Traseiro arrojado
O grotesco está a pegar de estaca. Na publicidade como na política. Que significa a coexistência de uma censura omnívora cada vez mais zelosa, a que nem sequer escapa a sombra de um seio de uma escultura clássica, com uma permissividade desbragada, em que as nádegas podem falar mais alto? Dualismo ou forma de gerir valores e emoções?
O anúncio norueguês “Start your own”, da DNB, apostado no desafio de uma nova vida, proporciona uma oportunidade para abraçar o dia bem-disposto e irreverente.
Até breve!

Regressado do outro lado do mar, despede-se um amigo, cunhado e último companheiro de matraquilhos. Até breve!
Imagem: Guido Reni (cópia a partir de). O Menino Jesus Observando a Cruz. Séc. XVII. Museu do Louvre. Guido Reni (1575-1642.
Abençoado

Benedictus
Qui venit in nomine Domini
Benedictus qui venit in nomine domini
Hosanna in excelsis
Hosanna in excelsis
Benedictus qui venit in nomine domini
(Karl Jenkins. Benedictus. 2001)
Repousam no nosso coração aqueles que partem sem nos deixar.
Recoloco três músicas: Benedictus, Concerto de Aranjuez e Caruso. Recolocar não é repetir; aumenta a ressonância. Também pode relevar da oração.
Uma intervenção memorável

A estação das homenagens acabou. Terça, dia 29 de novembro, foi uma festa. No ambiente acolhedor do museu D. Diogo de Sousa, foram sábios e generosos os testemunhos dos colegas e amigos, inspiradas e alegres as danças do Grupo Etnográfico da Casa do Povo de Melgaço, virtuosa e tocante a guitarra do Francisco Berény Domingues, franco e caloroso o público, cuidado e oportuno o lançamento do livro Sociologia do Imaginário e reparador o alvarinho de honra. Ritual, a “lição” lembrou vagamente as antigas aulas.
No dia 8 de novembro, por ocasião do 46º aniversário, o Instituto de Ciências Sociais entendeu dedicar-me um momento de “despedida”. Coube a apresentação, inspirada e eloquente, ao colega e amigo Jean-Martin Rabot. Excessivo no elogio, introduziu um momento inesquecível temperado por um humor inconfundível e desconcertante. Somos os membros mais antigos do Departamento de Sociologia. Um par de decanos que partilhou experiências inenarráveis.
Jovens, aproveitamos as férias de Natal para nos deslocar, eu a Paris e ele a Estrasburgo, no carro, um “dois cavalos”, do Jean-Claude Beaudoin, então leitor de francês na Universidade do Minho. Nevava. Nevou, aliás, toda a viagem. Ainda em Trás-os-Montes, uma roda danificou-se num buraco. Tivemos que ir concertá-la a Montalegre. Retomada a estrada, o limpa para brisas regulava-se pelo acelerador: ora mais depressa, ora mais devagar, consoante a velocidade. A neve só desapareceu, com o piso salgado, quando entrámos em França. E assim peregrinámos gelados durante um dia e uma noite. Chegados a Paris, o Jean-Claude Beaudouin perguntou como seria o reencontro para o regresso. Ambos respondemos: “Se não te importas, vamos de comboio”.
Outra vez, estava a jogar matrecos na esplanada do café da minha freguesia, Prado, em Melgaço. Sou um aficionado. No comércio da família, tínhamos matrecos. Em criança, colocavam-me em cima de uma caixa de madeira para jogar. Eis que, ao longe, surgem duas pessoas molhadas da cabeça aos pés, com colete salva-vidas e um remo na mão. Aproximam-se… O Jean-Martin Rabot e o Jean-Claude Beaudoin! Tinham ido estrear o caiaque do Jean-Claude no rio Minho que desastradamente perderam num dos troços que são, agora, atração do rafting. “Malucos, diz um velho, eles não sabiam que o rio tem correntes e remoinhos perigosíssimos!”. Pelos vistos, não. Tiveram a coragem dos ignorantes e a sorte dos inocentes.
Segue, com cumplicidade e gratidão, a intervenção do Jean-Martin Rabot.
No limite: The Kills I

“A morte não é acontecimento da vida. Não se vive a morte. / Se por eternidade não se entender a duração infinita do tempo mas a atemporalidade, vive eternamente quem vive no presente. / Nossa vida está privada de fim como nosso campo visual, de limite” (Ludwig Wittgenstein. Tractatus Logico-Philosophicus. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1968, p. 127).
Mudar de música ajuda a mudar de atitude. Tive São João em casa. Quatro em cada cinco jovens admitiram não ter ouvido falar dos The Kills. Este e o próximo posts ser-lhes-ão dedicados. Seguem, por enquanto, duas versões mais despojadas e mais raras, com menos punch e batida do que o duo nos habituou.
Os ossos não enganam: a dança dos esqueletos

https://tendimag.com/2014/07/29/michel-foucault-e-a-nave-dos-loucos/ )
“Nenhum homem há naquele ponto que não desejara muito uma de duas: ou não ter nascido, ou tornar a nascer de novo, para fazer uma vida muito diferente. Mas já é tarde, já não há tempo” (Padre António Vieira).

“Para nascer Portugal: para morrer o mundo” (Padre António Vieira). A despedida é fado, o afastamento o corolário. Despedi-me da aldeia para estudar em Braga; de Braga para estudar em Paris; de Paris para trabalhar em Braga. O que mais custa na despedida não é a adaptação ao novo destino, é o afastamento de um pedaço de vida. É um vazio que trespassa o esqueleto. Partir e repartir é cavar cemitérios de amizades e desbastar florestas de rotinas. Partir empobrece! Suspende-se a familiaridade do mundo da vida. Afastei-me sempre voluntariamente. Volto a pressentir a semente do alheamento. Mas imagino esta nova travessia diferente. Não perco a familiaridade do mundo, nem os amigos; apenas aqueles que não tenho. Há três contingências a que os ossos não se habituam: à água do mar, à febre de protagonismo e ao feiticismo da sabedoria. Prevejo afastar-me aos poucos num alheamento a prestações. Como os intérpretes da Sinfonia do Adeus, de Joseph Haydn, que se retiram do palco sem que a música deixe de cumprir a sua promessa. A Dança dos Esqueletos, de Walt Disney (1929), precede A Sinfonia do Adeus (1772) de Joseph Haydn (no vídeo, a deserção dos intérpretes começa no minuto 4).
Toque humano
Este anúncio principia com uma jogada de basquetebol. Pensei para com os meus botões: mais um anúncio à americana. É, contudo, um anúncio da Nike pela Wieden + Kennedy, uma das melhores agências do mundo. Continuei. Afinal, era um “anúncio à americana” com muita qualidade. Câmaras preguiçosas, luzes sensíveis e um coro de amor e ódio, na despedida de Kobe Bryant. Deve ser isto o human touch entre a marca e o público. O anúncio termina com o mote always love the hate. Mais uma provocação da Nike? Pelo sim, pelo não, vale a pena ler o Novo Testamento.
Marca: Nike. Título: The Conductor. Agência: Wieden + Kennedy, Portland. Direcção: Mark Romanek. USA, Abril 2016.
Só se morre uma vez
“Só se morre uma vez, e é por muito tempo” (Molière, Le Dépit Amoureux, 1656).
Sugeri, num artigo recente, que o Ocidente tem dificuldade em lidar com a morte. Pois não parece. Curiosamente, nesta quadra dedicada ao nascimento, multiplicam-se os anúncios que convocam a morte. É o caso do emocionante Dear Brother, da Johnnie Walker. Resistimos à morte cultivando a memória e a magia. O anúncio é recheado de recordações. Um toque de magia, ou, se se preferir, de religião, culmina o vídeo. Magia em torno de rituais, de símbolos, de gestos e de fetiches. Por exemplo, a partilha de uma garrafa de Whiskey. Nós sabemos que a morte nos espera. A informação de que dispomos é tão suficiente para confirmar a vida quanto para garantir a morte. E, no entanto, algum nó em algum dos nossos arquétipos nos faz viver como se fosse para sempre. Algo em nós nos ofusca. “Viver para a morte”, ou “viver com a morte”, não é nada confortável. E neste mundo da ciência e da técnica, o incómodo não esmoreceu. Por causa do “desencantamento do mundo” (Max Weber), mas sobretudo pela alteração histórica da representação do percurso de vida. Se é verdade que “mal um homem vem à vida, já é bastante velho para morrer” (Heidegger, Ser e Tempo, 1ª ed. 1927), também não é menos certo que, num passado recente, o envelhecimento significava amadurecimento, sabedoria e, eventualmente, aproximação ao divino. Na atualidade, o envelhecimento é encarado e vivido como degenerescência. Estamos perante um novo “triunfo da morte”: o triunfo da “morte social”. Entre o nascimento e a morte, navega-se, hoje, de cais em cais, com outro espírito.
Para uma análise mais detalhada do anúncio Dear Brother: http://www.adweek.com/adfreak/breathtaking-spec-ad-johnnie-walker-best-student-work-ever-168620.
Para aceder ao anúncio, carregar na imagem.
Marca: Johnnie Walker. Título: Dear Brother. Direcção: Dorian Lebherz & Daniel Titz. Dezembro 2015.
À Irlandesa
Este anúncio é um caso à parte: 150 segundos de extrema qualidade. Sente-se a Irlanda, húmida, verde e cinzenta. Respira-se cultura. Amizade e separação, fé e morte, audácia e melancolia. A noiva, o muro, o whiskey e a passagem… A Parting Glass, canção tradicional, dá o tom, o compasso, a voz e a letra ao filme. Quem fez este anúncio, irlandês ou não, apaixonou-se por ele. Para aceder ao anúncio, carregar na imagem.
Marca: Tullamore Dew Irish Whiskey. Título: The Other Wall. Agência: Opperman Weiss. Direcção: Laurence Dunmore. Irlanda, 2013.



