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Pobres dos pobres

depault-franceAproxima-se a feira dos santos em Cerdal, no concelho de Valença. Peregrinavamos desde Melgaço. A minha perdição eram os pericos dos santos, peras pouco maiores do que cerejas. Era um dia farto para ricos e pobres. Há mais de meio século que não como pericos. Os amigos oferecem-me, de vez em quando, livros. Melhor me oferecessem pericos.

Lançado no dia internacional para a erradicação da pobreza (17 de Outubro), o anúncio 100 years of poverty, da Depaul France, ilustra as mudanças na aparência dos pobres desde 1916. O anúncio contrapõe-se à série “100 years of Beauty” / “100 years of fashion”.  Repare-se no modo como contempla o crescimento recente dos novos pobres.

Marca: Depault France. Título: 100 years of poverty. Agência: Publicis Conseil. França, Outubro 2016.

Não resisto a colocar o poema “Os pobrezinhos”, de Guerra Junqueiro.

OS POBREZINHOS

Pobres de pobres são pobrezinhos
Almas sem lares, aves sem ninhos.

Passam em bandos, em alcateias,
Pelas herdades, pelas aldeias.

É em Novembro, rugem porcelas.
Deus nos acuda, nos livre delas!

Vem por desertos, por estivais,
Mantas aos ombros, grandes bornais,

Como farrapos, coisas sombrias,
Trapos levados nas ventanias.

Filhos de Cristo, filhos d’ Adão
Buscam no mundo côdeas de pão!

Há-os ceguinhos, em treva densa,
D’ olhos fechados desde nascença.

Há-os com feridas esburacadas,
Roxas de lírios, já gangrenadas.

Uns de voz rouca, grandes bordões
Quem sabe lá se serão ladrões!

Outros humildes, riso magoado,
Lembram Jesus que ande disfarçado.

Enjeitadinhos, rotos, sem pão,
Tremem maleitas d’ olhos no chão

Campos e vinhas! hortas com flores!
Ai, que ditosos os lavradores!

Olha fumegam tectos e lares
Fumo tão lindo! branco, nos ares!

Batem às portas, erguem-se as mães,
Choram meninos, ladram os cães.

Rezam e cantam, levam a esmola,
Vinho no bucho, pão na sacola.

Fruta da horta, caldo ou toucinho
Dão sempre os pobres a um pobrezinho.

Um que tem chagas, velho, coitado,
Quer ligaduras ou mel rosado.

Outro, promessa feita a Maria,
Deitam-lhe azeite na almotolia.

Pelos alpendres, pelos currais,
Dormem deitados como animais.

Em caravanas, em alcateias,
Vão por herdades, vão por aldeias.

Sabem cantigas, oraçõezinhas,
Contos d’ estrelas, reis e rainhas.

Choram cantando, penam rezando,
Ai, só a morte sabe até quando!

Mas no outro mundo Deus lhes prepara
Leito o mais alvo, ceia a mais rara.

Os pés doridos lhos lavarão
Santos e santas com devoção!

Para lava-los, perfumaria
Em gomil d’ouro a bacia.

E embalsamados, transfigurados,
Túnicas brancas, como em noivados,

Viverão sempre na eterna luz,
Pobres benditos, amém, Jesus!

Guerra Junqueiro