Repassagem
Si vis vitam, para mortems. Si tu veux pouvoir supporter la vie, soit prêt à accepter la mort [Se queres poder suportar a vida, está pronto a aceitar a morte] (Sigmund Freud, Essays de Psychanalyse, Payot, 1927, p. 264)

Sem despedidas protocolares, mergulha-se, subitamente, mais resignado que resistente numa plataforma mais despojada que desolada. Deambula-se, letargicamente, numa estranheza que não se estranha. Talvez um providencial sopro ínfimo conduza a um portal de escape. Uma experiência insólita, que nem os muitos fantasmas da psicanálise conseguem elucidar. Um resgate despoletado por um caprichoso motivo insuspeito. Por exemplo, o cheiro apelativo a frango frito desossado.
Imagem: Francisco Goya. O Cão. 1819-23. Museu do Prado
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Profundo e insuperavelmente leve!
“Já alguém sentiu a loucura de vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
….
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem nem resignação
…
“
Almada Negreiros (excerto de “Reconhecimento à loucura”)
Dizem que o cheiro é a nossa primeira memória, assim o cheiro a casa queima barreiras. Regressa-se. Não importa se um perfume ou frango frito. É a maravilhosa ironia do estar vivo.(Almerinda Van Der Giezen, 14/06/2025)
O pastor, a cabra e o cordeiro

A ópera Thaïs (1894), de Jules Massenet, baseia-se no romance homónimo de Anatole France (1889), que, por seu turno, se inspira nas vidas de São Paphnutius (Pafnúcio) de Tebas e Santa Thaïs (Taíde) de Alexandria, ambos de século IV, consagrados pelas igrejas católica, ortodoxa e copta, celebrados, respetivamente, nos dias 11 de setembro e 8 de outubro (para um resumo das suas vidas, consultar os seguintes links: Paphnutius of Thebes; e Santa Thais, Penitente).

No romance de Anatole France, o anacoreta Paphnutius, arrependido de sua juventude frívola, retira-se no deserto, onde acaba por se tornar abade de um conjunto de monges fundamentalistas egípcios. Uma visão impele-o a sair do deserto para “salvar a alma” de Thaïs, uma bela e rica cortesã, “prostituta de elite”, da cidade de Alexandria. Com imensa dificuldade, consegue convertê-la, convencendo-a a ingressar num convento. O pastor transforma a cabra em cordeiro.

Mas será a sua vez de cair em tentação. Apaixona-se por Thaïs, sofrendo mil atribulações, incluindo ciúme pelos seus antigos amantes. Não há oração nem ascetismo capazes de o redimir. A salvação amaldiçoa o salvador. Trata-se de um desenlace perverso atendendo que a resistência às tentações representa uma das maiores virtudes dos anacoretas. As investidas do mal costumavam aparecer menos como demónios horrendos (ver o painel de Matthias Grunewald) e mais disfarçados sob figuras belas e atraentes (ver a pintura de Pieter Coecke Van Aelst, o Velho).
Recomendo a leitura do romance Thaïs, de Anatole France. Junto duas cópias em pdf: a primeira do original em francês, a segunda da tradução inglesa.


Seja-me permitido, a despropósito e a contramão, efabular ou proverbializar sobre a ambivalência dos símbolos: o pastor não deixa de ser um zeloso guardador de rebanhos; a cabra, sobretudo a montesa, uma apreciadora da liberdade; e o cordeiro, um potencial lobo disfarçado. Não dá para jurar, tão pouco ignorar.
A Nostalgia do Invisível
Este fim-de-semana visitei a família. Pouco trabalhei. Avaliei uma dezena de trabalhos. Pequei por negligência! Na nova ordem laboral, não há dia do Senhor, estamos sempre disponíveis para o chamamento. O trabalho actual é filho da desmaterialização e enteado da ubiquidade. A autoridade já não precisa do panóptico.
Dou aulas há 36 anos. Tempo suficiente para observar o ensino superior ceder perante o peso da investigação burocrática. Tenho desaprendido muito. A aprendizagem conquista-se. Os trabalhos práticos ajudam. Querem-se, no entanto, exigentes, abertos, envolventes e criativos. Um trabalho simples, normal, enquadrado e previsível é um placebo para a inteligência.
A disciplina de Sociologia e Semiótica da Arte pedia um trabalho com contornos claros: a comparação entre duas “realidades” (obras, autores, movimentos…) pertencentes a géneros distintos (pintura, cinema, escultura, música, literatura, documentário, publicidade…). O modo e a escolha competiam aos alunos. O resultado pretendia-se mais intensivo do que extensivo. Um relatório sucinto, ao jeito de um artigo para um blogue.
O trabalho A Nostalgia do Invisível – Memória e Imaginário, de Vanessa Caroline de Almeida Ancântara, é surpreendente e arrojado: uma aproximação entre o documentário chileno Nostalgia de Luz, do cineasta Patricio Guzmán, e o livro Cidades Invisíveis, de Italo Calvino. Confesso que me acontece aprender mais com os trabalhos práticos dos alunos do que com os artigos indexados dos colegas. Honi soit qui mal y pense!
A nostalgia do invisível – Memória e imaginário
Por Vanessa Caroline de Almeida e Alcântara
“Os que têm memória são capazes de viver no frágil tempo presente, os que não a têm, não vivem em nenhuma parte.”
Patricio Guzmán
A literatura e o cinema têm um longo histórico de correlação. São linguagens diferentes, duas formas de representar o real ou o imaginado, de contar experiências, construir representações. Algumas vezes se justapõem. Quando me deparo, no entanto, com obras muito diferentes, busco nelas encontrar um ponto comum; a capacidade de comunicar-se com um outro ao contar uma história – a habilidade de fazer existências diferentes se aproximarem na mesma experiência, que perpassa pela capacidade que têm apenas os grandes artistas de tanger o sublime ao desenrolar suas obras. E há duas destas que nos últimos tempos chamaram-me a atenção pela sensibilidade em que falam sobre a experiência humana. Um filme e um livro. Por possuírem a bonita capacidade de aproximar-se do que é mais humano nas histórias que pretendem contar, elas tocam-se também em outro ponto: a construção da memória através do imaginário.
Nostalgia da Luz é um documentário chileno do cineasta Patricio Guzmán. Em resumo, trata-se de um olhar sobre um episódio penoso na história do Chile, a Ditadura Militar que teve lugar entre as décadas de 1970 e 1990. Na paisagem dura do deserto de Atacama, duas histórias se entrelaçam – a dos sobreviventes do regime do General Pinochet, e a dos astrônomos que têm como base o observatório espacial ALMA. Assim, o diretor traça um paralelo entre os que buscam a memória na terra, e os que buscam o possível futuro no cosmos, e o faz a partir de um símbolo: a luz. Na terra, que ilumina a história, no céu, que busca explicações do passado e previsões para o futuro.
Nostalgia da Luz é um filme sobre a distância entre o céu e a terra, entre a luz do cosmos e os seres humanos e as misteriosas idas e voltas que se criam entre eles. No Chile, a três mil metros de altura, os astrônomos vindos de todo o mundo se reúnem no Deserto do Atacama para observar as estrelas. Aqui, a transparência do céu permite ver até os confins do universo. Abaixo, a secura do solo preserva os restos humanos intactos para sempre: múmias, exploradores, aventureiros, indígenas, mineradores e ossos dos prisioneiros políticos da ditadura. Enquanto os astrônomos buscam a vida extraterrestre, um grupo de mulheres remove as pedras: buscam a seus familiares.

Nostalgia da Luz. Corpo de uma prisioneira do Regime Militar encontrado no deserto durante as filmagens.
Nostalgia da Luz: Corpo de uma prisioneira do Regime Militar encontrado no deserto durante as filmagens.
Cidades invisíveis, do italiano Italo Calvino, é uma obra literária que parte de uma alegoria. Apresenta-se como um relato de viagens que o explorador Marco Polo faz a Kublai Kan, Imperador dos Tártaros, onde Polo descreve ao Grão Kan cidades impossíveis, a partir de conceitos do imaginário humano – a morte, o desejo, a memória, o céu, o nome, o obscuro, os sinais. Nele, a cidade deixa de ser um espaço geográfico e torna-se uma inesgotável representação de símbolos derivados da experiência humana.
As duas obras, de formas muito diferentes, falam sobre memória, e do que nos move a buscar, em outras terras ou outros tempos, a nossa própria – coletiva ou não.
… – Sire, já te falei de todas as cidades que conheço.
– Falta uma de que nunca falas.
Marco Polo baixou a cabeça.
– Veneza – Disse o Kan.
Marco sorriu. – E de qual julgavas que eu te falava?
O Imperador nem pestanejou – Mas nunca te ouvi dizer o seu nome.
E Polo: – Sempre que descrevo uma cidade, digo qualquer coisa de Veneza.
– Quando te pergunto por outras cidades, quero ouvir-te falar delas. E de Veneza, quando te pergunto por Veneza.
– Para distinguir as qualidades das outras, tenho que partir de uma primeira cidade que está implícita. Para mim é Veneza.
(Calvino p. 98)
Imaginário e memória são conceitos que se perpassam na experiência humana, ambos imbricados na subjetividade, partem de pressupostos mais simbólicos que concretos. Simbióticos, um não existe um sem o outro. Nosso imaginário não existiria sem memória, esta, seria vazia sem ele. E por ser resultado de um constante processo de reelaboração simbólica, a memória é viva. Em Guzmán, ela está no deserto que guarda lembranças da humanidade, em Calvino, nas cidades que são metáforas de aspectos da nossa existência. Calvino fala de imaginário através de símbolos, Guzmán, de história.
Obras simples, que dizem muito sobre o mais belo e o mais cruel da criação humana, Nostalgia da Luz e Cidades Invisíveis desenham-se como espelhos, refletindo a complexidade do nosso imaginário e da nossa curta existência através dos significados que atribuímos às nossas memórias.
Vanessa Caroline de Almeida e Alcântara
(Trabalho para a disciplina de Sociologia e Semiótica da Arte, do curso de Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, 2018)



