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Estúpidos

São inúmeros os nomes atribuídos à sociedade contemporânea. Sociedade parva também cabe na lista. Somos uma SARL: Sociedade Anónima de Responsabilidade Limitada. O anúncio brasileiro Be an asshole, da Sociedade dos amigos da Amazónia, é uma boa introdução à estupidez, à inércia e à dissipação humanas.

Carregar na imagem ou no seguinte endereço para aceder ao vídeo: http://www.dailymotion.com/nu-jeans.

Onça Pintada. Amazónia. Fotografia de Araquem Alcantara.

Onça Pintada. Amazónia. Fotografia de Araquem Alcantara.

Anunciante: Sociedade dos amigos da Amazónia. Título: Be an asshole. Brasil, 2009.

Absurdo ternurento

Kia

Os heróis ecologistas não têm a vida fácil, arriscam acidentes insólitos. Mas Melissa viaja segura num Kia. Os acidentes do anúncio Hero’s Journey são catástrofes absurdas, tão absurdas que se tornam risíveis. O anúncio do Kia Niro lembra os cartoons. Por exemplo, o Bip Bip (The road runner), de Chuck Jones ou A corrida mais louca do mundo (Wacky races) e Tom e Jerry, ambos criados por William Hanna e Joseph Barbera. Opto pelo absurdo ternurento de Tex Avery: Drag-a-long Droopy (1954).

Marca: Kia. Título: Hero’s Journey. Agência: David&Goliath. Direcção: Matthijs Van Heijningen. USA, Fevereiro 2017.

Tex Avery. Drag-a-long Droopy. 1954.

Os Indígenas do Paraíso Perdido

Mongólia

Uma bela natureza num belo filme. Todos ansiamos pelo paraíso perdido. Para os lados da Mongólia, existem dois indígenas munidos de instagram para salvaguarda ecológica. Lembram os “embaixadores” das colónias na Grande Exposição do Mundo Português, de 1940, o álbum Tintin no Gongo, o livro A Nação nas malhas da sua identidade, de Luís Cunha, e o filme Os Deuses Devem Estar Loucos. Águas passadas movem moinhos; a nossa atracção pelo genuíno, pelo outro idealizado, também. A figura do indígena guardião da natureza, que com ela quase se confunde, é recorrente na publicidade.

Marca: Crosscall. Título: Nature’s eyes. Agência: Leo Burnett. Direcção: Fabien Ecochard. França, Março 2017.

A Grande Exposição do Mundo Português (1940). Realizador: António Lopes Ribeiro.

Deflorestação

Quino. Pensamiento

Quino. Pensamento

Este blogue anda meio macabro. Não é de estranhar. Participo numa equipa de investigação sobre a morte nos media e estou a dedicar-lhe a escrita de um livro. A própria sociedade também anda obcecada com a morte. Tropecei com anúncio argentino Sin bosques nos ahogamos todos, da Greenpeace. O título é sugestivo: nos ahogamos todos. Mas o vídeo reforça: um homem, fechado num recipiente transparente, fica sem ar, à medida que as florestas são destruídas, até ao afogamento. Um “espectáculo” de morte.

Anunciante: Greenpeace. Título: Sin bosques nos ahogamos todos. Agência: Wofbpp. Argentina, Agosto 2016.

Para contrariar esta onda funesta, pesquisei as entradas felicidade, alegria e vitalidade nas bases de anúncios. Saiu este Moved by Magic, da rádio Magic FM. Estimulante.

Marca: Magic FM. Título: Moved by Magic. Agência: Mother. Direcção: Daniel Kleinman. UK, 2003.

 

Somos bestiais

E, arremessando a Bíblia, o velho abade
Murmurou:
“Há mais fé e há mais verdade,
 Há mais Deus concerteza
Nos cardos secos dum rochedo nu
Que nessa Bíblia antiga Ó Natureza,
A única Bíblia verdadeira és tu!…”
(Guerra Junqueiro, A Velhice do Padre Eterno. Poema: O Melro)

Mais um vídeo focado, com humor, nas semelhanças entre os seres humanos e os animais. Assenta no lema: não basta empenhar-se  em criar a vida, importa protegê-la! Aprender a “ouvir a natureza” (Victor Hugo).
Para visionar o anúncio, carregar na imagem ou no seguinte endereço: https://www.youtube.com/watch?v=Q8GtYrf9Sz0.

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Marca: WWF. Título: Une planète pour tous. Agência: John St. Canadá, Novembro 2015.

O abismo

Incêndio em Caminha. 2015.

Incêndio em Caminha. 2015.

Em 2012, participei num documentário dedicado a uma árvore de Guimarães. Competia-me cuidar do simbolismo. A árvore é um ser cósmico vivo que acolhe a vida. Agarra-se à terra, bebe água, eleva-se no ar e consume-se no fogo. É uma ponte vertical entre as profundezas da terra e as alturas do céu. Há quem associe a árvore ao sagrado. E ao demoníaco, também. A árvore ergue-se como um marco da memória individual e colectiva. Quando regresso às origens, visito as árvores: a pereira e a tangerineira partiram sem avisar. Menos dois troncos de memória, menos dois anjos da guarda. Valem-me, para compensar, as rotundas e os semáforos. O anúncio Farewell to the forest, da Unilever, sublinha que, no mundo, a cada minuto, é desarborizado o equivalente a 36 estádios de futebol. Um abismo!

O antropólogo George Condominas publicou, em 1957, o livro Nous avons mangé la forêt (Comemos a floresta; Paris, Mercure de France). Estuda os Mnong-Gar dos planaltos do Vietname. Tinham o seguinte costume: num ano, desbastam uma parte da floresta onde semeiam, por exemplo, arroz; no ano seguinte, cortam outra parte da floresta. Ano a ano repetem a proeza. Até que, volvidos vários anos, regressam ao início onde os espera uma floresta recomposta. E recomeçam “a comer a floresta”… É possível explorar a floresta sem a destruir.

Marca: Unilever. Título: Farewell to the forest. Agência: David Buenos Aires/Ogilvy & Matter. Direcção: Nico Perez Veiga. Argentina, Agosto 2015.

Apontamentos escatológicos II. Criatividade.

logo_adelaide-zoo_www-infront-com-auevtzoopops-au-1Nem todos os anúncios escatológicos são grosseiros. Alguns mostram algum refinamento. Creio ser o caso deste Lion, do Zoo de Adelaide (Austrália), galardoado em Cannes. Curto, quase minimalista. Natural…

Marca: Royal Zoological Society of South Australia Zoo Poo Fertilizer. Título: Lion. Agência: Escape Plan / Anifex, Adelaide. Direcção: Michael Kusack. Australia, 2002.

Prometi, no artigo precedente, uma segunda anedota escatológica:

Sentado no meio do caminho, Zéquinha entretem-se com um monte de bosta.
Vem o padre que, incomodado, lhe pergunta:
– Zéquinha, o que estás a fazer?
– Estou a fazer um padre, responde Zéquinha.
O padre afasta-se ofendido.
Vem a professora que pergunta horrorizada:
– Zéquinha, o que estás a fazer?
– Estou a fazer uma professora.
A professora afasta-se indignada.
O padre e a professora apressam-se a contar o desaforo ao polícia.
O polícia dá uma volta e encontra o Zéquinha mais o monte de bosta no caminho. Com voz grossa, pergunta:
– Zéquinha, o que estás a fazer?
– Não sei!
O polícia, presumido, prossegue a conversa:
– Pensei que estavas a fazer um polícia.
O Zéquinha explica de imediato:
– Para fazer um polícia era preciso mais bosta.

O verde vai à cidade

Mordillo

Mordillo

Tendências do Imaginário publicou uma dezena de anúncios dirigidos por Noam Murro. Não resisto a acrescentar este Emerald Cities. A fantasia é ouro no cinzento. Lembra, por acréscimo, os desenhos do Mordillo.

Marca: Kaiser Permanente. Título: Emerald Cities. Agência: Campbell-Ewald,Los Angeles. Direcção: Noam Murro. USA, 2009.

Providência

ToshibaAcabei de ler um livro que dá vontade de ver anúncios publicitários com fundo ecológico. Por exemplo, o Bring Life Forward, da Toshiba. Os conteúdos não brilham pela originalidade: transformar chaminés industriais em ventoinhas eólicas, colocar painéis solares nos telhados, apostar em “transportes inteligentes, ecológicos e integrados”… Mas a mão, o trunfo do anúncio, fascina e inquieta. As soluções ecológicas dependem de uma mão externa? A mão invisível? A mão de Deus? A mão do Diabo? A mão-de-obra? A mão aberta? A mão fechada? A mão de ferro? A mão de mestre? A mão morta?

Marca: Toshiba. Título: Bring Life Forward. Agência: Gyro. Direcção: ROOF Studio. USA, Março 2015.

Lavagem a seco

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Neste anúncio da Conservação da Natureza do Brasil, uma bela jovem lava um carro, imagem gasta do rosário das mulheres objecto. Sendo a causa louvável, será justo continuar a falar em mulher objecto? Por que não actriz principal ou actriz secundária? Este anúncio é um simulacro. A mulher está a fazer de pin up. Será que a representação é “mais real do que o real”? Será que estamos perante uma falsa pin up mais pin up do que uma pin up verdadeira? O mundo anda tão confuso!

Anunciante: The Nature Conservancy Brasil. Título: Não chove, não lavo. Agência: Africa. Direção: Alaska. Brasil, Outubro 2014.