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Boas festas

Pablo Picasso. Pai Natal. 1960.

Não é apenas por ludibriar os nossos fihos que os mantemos na crença do Pai Natal : o seu fervor aquece-nos, ajuda-nos a nos enganar a nós próprios e a acreditar, uma vez que eles acreditam, que um mundo de generosidade sem contrapartidas não é absolutamente incompatível com a realidade (Claude Lévi-Strauss, Tristes Tropiques, 1955).

Na infância, enviavam-se os postais de Natal por esta altura. Os correios tinham por costume engarrafar e a mensagem podia não chegar a tempo. Agora, não é preciso pressa. Na Internet, nada se engarrafa, tudo chega antes de partir. Assim vai a vida. A mensagem não vai alcançar muitas pessoas com quem sonho e vai ser lida por pessoas que ainda não comecei a sonhar. É o milagre da ultraconectividade, da técnica na era da pós-modernidade. Não impede que àquelas pessoas que contam, os “outros significativos”, continuo a ter que chegar a pé. Seja como for, sinto pressa de enviar os meus votos ao mundo. Com um fio de arte.

Badya é um dos investimentos da empresa Palm Hills Developments. Segundo os anunciantes, em Badya, “a vida imita a arte”. O anúncio é um morphing que contempla inúmeras e belas obras de arte. A empresa e o anúncio são egípcios. O menino Jesus também foi para o Egipto logo a seguir ao nascimento em Belém. Foram Jesus, Maria e José, mais a burrinha.

Há jogos com que adoro desperdiçar tempo. No anúncio Badya identifiquei os seguintes autores (quem quiser jogar às descobertas, o melhor é parar a leitura): David Hockney, Pet Mondrian, Andy Wahrol, Édouard Manet, Edward Hopper, Frida Kahlo, Paul Gauguin, Henry Rousseau, johannes Vermeer, Vincent Van Gogh, René Magritte.

Desejo-lhe boas festas, um feliz Natal e um bom Ano Novo!

Marca: Palm Hills Developments/ Badya. Título: Life imitates art. Agência: Good People Content / FP7. Direcção: Ali Ali. Egipto, Junho 2018.

Desigualdade nas imagens de género

Tantos pénis pintados e esculpidos e tão poucas vaginas!… Uma discriminação que remonta a tempos imemoriais. Na pré-história a representação do pénis concorre com as esculturas de Vénus (Fig 1 a 3). Até os monólitos pecam por excesso. No antigo Egipto, os jardineiros da religião viram-se gregos para podar os falos das estátuas de deuses e faraós (Fig 4 e 5). Por seu turno, no império romano, os tintinábulos pendurados à entrada das casas eram compostos por falos inconfundíveis, eventualmente, voadores (Fig 6, 7 e 8).

Que fazer? Multiplicar as imagens de vaginas? Eliminar as relativas ao pénis? Cortar e tapar o sexo das esculturas e das pinturas com uma folha de figueira? “Vestir” a nudez do Juízo Final original de Michelangelo na Capela Sistina (ver Vestir os Nus: https://tendimag.com/2012/11/13/vestir-os-nus/)? Ou, ao jeito medieval, enveredar pela castração (Fig 9 a 11)?

Marca: ONF (Office National du Film du Canada). Título : Dessine-moi un Pénis. Agência : Rethink (Canada). Canadá, Março 2019.

No anúncio Dessine-moi un pénis, a ONF, um organismo público canadiano de produção e distribuição de filmes, estima que semelhante discrepância de género provém da nossa ignorância acerca do clítoris. Nem sequer o sabemos desenhar.

12. A flying penis copulating with a flying vagina. Gouache Credit: Wellcome Library, London. Wellcome Images.

Na realidade, segundo as estatísticas, existem na população mais vaginas do que pénis. O problema reside, porventura, no imaginário. Mas deixemos as retóricas. O guache A flying penis copulating with a flying vagina (Fig 12), da Welcome Collection, sugere uma solução paritária: um pénis para uma vagina ou uma vagina para um pénis, sem prejuízo de outras localizações e sexualidades.

Afrodite fotógrafa

A rir e rir, que seja de coisas sérias!

01. Hermafrodita. Musée National Romain (Palazzo Massimo).  Rome.

Hermafrodita. Musée National Romain (Palazzo Massimo). Rome.

No filme Veridiana (1961), de Luis Buñuel, os mendigos aproveitam a saída dos proprietários para promover um banquete. A um dado momento, surge a ideia de tirar uma fotografia. Uma mulher levanta a saia e a “fotografia” acontece (ver A ceia dos pobres).

08. Isis-Afrodite ou estatueta funerária de uma cortesã sagrada. Terracota pintada, 330-30 ac.

Isis-Afrodite ou estatueta funerária de uma cortesã sagrada. Terracota pintada, 330-30 ac.

Afrodite, deusa grega do amor, da beleza e da sexualidade, presta-se à nudez. Ora é representada vestida (Figura 02), ora nua (Figuras 3, 4 e 5), ora nua da cintura para cima (Figura 6), ora nua do umbigo para baixo (Figura 7 a 9). As últimas lembram a máquina fotográfica de Luis Buñuel.

Todas as esculturas selecionadas dizem respeito à grega Afrodite ou à egípcia Ísis. Apenas uma dúvida quanto à Figura 08, por vezes identificada como uma estatueta funerária de uma cortesã sagrada. Nesses termos, de tão parecidas, as estatuetas das figuras 7 e 9 seriam, também, de cortesãs sagradas.

12. Hermafrodita. Império romano. 27 ac-476 dc. Museu do louvre.

Hermafrodita. Império romano. 27 ac-476 dc. Museu do Louvre.

Nesta lógica, algumas esculturas de Hermafrodita (Figuras 10 a 12), quase cópias das estátuas de Afrodite “fotógrafa”, corresponderiam a filhas bonificadas da relação de uma cortesã sagrada com um satélite canadiano. A afinidade entre as figuras de Afrodite e de seu filho Hermafrodita é impressionante. Distinguem-se apenas pela máquina fotográfica.

Por falar em filhos de Afrodite, Aphrodite’s Child era o nome de uma banda grega de rock progressivo criada nos anos sessenta. Esteve sediada na Grécia e na Inglaterra, mas onde colheu mais sucesso foi em França. Na banda, tocavam dois primos: nas teclas, Vangelis, e à guitarra baixo e voz, Demis Roussos. Para que conste, Rain and Tears (1969):

Galeria de imagens

Entusiasmo: Wafers

Freska. MonkeysJá nada excita o ser humano, nada o empolga. Nada? Talvez umas wafers egípcias… Nestes anúncios da Freska, o grotesco convoca dois tópicos típicos: a violência e a sexualidade.

Marca: Freska.Títulos: Be wowed! Kuffar / Be wowed! Monkeys – Zoooo. Agência: Kairo. Direção:  Omar Hilal. Egipto, Dezembro 2012.

Força

Para Alfred L. Kroeber, Ruth Benedict ou Margaret Mead, a humanidade alberga uma enorme diversidade cultural. Numa perspectiva relativista, não há culturas melhores nem culturas piores, apenas culturas diferentes. Esta diversidade cultural tem resistido à globalização, mesmo num domínio tão exposto como a publicidade. É com este espírito que devemos encarar o humor destes anúncios egípcios da campanha Tonger makes you stronger. A “força” expressa nestes anúncios é destrutiva (de um avião, de um prédio e, eventualmente, de uma criança). Esta figura da força, voluntária ou involuntariamente, destruidora é frequente na publicidade e comum a várias culturas.

Marca: Tonger Energy Bar. Títulos: Slingshot / Cooking Pan / Baby. Agência: Thinkk, Cairo. Direção: Hisham Kharma. Egipto, Novembro 2012.

Obsolescência programada e criação destrutiva

Da General Motors dos anos 1920 à atual Microsoft, suspeita-se de um encurtamento propositado da duração dos produtos (a obsolescência programada). Pois na era do hiperconsumismo e do upgrade, raros são os bens que completam o seu ciclo de vida. São ultrapassados, ainda em uso, por outros mais recentes. Estamos perante um “massacre” de objetos motivado pela inovação e pela atualização. Não se trata de obsolescência programada mas de morte precoce. Os anúncios da Etsalat e da Virgin Mobile ilustram esta “criação destrutiva”. Publicados em Agosto, quase em simultâneo, parecem gêmeos. O primeiro, egípcio, elenca uma série de artes de executar um telemóvel, o segundo, norte-americano, uma série de “acidentes felizes” com o mesmo resultado: o apocalipse dos objetos démodés. Ambos anunciam, profeticamente, novos produtos e novos tempos.

Anunciante: Etisalat. Título: Mobile Massacre. Agência: Strategies, Cairo. Direção: Omar Hilal. Egipto, Agosto 2012.

Anunciante: Virgin Mobile. Título: Happy Accidents. Agência: Mother New York. Direção: Guy Shelmerdine. EUA, Agosto 2012.