os instrumentos de sopro é simples mas sublime.
Ennio Morricone . Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo. Concerto em Veneza. 10.11.2007.
Ennio Morricone. Ester. Os Oito Odiados. 2016.


