Tag Archive | dominação

A Paixão das Mulheres

Alto Palermo. Mais lindasÀs mulheres, dava jeito um par de mãos suplementar. Vale-lhes o Alto Palermo, um shopping em Buenos Aires. A maioria dos anúncios argentinos destaca-se pela expressividade. Mesmo quando enveredam pela oralidade, os anúncios tendem a sobrepor a ilustração à forma e à retórica. A chave do anúncio é ciosamente adiada para os últimos segundos. Entramos antes de abrir a porta; só com a porta aberta, sabemos onde entrámos.

Marca: Alto Palermo. Título: HandMa. Agência: Young & Rubicam. Argentina, Dezembro 2013.

Para alívio das mulheres, os homens são descartáveis. Uma libertação! A vocação dos homens consiste em ser ex. Por acréscimo, são fáceis de substituir. Abundam, com garantia de qualidade, em locais como o Alto Palermo, “pasión de mujeres”. Um número crescente de marcas prefigura novos tempos em que os homens se convertem em Adónis a tempo parcial, “galateios” à medida e gigolos baratos.

Marca: Alto Palermo. Título: Ex. Agência: Young & Rubicam. Direção: Brian & Nico. Argentina, Dezembro 2013.

Poder entalado

Entre o maço e a pedra situa-se o cinzel, que, à marretada, retalha a pedra. Há quem esteja assim entre o maço e a massa. Nos anos 1930, os engenheiros franceses queixavam-se, por exemplo, de se sentir entre “a bigorna da plutocracia e o martelo do proletariado” (Luc Boltanski, Les cadres, 1982). Num registo próximo, os peixes da gravura de Bruegel (http://tendimag.com/2012/05/27/a-presenca-de-portugal-num-mapa-do-sec-xvi/) comem-se uns aos outros: os maiores devoram os mais pequenos, como no anúncio da Food Chain Friends. Para os entalados da cadeia ou da escada, comer à frente e ser comido por trás pode ser um modo de vida. Outra solução consiste em ser fraco com os fortes e forte com os fracos, postura que se dá bem com os ares da nossa terra. Tanto ou mais do que a vinha. É escusado bater palmas!

Food Chain Friends. Eating Habits.

Crónica de um País Depenado

Depois de tanto prenúncio e tanto sofisma, Portugal acorda trágico. Não é uma mera reincidência da tragédia do fado ou da tragédia sebastiânica, trata-se de uma tragédia da acção, que nos faz e desfaz todos os dias. Não há, agora, guitarra ou nevoeiro que nos valha. Nem Castela ou Inglaterra que nos indigne. Cumpre-nos escolher sem chaves, apostar convictos numa travessia incerta. Não somos heróis, nem cretinos, transportamos apenas, à imagem do Zé Povinho, um peso que nos verga sem promessa de alívio. Mas, está escrito, a nossa alma não é pequena. Portugal é, sem dúvida, um país depenado, onde em cada esquina encontramos um Pedro Só (ver trailer e canção) dominado por “pequenos deuses caseiros”. Mesmo assim, indo além da “Cantilena” de Francisco Fanhais, conseguiremos cantar sem bico e voar sem asas, porque somos herdeiros da noite!

Trailer do filme “Pedro Só”, de Alfredo Tropa (1972); canção homónima de Manuel Freire.

Francisco Fanhais, Cantilena, 1969.