Tag Archive | despedida

A Deus

Alessandroni Grave, Verano Monumental Cemetery. Roma.
Purcell – March / Music for the Funeral of Queen Mary (Funeral Sentences) Z. 860. Interpretação: Baroque Brass of London, Choir of Clare College Cambridge & Timothy Brown.

Os ossos não enganam: a dança dos esqueletos

Figura 1. Franciszek Lekszycki . Dança macabra. Cracóvia, Polónia. Século XVII. Curiosamente, as danças da morte neste quadro e no seguinte contemplam apenas mulheres. Lembram as naves das loucas (ver
https://tendimag.com/2014/07/29/michel-foucault-e-a-nave-dos-loucos/ )

“Nenhum homem há naquele ponto que não desejara muito uma de duas: ou não ter nascido, ou tornar a nascer de novo, para fazer uma vida muito diferente. Mas já é tarde, já não há tempo” (Padre António Vieira).

The dance of death. Oil painting. Sec. XVII. Credit: Wellcome Library, London. Wellcome Images images@wellcome.ac.uk http://wellcomeimages.org.

“Para nascer Portugal: para morrer o mundo” (Padre António Vieira). A despedida é fado, o afastamento o corolário. Despedi-me da aldeia para estudar em Braga; de Braga para estudar em Paris; de Paris para trabalhar em Braga. O que mais custa na despedida não é a adaptação ao novo destino, é o afastamento de um pedaço de vida. É um vazio que trespassa o esqueleto. Partir e repartir é cavar cemitérios de amizades e desbastar florestas de rotinas. Partir empobrece! Suspende-se a familiaridade do mundo da vida. Afastei-me sempre voluntariamente. Volto a pressentir a semente do alheamento. Mas imagino esta nova travessia diferente. Não perco a familiaridade do mundo, nem os amigos; apenas aqueles que não tenho. Há três contingências a que os ossos não se habituam: à água do mar, à febre de protagonismo e ao feiticismo da sabedoria. Prevejo afastar-me aos poucos num alheamento a prestações. Como os intérpretes da Sinfonia do Adeus, de Joseph Haydn, que se retiram do palco sem que a música deixe de cumprir a sua promessa. A Dança dos Esqueletos, de Walt Disney (1929), precede A Sinfonia do Adeus (1772) de Joseph Haydn (no vídeo, a deserção dos intérpretes começa no minuto 4).

Walt Disney. A Silly Shimphony: The Skeleton Dance. 1929.
Joseph Haydn. Sinfonia 45. A Sinfonia do Adeus. 1772.

Toque humano

Nike. The ConductorEste anúncio principia com uma jogada de basquetebol. Pensei para com os meus botões: mais um anúncio à americana. É, contudo, um anúncio da Nike pela Wieden + Kennedy, uma das melhores agências do mundo. Continuei. Afinal, era um “anúncio à americana” com muita qualidade. Câmaras preguiçosas, luzes sensíveis e um coro de amor e ódio, na despedida de Kobe Bryant. Deve ser isto o human touch entre a marca e o público. O anúncio termina com o mote always love the hate. Mais uma provocação da Nike? Pelo sim, pelo não, vale a pena ler o Novo Testamento.

Marca: Nike. Título: The Conductor. Agência: Wieden + Kennedy, Portland. Direcção: Mark Romanek. USA, Abril 2016.

Só se morre uma vez

“Só se morre uma vez, e é por muito tempo” (Molière, Le Dépit Amoureux, 1656).

Sugeri, num artigo recente, que o Ocidente tem dificuldade em lidar com a morte. Pois não parece. Curiosamente, nesta quadra dedicada ao nascimento, multiplicam-se os anúncios que convocam a morte. É o caso do emocionante Dear Brother, da Johnnie Walker. Resistimos à morte cultivando a memória e a magia. O anúncio é recheado de recordações. Um toque de magia, ou, se se preferir, de religião, culmina o vídeo. Magia em torno de rituais, de símbolos, de gestos e de fetiches. Por exemplo, a partilha de uma garrafa de Whiskey. Nós sabemos que a morte nos espera. A informação de que dispomos é tão suficiente para confirmar a vida quanto para garantir a morte. E, no entanto, algum nó em algum dos nossos arquétipos nos faz viver como se fosse para sempre. Algo em nós nos ofusca. “Viver para a morte”, ou “viver com a morte”, não é nada confortável. E neste mundo da ciência e da técnica, o incómodo não esmoreceu. Por causa do “desencantamento do mundo” (Max Weber), mas sobretudo pela alteração histórica da representação do percurso de vida. Se é verdade que “mal um homem vem à vida, já é bastante velho para morrer” (Heidegger, Ser e Tempo, 1ª ed. 1927), também não é menos certo que, num passado recente, o envelhecimento significava amadurecimento, sabedoria e, eventualmente, aproximação ao divino. Na atualidade, o envelhecimento é encarado e vivido como degenerescência. Estamos perante um novo “triunfo da morte”: o triunfo da “morte social”. Entre o nascimento e a morte, navega-se, hoje, de cais em cais, com outro espírito.

Para uma análise mais detalhada do anúncio Dear Brother: http://www.adweek.com/adfreak/breathtaking-spec-ad-johnnie-walker-best-student-work-ever-168620.

Para aceder ao anúncio, carregar na imagem.

Johnnie Walker Dear Brother

Marca: Johnnie Walker. Título: Dear Brother. Direcção: Dorian Lebherz & Daniel Titz. Dezembro 2015.

À Irlandesa

Este anúncio é um caso à parte: 150 segundos de extrema qualidade. Sente-se a Irlanda, húmida, verde e cinzenta. Respira-se cultura. Amizade e separação, fé e morte, audácia e melancolia. A noiva, o muro, o whiskey e a passagem… A Parting Glass, canção tradicional, dá o tom, o compasso, a voz e a letra ao filme. Quem fez este anúncio, irlandês ou não, apaixonou-se por ele. Para aceder ao anúncio, carregar na imagem.

Tullamore Dew Irish Whiskey

Marca: Tullamore Dew Irish Whiskey. Título: The Other Wall. Agência: Opperman Weiss. Direcção: Laurence Dunmore. Irlanda, 2013.