Deflorestação
Este blogue anda meio macabro. Não é de estranhar. Participo numa equipa de investigação sobre a morte nos media e estou a dedicar-lhe a escrita de um livro. A própria sociedade também anda obcecada com a morte. Tropecei com anúncio argentino Sin bosques nos ahogamos todos, da Greenpeace. O título é sugestivo: nos ahogamos todos. Mas o vídeo reforça: um homem, fechado num recipiente transparente, fica sem ar, à medida que as florestas são destruídas, até ao afogamento. Um “espectáculo” de morte.
Anunciante: Greenpeace. Título: Sin bosques nos ahogamos todos. Agência: Wofbpp. Argentina, Agosto 2016.
Para contrariar esta onda funesta, pesquisei as entradas felicidade, alegria e vitalidade nas bases de anúncios. Saiu este Moved by Magic, da rádio Magic FM. Estimulante.
Marca: Magic FM. Título: Moved by Magic. Agência: Mother. Direcção: Daniel Kleinman. UK, 2003.
Somos bestiais
E, arremessando a Bíblia, o velho abade
Murmurou:
“Há mais fé e há mais verdade,
Há mais Deus concerteza
Nos cardos secos dum rochedo nu
Que nessa Bíblia antiga Ó Natureza,
A única Bíblia verdadeira és tu!…”
(Guerra Junqueiro, A Velhice do Padre Eterno. Poema: O Melro)
Mais um vídeo focado, com humor, nas semelhanças entre os seres humanos e os animais. Assenta no lema: não basta empenhar-se em criar a vida, importa protegê-la! Aprender a “ouvir a natureza” (Victor Hugo).
Para visionar o anúncio, carregar na imagem ou no seguinte endereço: https://www.youtube.com/watch?v=Q8GtYrf9Sz0.
O abismo
Em 2012, participei num documentário dedicado a uma árvore de Guimarães. Competia-me cuidar do simbolismo. A árvore é um ser cósmico vivo que acolhe a vida. Agarra-se à terra, bebe água, eleva-se no ar e consume-se no fogo. É uma ponte vertical entre as profundezas da terra e as alturas do céu. Há quem associe a árvore ao sagrado. E ao demoníaco, também. A árvore ergue-se como um marco da memória individual e colectiva. Quando regresso às origens, visito as árvores: a pereira e a tangerineira partiram sem avisar. Menos dois troncos de memória, menos dois anjos da guarda. Valem-me, para compensar, as rotundas e os semáforos. O anúncio Farewell to the forest, da Unilever, sublinha que, no mundo, a cada minuto, é desarborizado o equivalente a 36 estádios de futebol. Um abismo!
O antropólogo George Condominas publicou, em 1957, o livro Nous avons mangé la forêt (Comemos a floresta; Paris, Mercure de France). Estuda os Mnong-Gar dos planaltos do Vietname. Tinham o seguinte costume: num ano, desbastam uma parte da floresta onde semeiam, por exemplo, arroz; no ano seguinte, cortam outra parte da floresta. Ano a ano repetem a proeza. Até que, volvidos vários anos, regressam ao início onde os espera uma floresta recomposta. E recomeçam “a comer a floresta”… É possível explorar a floresta sem a destruir.
Apontamentos escatológicos II. Criatividade.
Nem todos os anúncios escatológicos são grosseiros. Alguns mostram algum refinamento. Creio ser o caso deste Lion, do Zoo de Adelaide (Austrália), galardoado em Cannes. Curto, quase minimalista. Natural…
Marca: Royal Zoological Society of South Australia Zoo Poo Fertilizer. Título: Lion. Agência: Escape Plan / Anifex, Adelaide. Direcção: Michael Kusack. Australia, 2002.
Prometi, no artigo precedente, uma segunda anedota escatológica:
Sentado no meio do caminho, Zéquinha entretem-se com um monte de bosta.
Vem o padre que, incomodado, lhe pergunta:
– Zéquinha, o que estás a fazer?
– Estou a fazer um padre, responde Zéquinha.
O padre afasta-se ofendido.
Vem a professora que pergunta horrorizada:
– Zéquinha, o que estás a fazer?
– Estou a fazer uma professora.
A professora afasta-se indignada.
O padre e a professora apressam-se a contar o desaforo ao polícia.
O polícia dá uma volta e encontra o Zéquinha mais o monte de bosta no caminho. Com voz grossa, pergunta:
– Zéquinha, o que estás a fazer?
– Não sei!
O polícia, presumido, prossegue a conversa:
– Pensei que estavas a fazer um polícia.
O Zéquinha explica de imediato:
– Para fazer um polícia era preciso mais bosta.
O verde vai à cidade
Tendências do Imaginário publicou uma dezena de anúncios dirigidos por Noam Murro. Não resisto a acrescentar este Emerald Cities. A fantasia é ouro no cinzento. Lembra, por acréscimo, os desenhos do Mordillo.
Marca: Kaiser Permanente. Título: Emerald Cities. Agência: Campbell-Ewald,Los Angeles. Direcção: Noam Murro. USA, 2009.
- Mordillo
- Mordillo
- Mordillo
- Mordillo
Providência
Acabei de ler um livro que dá vontade de ver anúncios publicitários com fundo ecológico. Por exemplo, o Bring Life Forward, da Toshiba. Os conteúdos não brilham pela originalidade: transformar chaminés industriais em ventoinhas eólicas, colocar painéis solares nos telhados, apostar em “transportes inteligentes, ecológicos e integrados”… Mas a mão, o trunfo do anúncio, fascina e inquieta. As soluções ecológicas dependem de uma mão externa? A mão invisível? A mão de Deus? A mão do Diabo? A mão-de-obra? A mão aberta? A mão fechada? A mão de ferro? A mão de mestre? A mão morta?
Marca: Toshiba. Título: Bring Life Forward. Agência: Gyro. Direcção: ROOF Studio. USA, Março 2015.
Lavagem a seco
Neste anúncio da Conservação da Natureza do Brasil, uma bela jovem lava um carro, imagem gasta do rosário das mulheres objecto. Sendo a causa louvável, será justo continuar a falar em mulher objecto? Por que não actriz principal ou actriz secundária? Este anúncio é um simulacro. A mulher está a fazer de pin up. Será que a representação é “mais real do que o real”? Será que estamos perante uma falsa pin up mais pin up do que uma pin up verdadeira? O mundo anda tão confuso!
Anunciante: The Nature Conservancy Brasil. Título: Não chove, não lavo. Agência: Africa. Direção: Alaska. Brasil, Outubro 2014.
A arte de escolher as cadeias
“La liberté c’est l’art de choisir ses chaînes” (Pascal / Nietzsche). E cada cadeia que quebramos é um novo espaço de liberdade que conquistamos. Este pensamento acompanha-me desde a adolescência. Sinto-me, porém, menos livre que outrora. Mudou a realidade? Mudou o sentimento? Tanto mandatário da liberdade, e apenas ouço o passo das formigas no chão.
Entre a liberdade e as cadeias não há soma nula. Com o tempo, perdi cadeias e liberdade. Sobra-me a liberdade de escrever para nada. Mal se começa a escrever para algo, logo os dedos ficam entalados e as palavras se encarneiram. Pensar para nada, escrever para nada, é o privilégio do espírito livre, o cúmulo da scholé, a distância à necessidade e à urgência de que fala Pierre Bourdieu.
Vêm estes apontamentos a pretexto do anúncio da H&M e a propósito da vida. O anúncio aposta num movimento sensorial, senão sensual, de dobra e abertura, de envolvimento e liberdade, com sobressaltos de sufoco e libertação. “Sê verde, veste azul”! Eis o pão nosso da liberdade responsável.
Marca: H&M. Título: Go green. Wear Blue. Produção: New Land. Direção: Gustav Johansson. Suécia, Setembro 2014.
O caviar imaginário
Sobriedade e dignidade num anúncio búlgaro: o esturjão, “peixe de luxo”, está a desaparecer das águas do rio Danúbio. Por causa da poluição, das barragens e da pesca excessiva. Trata-se de uma espécie antiquíssima (mais de 300 milhões de anos) de cujas ovas se faz o caviar. Em risco de extinção, o esturjão é uma espécie protegida em todo o território da União Europeia. Caso esta protecção não resulte, o esturjão será mais um peixe imaginário.
Anunciante: WWF. Título: Nothing to be proud. Agência: Ogilvy Group Sofia. Direcção: Drago Sholev. Bulgária, Maio 2014.












