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Abraço digital

Fernando Gonçalves e respetivo robot. Guimarães, 28.11.2025

Não esqueças que o teu filho não é teu filho, mas o filho do seu tempo. (Confúcio)

Na tarde de sexta, 28, a família dividiu-se. O filho defendeu provas de doutoramento em Engenharia Mecânica, em Guimarães e o pai teve a conferência “Com o Filho no Colo: as esculturas da humildade e da piedade” em Braga. O abraço acabou por resultar extemporâneo. Compenso com este digital. Como não me sobra frescura, recorro a memórias musicais de estimação. [Não vai ter tempo para escutar]

Antonio Vivaldi – Recorder Concerto in C major, RV 443, II. Largo. Solo Recorder: Dorothee Oberlinger. Bremer Barockorchester. Live recording in “Unser Lieben Frauen” Church, Bremen on February 13th, 2020
Antonín Dvořák – Symphony No. 9 (Excerpt 2nd movement). at Het Concertgebouw Amsterdam on March 22, 2019. Mariss Jansons conducts
Edvard Grieg – Peer Gynt, Op. 23, Act 4: No. 13, Prelude. Morning Mood. Sir Neville Marriner · Academy of St Martin in the Fields. A Warner Classics release, 1983
Camille Saint-Saëns –  Introduction et rondo capriccioso, Op. 28. María Dueñas. Deutsches Symphonie-Orchester Berlin. Conductor: Mihhail Gerts
Dmitri Dmitriyevich Shostakovich – Piano Concerto No 2: 2nd Movement Andante. By Russian conductor Valery Gergiev, his compatriot classical pianist Denis Matsuev and the Mariinsky Theater Orchestra of St. Petersburg, Russia. Posted: 24/03/2018.

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Vierge à l’Enfant, Nostre Dame de Grasse. Séc. XV. Ca. 1460-1480. Museu dos Agostinhos. Toulouse. Em muitas imagens, a Virgem pressente, melancólica, que o Filho lhe vai escapar, que O vai perder. Mas nada pode fazer para o impedir. Se, por vezes, esboça um gesto, logo o refreia. Aceitou desde a Anunciação, com humildade de serva bem-aventurada (Magnificat), o desígnio, o fado, que comportava a espada que, segundo o profeta Simeão, a trespassaria.

Quero cada vez mais a aprender a ver como belo tudo aquilo que é necessário nas coisas: – Assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas: Amor fati [amor ao destino] (Nietzsche, A Gaia Ciência, Companhia das Letras, 2009, p. 187)

A minha fórmula para a grandeza do homem é amor fati: nada pretender ter de diferente, nada para a frente, nada para trás, nada por toda a eternidade. O necessário não é apenas para se suportar, menos ainda para se ocultar (…) mas para o amar (Nietzsche, Ecce Homo, Universidade da Beira Interior, Covilhã, 2008, p. 42).

Existem momentos em que me acode Nietzche. O 2º movimento, largo, da Sinfonia do Novo Mundo, do Dvorak, recordou-me o seu princípio de afirmação da existência, que consiste em abraçar o destino, dizer sim à vida, mesmo na doença, no sofrimento e na solidão. Fazer da própria fragilidade e dos obstáculos força e vontade, parte desafiante do caminho. Destarte, a dor e o lamento tornam-se serenidade e entrega.

Antonín Dvořák – Sinfonia Nº 9, “Do Novo Mundo” – II – Largo. Wiener Philharmoniker, Herbert von Karajan, 1985

Mio Violino Caro: Itzhak Perlman

Americano, nascido em Telavive em 1945, maestro, professor e cantor, Itzhak Perlman é uma referência incontornável do violino dos séculos XX e XXI. Destaca-se, entre outros aspetos, pelos lugares onde atuou e pelos prémios e galardões que conquistou. Ouvimo-lo em filmes tais como A Lista de Schindler, Fantasia 2000, África Minha ou Memórias de uma Gueixa. Uma poliomielite aos quatro anos deixou-lhe sequelas ao nível da motricidade. Toca habitualmente sentado.

Selecionei as músicas seguintes não tanto pela qualidade intrínseca da interpretação mas, no caso da primeira, pelo compositor, Camille Saint-Saëns, e das duas últimas pelos parceiros que o acompanham: Yo-Yo Ma e Daniel Barenboim, virtuosos do violoncelo e do piano.

Saint-Saëns. Introduction et Rondo Capriccioso, Op. 28. Violino: Itzhak Perlman. Ao vivo no Ed Sullivan Show, Abril d1964
Antonín Dvořák. Humoresque nº 7, Op. 101. Violino: Itzhak Perlman; violoncelo: Yo-Yo Ma. Dvořák in Prague: A Celebration, dezembro 1993
Beethoven: Triple Concerto in C Major, Op.56: II.Largo. Violino: Itzhak Perlman; violoncelo: Yo-Yo Ma; piano: Daniel Barenboim. Acompanhamento: Berliner Philharmonike.

Humoresco

Antonin Dvorak

Em regime mais solar do que lunar, com o social a sobrepor-se cada vez mais ao digital, partilho uma música bem disposta, um humoresco, “curta peça de humor e humor”. Dvorak, com Yo-Yo Ma, no violoncelo, e Itzhak Perlman, no violino.

Yo-Yo Ma & Itzhak Perlman. Humoresque No. 7 in G-flat Major, Op. 101, de Antonin Dvorak. Com a Boston Symphony Orchestra, dirigida por Seiji Ozawa.

“Japanese conductor, American orchestra, Chinese cellist, Israeli violinist, Czech composer”.

Admirável mundo novo

Lucky Luke.

Acabaram as grandes narrativas e os admiráveis mundos novos. Exceto, talvez, o espantoso mundo “pós-novo” da Internet. Na época de Antonín Dvorak (1841-1904), a América era o novo mundo, era o novo mundo desde 1492. Aquando da estreia da Sinfonia do Novo Mundo, em 1893, o Velho Mundo descobria o coração de África, continente nem novo, nem velho, mais tarde “Terceiro”. O célebre e traumático Ultimato Inglês (1890) precedeu três anos a Sinfonia do Novo Mundo.

Em 1893, ainda havia, na América, cowboys, winchesters, colts e xerifes. A vitória dos índios em Little Big Horn (1876) estava fresca na memória. Sitting Bull, um dos protagonistas, foi baleado em Dezembro de 1890. Gerônimo estava na prisão, Calamity Jane era viva. Buffalo Bill montou, em 1883, um circo móvel com espetáculos dedicados ao Oeste Selvagem. Nos livros aos quadradinhos, os cowboys dormem com a cabeça repousada na albarda, aconchegados pelas estrelas. Só lhes falta a música de Dvorak.

Estreada nos Estados Unidos, a Sinfonia do Novo Mundo é empolgante (lembra a nona de Beethoven; ver vídeo 2). Mas contém trechos “suaves e doces”, capazes de embalar um cowboy solitário ou um coração melancólico (vídeo 1).

Dvorak – New World Symphony – 2nd Mvt – 2/6. Czech Philharmonic Orchestra. Cond.: Ion Marin. Prague, 2008.
Dvorak – New World Symphony – 4th Mvt – 5/6. Czech Philharmonic Orchestra. Cond.: Ion Marin. Prague, 2008.