Tag Archive | ecologia

Anúncios e anedotas com excrementos

Caricatura de Alonso(1871-1948) – Um penico cheio!… Primeiro quartel do séc. XX
Apontamentos escatológicos. Rebaixamento, 20.08.2015
Apontamentos escatológicos II. Criatividade, 20.08.2026

O Rei dos Parvos

Nunca subestimem o poder da estupidez humana (Robert Heilein).
São inúmeros os nomes atribuídos à sociedade contemporânea. Sociedade parva também cabe na lista. Somos uma SARL: Sociedade Anónima de Responsabilidade Limitada. O anúncio brasileiro Be an asshole, da Sociedade dos amigos da Amazónia, é uma boa introdução à estupidez, à inércia e à dissipação humanas. (Estúpidos, 21.08.2017).

imagem: George Grosz – The Grey Man Dances, 1949

Estupidez global. Tendências do Imaginário, 14.08.2019
Georges Brassens – Le Roi (des Cons). Fernande, 1972

A Mãe Terra, o Pai Natal e o Consumismo

“Os Correios da Noruega (Posten), encontraram uma perspetiva muito interessante sobre o que significa celebrar o Natal em 2022. Com o combate às mudanças climáticas cada vez mais premente e central nas nossas sociedades, a curta-metragem de 4 minutos mostra a relação de amor e ódio entre o Pai Noel e a Mãe Terra.

Generoso, o Pai Natal está determinado a proporcionar o máximo de alegria às pessoas através da distribuição de presentes, enquanto a Mãe Terra encara o consumo excessivo como um problema.
O serviço postal também utilizou dados do “Índice Climático” da Noruega, que relevam que apenas 10 em cada 100 empresas reduziram as emissões de acordo com as metas estabelecidas no Acordo de Paris, convidando-nos a todos a dar um passo em frente” (LLLLITL).

Anunciante: Posten (The Norwegian Postal Service). Título: Father Christmas and Mother Earth. Agência: POL, Oslo. Noruega, novembro 2022

Ouroboros

“Car Je est un autre” (Arthur Rimbaud, “Lettre du voyant”, 1871)

Ouroboros. Iluminura de breviário do século XIV

Até onde irá a nossa plasticidade? E a reciclagem?

Anunciante: Southern Highlands Matters / Reject Repoly. Título: Little Plastics. Agência: Superlunar. Direção: Superlunar. Austrália, novembro 2025
Anunciante: Volkswagen Group France. Título: Car paradise. Agência: DDB Paris. Direção: Julien Beuvry. França, novembro 2025

Abensonhar

Ministerio de la Educación de Colombia. El Balígrafo. 2016

“Abensonhar” é um verbo criado por Mia Couto no livro Estórias Abensonhadas (1994), cujos contos “falam desse território onde nos vamos refazendo e vamos molhando de esperança o rosto da chuva, água abensonhada”. Creio que estes dois anúncios latino-americanos, com balas transformadas em canetas (e votos) e um campeonato de pesca de plástico, foram, a seu tempo (2016 e 2022), abensonhados. O Presidente da República de Colômbia, Juan Manuel Santos, presente no primeiro anúncio, foi distinguido com o Nobel da Paz em 2016.

[Este artigo foi removido do Facebook]

Anunciante: Ministerio de Educación de Colombia. Título: El Balígrafo. Agência: McCann Colombia. Colômbia, 2016
Anunciante: AB INBEV/Corona. Título: Campeonato de Pesca de Plástico. Agência: We Believers. México, 2022

Os pés

René Magritte. Le Modèle Rouge. 1935

Et puis je jouais avec mes pieds
C’est très intelligent les pieds
Ils vous emmènent très loin
Quand vous voulez aller très loin
Et puis quand vous ne voulez pas sortir
Ils restent là ils vous tiennent compagnie
Et quand il y a de la musique ils dansent
On ne peut pas danser sans eux
Il faut être bête comme l’homme l’est souvent
Pour dire des choses aussi bêtes
Que bête comme ses pied gai comme un pinson
Le pinson n’est pas gai
Il est seulement gai quand il est gai
Et triste quand il est triste ou ni gai ni triste
(Excerto do poema Dans ma maison de Jacques Prévert. Paroles. 1946)

Marca: Bruxelles Mobilité. Título: Les pieds. Bélgica, 2021

Nuvens de lã

Todos viajam nesta casa. A São já está na Holanda e os rapazes, o João e o Fernando, ainda no avião rumo à Coreia do Sul e ao Japão. No que me respeita, nem sequer demando as terras por onde andou o rei pasmado (Gonzalo Torrente Ballester). Fico de guarda, mas não conto carneiros. Vejo, antes, a sua lã transformar-se em nuvens que choram, na extraordinária curta-metragem de animação AFTER DE RAIN, produzida por um grupo de alunos da MoPA (Motion Picture in Arts – Arles, França).

Para a Sara

Um pastor vive sozinho num vale isolado, acompanhado apenas pelo seu rebanho de ovelhas e pelo seu cão fiel. O pastor tem uma aptidão notável: tosquia as ovelhas e cria nuvens com a lã, que por seu turno se desfazem em chuva, mantendo o vale verdejante e fértil. Mas quando o pastor morre, o vale torna-se árido e as ovelhas necessitam ser tosquiadas. Cumpre ao cão encontrar uma solução…
Com imagens extravagantes, uma narrativa escorreita e um fundo musical impecável, esta curta-metragem oferece uma bela parábola sobre natureza, equilíbrio, lealdade e herança. Encanta os olhos e ouvidos com formas suaves e arredondadas e cores lindamente claras, representando personagens e cenários com sensibilidade, graça e atenção aos detalhes e gestos para comunicar emoções. Por exemplo, na maneira como o pastor acaricia o cachorro, na forma como este abana o rabo ou na sua tristeza e perplexidade quando o pastor morre. Mas também há humor fino e bem-disposto, como quando as ovelhas incham por causa da lã demasiado crescida…
AFTER THE RAIN excela ao nível do modo como conta a história. Embora a sua duração seja inferior a nove minutos, possui a profundidade, a inteligência e a sabedoria caraterísticas de narrativas muito maiores. Como a maior parte das grandes histórias da literatura infantil, explora o arquetípico e o simbólico, colocando emoções e dilemas universais ao serviço do esclarecimento moral e emocional (Omeleto, 2020; tradução muito livre).

AFTER THE RAIN. Curta-metragem produzida pelos alunos da Escola de Animação Francesa MoPA Valerian Desterne, Juan Olarte Zuniga, Carlos Osmar Salazar Tornero, Lucile Palomino, Juan Pablo de la Rosa Zalamea, Celine Collin and Rebecca Black, 2019. Colocado por Omeleto no YouTube em janeiro de 2020.

Roupa fantasma

“Every synthetic garment ever made still exists in any form haunting our planet”. Nem mais, nem menos. Trata-se de uma coisa do outro mundo que está a acabar com o nosso! No anúncio “Wear Wool, Not Waste”, da Woolmark Company, a roupa sintética não sei se me lembra os pássaros do Alfred Hitchcock, se os zombies do George A. Romero. Sem poupar nos pixéis, com tanta roupa a cair, além de Os Pássaros (1963) e A Noite dos Mortos-Vivos (1968), acudir-me-ia também o Nove Semanas e Meia (1986), do Adrian Lyne.

Este anúncio é bem ao gosto da Beatriz, em particular da sua devoção pela reciclagem de roupa. Já o comentário, menos sério, duvido.

Marca: The Woolmark Company. Título: Wear Wool, Not Waste. Agência: 20Something. Direção: Jorik Dozy; Sil van der Woerd. Austrália, setembro 2024

Registo Civil Vegetal e Limoeiro

Deforestation – Diário de Pernambuco (BRA) – Jarbas. World Press Cartoon exhibition at the Museum of Modern Art in Sintra, Portugal, 2008

O limoeiro é muito bonito e a flor do limão é doce
Mas o fruto do pobre limão é impossível de comer
(Peter, Paul & Mary, Lemon Tree, 1962)
A árvore torna-se forte com o vento (Séneca, 4 a.C. – 65 d.C.)

Uma ideia genial preside ao anúncio “Árvore”, da rádio e TV brasileira Jovem Pan, qualidade que compensa a fraca resolução do vídeo. Um caso ímpar de minimalismo perspicaz e eloquente, Leão do Festival de Cannes de 1998. As versões inglesa e portuguesa são acompanhadas por dois cartoons deveras sugestivos e pela canção Lemon Tree.

Cartoon: Alireza Karimi Moghaddam, iraniano

Anunciante: Jovem Pan FM. Título: Tree. Agência: AlmapBBDO. Direcção: Sérgio Amon. Brasil, 1998
Anunciante: Jovem Pan FM. Título: Árvore. Agência: AlmapBBDO. Direcção: Sérgio Amon. Brasil, 1998.
Peter, Paul and Mary – Lemon Tree. Peter, Paul and Mary. 1962

O Rei Vai Transparente

Fonte – http://incakolanews.blogspot.com/2011/01/on-copper-etfs-emperors-and-new-clothes.html

Vídeos que convocam a nudez, estilizada ou não, como os seguintes são cada vez mais raros na publicidade e na comunicação social. Migraram para as redes sociais e páginas especializadas da Internet. Trata-se de uma mudança de mentalidade e de sensibilidade, de uma contradança acelerada a que o homem eletrónico nos habituou.

Anunciante: Greenpeace. Título: La Poire. Internacional, 1990

Neste contexto e com esta dinâmica, não admira que estes três anúncios sejam difíceis de encontrar, sobretudo La Poire, de 1990, e Anti Dioxine, de 1997. Para exibir o primeiro, recorri ao arquivo pessoal; o fabuloso arquivo da Culturepub valeu-me no segundo. Procurei e procurei, principalmente o Antidoxine, cujo acesso, em dois tempos, não é amigável: primeiro, carrega-se na imagem do artigo; em seguida, abre-se o vídeo na Culturepub. Nem sequer no arquivo da Greenpeace International o encontrei. O que se compreende. Diferente dos demais, Anti Dioxine não mostra, como diria um tio, as “partes pudibundas”. Sugere algo pior. Dá asas à imaginação. Ora, os neurónios em voo não são de fiar.

Anunciante: Greenpeace. Título: Anti Dioxine. Internacional, 1997

Andam deveras zelosos os guardiões da ética. E muito atarefados, também. A amplitude e as subtilezas do mal não param de alastrar. Neste cenário adverso, toda a ajuda é pouca!

Há quatro ou cinco séculos, as famílias respeitáveis retocavam ou amputavam as pinturas e as esculturas para furtar as crianças a semelhantes obscenidades. Hoje, os bebés mergulham, porventura demasiado cedo, nos ecrãs e folheiam histórias duvidosas. Até a literatura infantil requer pente fino. A começar pelos títulos. Proponho, por exemplo, a alteração de O Rei Vai Nu, de Hans Christian Andersen, para “O Rei Vai Transparente”. Assim, toda aquela multidão não “vê” o rei nu mas transparente! Esta solução possui, aliás, a virtude de se coadunar com o linguajar e as preocupações atuais.

Anunciante: Greenpeace. Título: Sunshine. USA, 2007

Enfim, o único intuito com que partilho estes vídeos indecorosos é de ordem meramente profilática, em jeito de vacina ou para homeopatia. Não se brinca com estas coisas!