Tag Archive | diversidade

O medo e o racismo

É difícil discorrer sobre o racismo sem incorrer em contradições.  René Gallissot fala de Misère de l’Antiracisme (Paris, Editions de l’Arcantère, 1985). O anúncio Démasquons la Peur, da associação Licra, merece particular atenção. Em primeiro lugar, o morphing permite revelar a diversidade e a plasticidade humanas. Em segundo lugar, o recurso ao preto e branco propicia o esbatimento das cores e a acentuação dos contrastes. O discurso lembra uma árvore de palavras: alia a abrangência troncal à especificação dos ramos. O tópico do medo é matricial: “O racismo é o medo da diferença” (Franck Ntasamara).

Anunciante: Licra. Título: Démasquons la Peur. Agência: Publicis Conseil. Direção: Akim Laouar. França, fevereiro 2021.

Liberdade e diversidade

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Um vídeo divertido que não falha o alvo. Para ver e, eventualmente, rever.

“This is a fun way to talk about a serious subject,” “We enjoyed doing this video because it reflects us. We took the opportunity to celebrate our peoples’ differences, their beauty and contributions” (Michael Bach, Founder and CEO at Canadian Centre for Diversity and Inclusion: http://ccdi.ca/wp-content/uploads/2017/06/20170629-CCDI-Newsletter-July-2017-EN.pdf).

Marca: Canadian Center of Diversity and Inclusion. Título: Free AF. Agência: Rethink. Direcção: David Gaudet. Canadá, Junho 2017.

Original sem limites

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As interpretações, organizadas qual fieiras em viveiro de plantas, começam a ficar entediantes; as pessoas têm saudades das florestas (Kayser, Wolfgang, O grotesco: configuração na arte e na literatura, São Paulo, Ed. Perspectiva [1957], 1986, p. 8).

Neste anúncio da Adidas, tudo está equacionado até ao mais ínfimo pormenor: a imagem, o som e a palavra. Original is never finished.

Marca: Adidas. Título: Original is never finished. Agência: Johannes Leonardo. Direcção: Terence Neale. Estados Unidos, Janeiro 2017.

Mix Brasil: Cultura da diversidade

mix brasil 2014Não vai muito tempo, os homossexuais eram estigmatizados, marginalizados e silenciados. A homofobia ainda perdura. Hoje, as organizações e os movimentos LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgéneros) fazem-se ouvir. É o caso do Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade (13 a 23 de Novembro de 2014, em São Paulo). Os anúncios são criativos e bem concebidos. O primeiro, “Fantasias”, ilustra, com recurso a várias técnicas de animação, a diversidade de práticas sexuais, apelando ao sexo seguro. O segundo, “Todo o mundo é gay”, assume que qualquer pessoa pode ser rotulada, ao mínimo indício e preconceito, como homossexual. O festival abre-se, portanto, a toda a população, independentemente da orientação sexual. “Se todo mundo é gay, o Mix Brasil é para todo o mundo”.

Anunciante: Mix Brasil. Título: Fantasias. Agência: Neogama/BBH. Direção: Fábio Acorsi. Brasil, Setembro 2014.

Anunciante: Mix Brasil. Título: Todo o mundo é gay. Agência: Neogama/BBH. Brasil, Novembro 2014.

Kiss my ass (Beija minha bunda)

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Todo o tempo é pouco para a beata burocracia. Após um jejum de vários dias, regresso ao blogue com este Beyond Appearances – Diversity Song, um anúncio impatante, combativo, com garra, senão raiva, contra o preconceito, a discriminação e o estigma. Interpela as boas consciências. Termina com um trunfo, um joker, inesperado: o intérprete da canção, Asta Philpot, sofre de artrogripose. O anúncio desconcerta-nos desmontando, caso a caso, a ilusão das primeiras impressões. Os agredidos tornam-se agressivos? Eles ou quem os representa? Quem fala, a pessoa ou a máscara pública? Segue uma passagem do livro Estigma, de Erving Goffman. Pensar e agir, no que respeita à discriminação e ao estigma, é caminhar em terreno movediço.

https://vimeo.com/118030728

Anunciante: Asta Philipot Foundation. Título: Beyond Appearances – The Diversity Song. Agência: Being Paris. Direcção: Pierre Edelmann. França, Abril 2014.

“Assim, mesmo que se diga ao indivíduo estigmatizado que ele é um ser humano como outro qualquer, diz-se-lhe que não seria sensato tentar encobrir-se ou abandonar “seu” grupo. Em resumo, diz-se-lhe que ele é igual a qualquer outra pessoa e que não o é – embora os porta-vozes concordem pouco entre si em relação a até que ponto ele deva pretender ser um ou outro. Essa contradição e essa pilhéria constituem a sua sorte e o seu destino. Elas desafiam constantemente aqueles que representam o estigmatizado, obrigando esses profissionais a apresentar uma política coerente de identidade, permitindo-lhes que percebam logo os aspectos “inautênticos” de outros programas recomendados, mas, ao mesmo tempo com muita lentidão, que não pode haver nenhuma solução “autêntica”.

O indivíduo estigmatizado, assim, se vê numa arena de argumentos e discussões detalhados referentes ao que ele deveria pensar de si mesmo, ou seja, à identidade do seu eu. Aos demais problemas, ele deve acrescentar o de ser simultaneamente empurrado em várias direcções por profissionais que lhe dizem o que deve fazer e pensar sobre o que ele é e não é, e tudo isso, pretensamente, em seu próprio benefício. Escrever ou fazer discursos defendendo qualquer uma dessas saídas é, em si, uma solução interessante, mas que, infelizmente, é negada à maior parte dos que simplesmente lêem e escutam.” (Erving Goffman, Estigma).